31 de março de 2004

Dos Castros e Alcides

Há dois anos atrás tive aula com um professor chamado Rui Alcides na terra dos feriados nacionais. Ele era professor de geografia e aviador nas horas vagas. Com exceção das aulas que eu matava, que ele matava e que eu conversava, poucas restavam. Nas raras vezes em que eu prestava atenção, ele mentia coisas absurdas e a turma inteira, é claro, acreditava. Era um cara legal, mas virou história. Hoje, deve continuar mentindo em algum canto do planeta.

Já Castro é do interior do Rio Grande do Sul e se parece bastante com Rui Alcides. Nasceu em uma família muito pobre e foi adotado por fazendeiros ricos da divisa com o Uruguai. Cresceu, estudou e foi aceito na aeronáutica. Casou com uma polaca, teve duas filhas feias e hoje é taxista na cidade grande. Viajou o Brasil inteiro, me mostrou fotos antigas e contou que combustível de jato é querosene. Tem casa própria na cidade, na praia e no campo. O genro publicitário vai casar com a filha nutricionista que fala alemão e faz dança do ventre. Ficamos amigos, mas o papo durou apenas cinco minutos. Mudou minha concepção sobre pessoas que gostam de pilotar aviões. Quando menos a gente espera, uma pessoa legal pode cruzar o nosso caminho.

30 de março de 2004

Quero ser John Malkovich

Esse é o dia de alguém como eu. Dorme às quatro, acorda às dez. Levanta, liga o computador, volta a dormir. Acorda às onze, checa e-mails, vai pro banho, navega, perde a hora e corre pra lavanderia com a maior troxa de roupas de uma vida inteira. Demora no preenchimento do cadastro, atravessa a rua e quase morre, corre pra parada de ônibus, desce no centro, pega outro ônibus, desce no destino. Sem almoço, vai pro curso de Corel, chega adiantado (o que é péssimo), senta no computador e respira. A aula começa, novo instrutor, atenção total. Se piscar, perde o raciocínio. Coffee break, come, come mais um pouco, conversa, ri, volta pra sala. Celular toca, celular pára de tocar e volta a tocar outra vez. Concentração, exercícios, dicas, fim da aula, assina cheque, faz uma social, vai conversar na rua, volta pra casa. Ônibus, quarenta minutos de caminhada pra evitar outro ônibus, entra em casa, senta, lembra da roupa. Busca, estende as úmidas, lava a louça da cozinha, tira pentelho do ralo, senta no computador, faz anotações na agenda, baixa programas, conversa com a mãe, escreve textos e sabe que não vai dormir antes das quatro outra vez. Pra acordar as sete, ir pra faculdade, dormir na faculdade, acordar na faculdade e fazer tudo outra vez. Cansou?

Som alto, luzes apagadas e sexo, por favor

Eu sempre achei que o mundo seria um lugar mais agradável se habitado por pessoas essencialmente discretas. Existe uma classificação de gente mal resolvida que costuma atrapalhar bastante a vida de quem precisa viver um dia de horários pré-determinados. Alguns adjetivam esse grupo de irreverentes. Eu chamo de massa de idiotas.

Talvez eu seja o problema. Um fracassado entre milhares de pessoas que sentem saudades de quem não conhecem, são amigas de qualquer um e fazem perguntas em sala de aula só pra dizer que dominam determinado assunto. Um antipático entre milhares de sorrisos nervosos ou o veneno que extermina a paz aparente que reina em todos os lugares.

A verdade é que o sistema é contaminado por esses indivíduos. Por causa deles nossos dias não rendem e as coisas nunca acontecem da forma como deveriam acontecer. Por causa deles, estou há cinco horas tentando finalizar esse post sem sucesso. Quero férias dessa gente e não sei por onde começar.

28 de março de 2004

O ciclone que se aproxima da casa dos meus pais fez com que a família psicótica da minha mãe entrasse em pânico. Acordei as dez da manhã com o telefone tocando e recebendo sugestões de fazer um x com durex na janela da minha cozinha, como se realmente existisse a possibilidade de alguma coisa acontecer a quase 400 quilômetros de distância. Tenho certeza que em pouco tempo as pessoas estarão vendo bolas de fogo no céu, pra dar conta da frustração de não terem morrido abraçados nos escombros de casa.

Faz uma noite sensacional na terra prometida. Entre um parágrafo e outro, fui interrompido com a maior queima de fogos que já vi na vida. É aniversário da cidade que há mais de um ano atrás deu a primeira de muitas lições que tive que aprender no decorrer desse tempo. A festa está sendo no parque da Redenção onde, à noite, é melhor ir de chinelo pra não perder o tênis. Devidamente fardado pra ocasião, estou indo comer qualquer coisa típica de algum lugar do mundo. Caso eu sobreviva, trago fotos depois.



Quando assisti Dancer In The Dark pela primeira vez, desliguei na metade e devolvi o filme à locadora. Meses mais tarde, fui convencido a relocar e, engolindo o choro, fiquei até o fim. Ao terminar passei pro começo, e assim repeti o ciclo compulsivamente.

Em 2000, quando o diretor Lars von Trier venceu a Palma de Ouro e foi criticado por ter ambientado o filme nos Estados Unidos sem nunca ter visitado o país, surge a idéia de montar uma triologia pra descascar a América. Dogville, o primeiro da série, foi hoje a menina dos meus olhos.

Só depois de fazer uma pesquisa grande e descobrir a quantidade de tripés presentes no estúdio, consegui começar a falar sobre o que vi. Pra começo de história, ele é o filme de três horas mais curto que já assisti na minha vida. Você até lembra que a tarde passou, mas é uma idéia tão superficial que nem conta.

O filme é ambientado nos Estados Unidos da década de 30, mas o cenário não conta com paredes, portas ou janelas. Não há ruas, nem casas, nem muitos móveis. Os objetos são raros e a atenção é totalmente voltada para o ator, como no teatro. Nicole Kidman está a mesma de todos os filmes que já fez, mas isso não atrapalha. Luma de Oliveira poderia fazer o papel sem que o filme perdesse a qualidade.

Eu prefiro me abster de contar os detalhes da produção, porque sei que vou começar no sofá vermelho da sala do velhinho cego e terminar na quantidade de botões das roupas usadas nas cenas mais importantes. Nos créditos, uma seleção de fotografias de 1929 passa na tela enquanto David Bowie canta "Young Americans" até o fim.

O que Lars von Trier responde aos críticos? "Queria fazer uma campanha para libertar a América. Tenho certeza de que é um belo país, porém vejo muita merda por lá. Oitenta por cento da programação da TV dinamarquesa é norte-americana. Não me sinto preparado para ir aos EUA. Este filme é sobre como a América é na minha cabeça". Já estou esperando os próximos, Manderlay e Washington.

27 de março de 2004



Eu tava querendo escrever sobre os malucos da cidade grande pra falar dos cheirados que sorriem sozinhos no meio das ruas, só que acabei dentro de uma sala de cinema e me perdi. Voltei pra casa pensando em fazer estrelas e avaliar todos os filmes que eu assisto, mas fui obrigado a concordar (comigo mesmo) que não daria certo. Ou eu escolho as melhores produções, ou tá valendo a teoria do meu pai de que qualquer prazer me diverte. Minha bunda sempre dói, mas eu saio feliz e raramente achando melhor ter ficado em casa comendo ou assistindo televisão.

Eu também tava pensando em falar que vi quatro carros com endereços de internet no vidro traseiro. Que agora eu quero um carro só pra dizer que eu também sou ponto com ponto bê érre, buzinar nas avenidas e contar pra todo mundo que eu tenho um domínio e não ando de ônibus. Mas eu já sei que isso deve ser igual a aprender a andar de bicicleta ou trepar pela primeira vez. Euforia que dá e passa.

O filme era Dirty Pretty Things, do Stephen Frears, que também dirigiu High Fidelity. Fala sobre a situação de imigrantes ilegais em Londres, abordando o assunto sob uma perspectiva bastante sinistra. Dá vontade de voltar pra casa dos pais e se esconder embaixo da cama em várias ocasiões, especialmente quando a mafia que troca passaportes europeus por órgãos do corpo humano é abordada.

Todos os atores são estrangeiros, falam inglês com sotaque e a gente até esquece que a Audrey Taotou já foi Amélie Poulain em 2001. O ator principal é Chiwetel Ejiofor, que eu nunca vi na vida e vale médio. Três outros personagens rendem boas risadas, mas a prostituta sempre leva o trófeu. Em uma cena conjunta dos três principais, um londrino fala que nunca os tinha visto antes. "We are the people you do not see. We drive your cabs, clean your rooms and suck your dicks". Bom pra todo mundo que gosta de cinema, ruim pra crianças que não sabem o que é um boquete. E pras que sabem também.

26 de março de 2004

.com.br

No meu mundo particular, domínio de internet sempre foi tão inalcançável quanto o segundo grau era pra mim no primário. Exclusividade de pessoas grandes que penduram crianças em tabelas de basquete. Por esse motivo nunca pensei em ter um, embora eu tenha encontrado problemas de servidor e uma vida inteira de páginas não encontradas no Weblogger. O esquema de pagar por um .com.br cansava só de pensar. Uma tecnologia de difícil acesso, podendo ser comparado aos celulares com máquina fotográfica digital - dizem que é febre no Japão, mas eu acho que é tudo mentira.

Aí surge um cara legal, dá boas idéias, faz com que outras apareçam e as coisas resolvem acontecer. Continuo não acreditando naqueles celulares, tenho preguiça de fazer qualquer coisa a dois passos da minha bunda, mas já posso olhar do terceirão pro primário sabendo que era realizável. Enquanto isso, no lustre do castelo, a pilha de louças que semana passada era uma comunidade de fungos resolveu voltar a gritar pela minha presença na cozinha. No tanque, uma pilha de roupas. No ralo, uma pilha de cabelos. E dessa forma, juntas, fazendo com que a casa tenha cheiro de lixo vazado. É quase hora de continuar na internet, mas eu preciso não virar escravo da faxina no fim de semana. O que era pra ser, tá explicado. A partir de agora, ponto com ponto bê érre.

25 de março de 2004



Nem contei. Dia desses passei a tarde na Livraria Cultura e comprei ingresso pra assistir Lost in Translation depois de me perder em todos aqueles livros que eu não posso comprar. Cheguei no cinema fazendo pequenas reclamações mentais e xingando baixinho todo mundo que atravessava o meu caminho.

Tive um branco na hora de fazer o pedido da Coca-Cola, a mulher deu nos meus dedos, eu engoli o choro e fui até um banquinho do Unibanco Arteplex pra ficar analisando o comportamento alheio e esperando a fila andar. Demorou cerca de meia hora. E a fila andou. E eu fui atrás. E quando cheguei no menino do bilhete, fui informado de que estava na fila errada e que "o seu filme começou há cerca de 20 minutos".

Como o comportamento passivo já estava ativado desde sempre, devo ter entrado na sala certa sem emitir um ruído sequer. Abri a porta, pessoas reclamaram e sentei quietinho na primeira fila. De onde eu estava, podia ver as imperfeições da tela. Fiquei sem entender porque colocam poltronas em lugares tão horríveis e mal posicionados, mas parti pra dentro do filme depois de tanta aventura.

Ou o começo do filme não teve importância porque eu já tinha lido as sinopses, ou o trailer resolveu se estender pra me esperar. Peguei o filme andando, mas não fez diferença. Devo ter perdido, no máximo, algumas tomadas espetaculares da Sofia Coppola. O filme é muito simples, sem efeitos especiais e ganha vários pontos pelo cuidado absoluto que tiveram com os mínimos detalhes. Dizem que o Japão foi mal retratado, mas me abstenho porque não conheço o país. E não fiquei com vontade de morar nele.

Os dois atores principais primaram pela contenção de gestos e exageros, parecem bastante confiantes e à vontade. Bill Murray deve ser um cara legal pra se ter como tio mais velho e a menina, Scarlett Johansson, deve estar selecionando roteiros milionários em algum biplex de New York. A gente sai da sala de cinema com vontade de ter o cartaz e sabendo que por mais que Peter Jackson não tivesse ganho o Oscar, Fernando Meirelles não teria chances.

Striping down



Analisando com cuidado e olhando bem no fundo, eu sou um cara gentil. O que significa que, em muitas ocasiões, passo por cima das minhas insatisfações pra fazer de uma pessoa legal, um ser humano feliz. Gratidão não é algo que eu espere mas, como não sou budista, fico de olho no presente.

Minha casa na terra prometida fica perto de quase tudo. Com exceção dos melhores shoppings, os bares e casas noturnas estão posicionados mais ou menos entre o banheiro e a sala. Por isso, sempre que possível, hospedo pessoas interessadas em diferentes fontes de cultura. Prestativo que também sou, cedi um canto pra uma colega de faculdade que precisava trabalhar em um grande centro de eventos do meu bairro. Como ela não tinha intimidade com a disposição das ruas de um bairro que não é nobre, levei a jovem até seu destino - onde tudo aconteceu (tá muito livro barato de suspense, mas não tenho como evitar).

É claro que eu já tinha visto que ela usava uma camiseta "vida urgente", mas como eu uso uma "give peace a chance" de época de guerra da Renner, deixei passar. Quando cheguei, um pouco antes de ficar chocado com a quantidade de dreads por metro quadrado, vi que o trabalho em questão não era cuidar do bar ou organizar a bilheteria. Fomos atacados (repito, atacados) por meia dúzia de pessoas estranhas munidas de máquina digital e laptop, que usavam óculos iguais e falavam esbaforidamente-atropelando-as-palavras como se aquele fosse o espetáculo do século.

O fim da estória sou eu descobrindo que se tratava de uma organização que entra em locais fechados pra pedir que as pessoas não bebam. E sou eu sentado em um degrau enquanto a merda do show não começa, pedindo aos anjos que me protejam daquela gente maluca. Voltei pra casa quase correndo e com medo do que falavam os lunáticos.

Aí eu cheguei em casa, sentei e comecei a lembrar que a fulana em questão já apresentava sinais bastante claros de insanidade. Como quando, por exemplo, eu explicava as pesquisas científicas de Timothy Leary sobre o tratamento de doenças mentais com doses controladas de LSD e ela me olhava como um retardado viciado em drogas.

Mais tarde ela veio pedir o livro Flashbacks para um trabalho do grupo onde era voluntária, mas não deixei ela botar os olhos por ser de uma amiga de hotel - apesar de eu imaginar uma organização de pessoas normais que estudavam sociologia e não aquela reunião de imbecis. Já recomposto, estou desativando todos os vestígios de gentileza na varredura do sistema. Passe bem.

Clover, shamrock e afins

Já havia acontecido com menos pessoas que o número de dedos do presidente, mas eu achava improvável que se repetisse. Minha teoria de que a cota havia esgotado era tão grande que eu podia sentir os tapinhas do mundo em minhas costas. Criancinhas morrem devoradas por urubus africanos e eu ousava reclamar do número de pessoas abafadas que cruzavam o meu caminho.

Eis que, essa semana, fui surpreendido pelo vento a favor que fez com que alguém se tornasse minha nova amiga de infância. Tudo muito bom mas, só pra constar, essas coisas continuam raras pra caralho na minha realidade sócio-ecônomica e política atual (ok, essa eu chupei da faculdade).

Depois de devidamente apresentados pela melhor relações públicas do meu planeta, fomos jogados pra dentro de um papo virtual que durou aproximadamente três horas e rendeu a certeza de que muitas outras se faziam necessárias. Ponto pra todos nós. Ela veio dos feriados nacionais para a terra encantada, marcamos um almoço e passamos uma tarde de perguntas, respostas e troca de informações. É claro que a gente passou de pentelho no sabonete pra cães que falam em frações de segundos. É claro que a gente não parou de falar nem tomando café - isso mesmo, café. E, sim, deu vontade de botar a mochila nas costas e embarcar pra terra dos humanos que falam italiano.

Enquanto membro da classe de pessoas que fogem do padrão medíocre tão usual, ela já seguiu o seu caminho. Cada segundo é uma nova idéia. Cada idéia é um plano diferente. Espero que ela vá bem, fique bem e encontre o quanto antes as coisas legais que acontecem pra pessoas desse nível. Seja feliz e aguarde os próximos capítulos. Tim-tim.

Balacobaco



Se não fosse de viver, eu não pensaria duas vezes antes de colocar eventos culturais na mesma classificação em que os velórios se encontram na minha vida. Vou quando é de amigos e, mesmo assim, evito sempre que posso. Quando me arrastam, até falo baixo, rio pouco e evito perguntar como estão as pessoas. Mas ir até o defunto e fingir que rezo, isso não dá.

Os eventos culturais também têm rituais de passagem, regras comportamentais e hábitos massantes. Você não deve ir de Havaianas ao show do Roberto Carlos (na verdade, você deve detestar Roberto Carlos) e recomenda-se que a fila seja mantida e as máquinas fotográficas deixadas em casa - óbvio que eu não obedeço as duas últimas, por uma questão de lógica e bom censo.

Tudo isso pra dizer que apesar do trabalho que dá descer com a minha cueca dos Dálmatas e pagar horrores (leia-se horrores) por dois ingressos do show da Rita Lee, valeu a pena. Fui com a minha mãe, que sempre foi fã e vivia explicando, entre uma colher de papinha e outra, que a moça do cabelo vermelho era a cantora favorita dela no Brasil.

Sou obrigado a confessar que percorrer o mesmo caminho daquela figura empalhada dá vontade de pensar justamente que ela acabou de passar por ali. E que ver ela se aproximar da sua cadeira em um teatro de milhares, faz você tremer e pensar que a moça do cabelo vermelho é, hoje, a avó dos seus sonhos.

O show foi lindo, minha mãe cantou e dançou mais que todos os jovens presentes no local e disse ter tido a impressão de que tudo era um sonho quando fechou os olhos ao som de Ramones. Por isso e pela presença de palco fodida daquela senhora, tive a melhor noite de março do ano. Crianças insuportáveis - que eu tive o prazer de chutar em diversas ocasiões - desciam as escadas, berravam por "vovó Rita" da beira do palco e nem assim atrapalharam a minha alegria. Hoje, parando pra pensar, eu tenho vontade de esfolar aqueles narizinhos no chão até o óbito, mas sei que é vontade que dá e passa.

E quando o assunto é Rita Lee, dá pra esquecer aquela massa de imbecis correndo pra porta do camarim quando só eu deveria ter o direito de cumprimentá-la. Autógrafo é assunto pra uma outra ocasião, mas já sofri tanto pra conseguir rabiscos que hoje em dia tenho arrepios até na hora de assinar cheques - o que é muito bom para os lojistas de uma forma geral. Feliz por mim, por mamãe (não confie em pessoas que falam mamãe) e por ter conhecido uma jóia antes da overdose, vou andar e já volto.

Dos seres que surgem dos rodapés

Não é questão de escrever um tratado sobre o calor nas grandes capitais. Só quero deixar bem claro que estou revoltado com a falta de eficiência dos cosméticos dessa nação. Nossa população sofre de baixa renda, restrições quanto ao acesso à saúde, educação precária e, sim, desodorantes ruins.

Eu, que tomo banho todos os dias e tenho acesso a produtos um pouco menos populares estou sentindo-me no direito de reclamar, porque fico ofendido com a grande quantidade de pessoas fedidas nos transportes coletivos da terra prometida. Se não bastasse a porra da taxa ter subido dez centavos essa semana, você precisa ficar esperto às sete horas da manhã para fugir das correntes de ar que trazem aquele cheiro de podridão às narinas de estudantes e trabalhadores comprometidos com a higiene pessoal.

E já estou prevendo mensagens de pessoas me criticando por reinvidicar dez centavos. Saiba você, crítico, que em um semana eu poderia comprar um lanche completo em qualquer bar das esquinas do meu bairro. Lugar este que, aliás, deve estar infestado de animais habitantes de esgostos. Hoje foi depois de ontem. E ontem foi o dia em que eu perdi vinte minutos para matar a primeira barata já vista aqui em casa. Uma barata treinada, inteligentíssima e rápida, que me deixou literalmente de quatro, suando como se tivesse dado três voltas no maior parque dessa cidade imunda.

Saio da vida propondo a CPI dos produtos anti-transpirantes. Um teste do INMETRO em cadeia nacional. Ou o mundo está deixando o banho de lado, ou providencio pra ontem minhas teorias conspiratórias para explicar o problema.

Ar codicionado, depurador e coifa

Pior do que desejar um ar condicionado e correr atrás de dinheiro pra finalmente adquirir um desses aparelhos que salvam vidas, é passar tardes com um ventilador pré-histórico que balança cortinas, quebra coisas que voam e não ajuda a solucionar os problemas que acompanham um dia de calor.

Ar condicionado, no verão, movimenta o mundo e divide as pessoas em tribos. A dos que têm, e a dos que não têm. Analisando com cuidado as pessoas que andam na rua, qualquer ser humano comum de restaurantes à quilo pode distinguir esses dois grupos de indivíduos que vivem o calor. Os que andam no centro a tarde inteira sabendo que dormirão com cobertores e os que fazem a mesma coisa com a língua de fora e o desejo quase irracional de passar semanas dormindo em caixas 24 horas.

Como se não bastasse movimentar a economia e influenciar as relações interpessoais, existe o preconceito. Em um antro de pessoas que se pagam de tudo-ao-mesmo-tempo-agora-e-sempre como uma universidade particular, não ter essa invenção genial da civilização pós-moderna faz com que você perca pontos em vários quesitos ditos fundamentais para um convívio social sem guerra de tomates.

Evitar ao máximo falar do tempo pode ajudar, mas não resolve o problema de quem precisa regular o ventilador em uma posição fixa pra poder respirar enquanto dorme. E não resolve, porque lá fora existem pessoas comuns, que dividem as mesmas teorias e possuem os mesmos planos diabólicos que você pra conseguir um barulho que faz a casa amanhecer com estalactites e goteiras de água fria. O esquema é dar um bom trato no presente eletrônico de um casamento do século passado, pensar na energia que um refrigerador de ar pode gastar e engolir o choro - que, nesse caso, desceria pelo rosto misturado com o suor de um dia no clima infernal dessa cidade.

A.A., N.A. e afins

Não é nada ruim ter duas vidas em uma só. Na primeira delas eu descanso, não penso em dinheiro, só ando sob rodas e posso esquecer das tarefas domésticas - o que inclui toalha no banheiro, prato sujo em cima da mesa e sair do quarto sem arrumar a cama. Na outra, ocorre justamente o contrário. Os ítens podres da geladeira gritam, os cabelos do banheiro pedem para serem retirados, as roupas são cuidadosamente lavadas no tanque e eu também ando sob rodas, mas uma multidão de universitários me acompanha na mesma jornada. Aquela gente feia e sem graça que usa botinha branca e sandália rasteira, não escova os dentes antes de sair de casa e movimenta átomos de hidrogênio em papéis amassados durante todo o percurso.

Voltar à terra prometida é tomar iogurte no almoço e andar com uma garrafa de água mineral amarrada no pescoço. Já revi quem eu precisava encontrar, troquei informações com as pessoas mais importantes e paguei todas as contas atrasadas que acabaram acumuladas na caixa de correspondências que, logicamente, não foi consultada desde antes do Natal.

Assim como com as tarefas obrigatórias de um dia normal, a temperatura também não é a mesma de meus feriados nacionais. As pessoas pingam o dia inteiro, a poeira gruda nas roupas e o ventilador (presente de casamento dos meus pais) não funciona conforme o meu desejo. Mesmo com internet que pifa e televisão sem sinal, o saldo do retorno é positivo. Saio do virtual pra encarar uma bateria de filmes com os mesmos jovens que continuam acreditando na minha reabilitação. Depois, se o calor permitir minha permanência dentro de casa, eu volto.

Tem gente que sabe fazer festa com responsabilidade; e tem gente que não tem responsabilidade e faz festa mesmo assim. Por isso, estou há uma semana de cama, me recuperando do Carnaval pancada que tive esse ano. Passei em Floriapa, exercendo com muita propriedade o meu direito de ser jovem de um país subdesenvolvido e assumidamente da folia. Vou ressurgir das cinzas e já volto.

A moda no seu traseiro

Se você tá no fim do mundo, sentado na rede de seu avô, lendo um jornal local ou comendo Sucrilhos com leite, pouco importa o que acontece fora dos limites da varanda. O problema é que esticando o pescoço, você encherga a televisão. E assistindo ao jornal com o canto do olho, um mundo diferente faz sentido. Ou, se não faz, pode vir a fazer.

Aí você fica sabendo que pra dar meia dúzia de passos, uma top model ganha mais dinheiro do que eu, você e os seus parentes judeus jamais sonhamos ganhar em toda a nossa vida. E que enquanto você perde horas pra chegar ao trabalho, outra delas faz um caminho cinco vezes menor com o helicóptero de seus amigos que brindam dólares em garrafas importadas de champagne.

Rapidamente você relaciona moda ao mundo ideal. O que era cafona, em segundos, passa a ser tendência. E, se mesmo assim continua feio ao seus olhos, é porque o conceito da palavra está associado à atitude - que, no caso, é o que você não tem. O que não tinha explicação, já era óbvio. E o que importa? O que importa, não interessa. ®

Ao abrir os olhos você já está completamente envolvido. E fodido. Deixando de lado as semanas da moda brasileira, você traz a idéia ao mundo real e vê que o esquema é aplicável ao seu cotidiano. O principal motivo pra você querer estar na moda é o fato de que maltratados são os que estão fora dela. Se você faz parte do desejo coletivo, ok. Confetes, serpentinas e rasgação de seda em uma onda que arrasta o mundo ao seus pés.

Agora, se a moda for achar que você não está na moda, aperte os cintos, pois você faz parte de uma onda contrária. O desprezo das massas. Você é mal falado, mal visto e mal quisto. As pessoas te detestam sem motivos e tirar você pra otário vira atração de circo. Um bando de medíocres, geralmente cem vezes piores que a vítima, descontando angústias e frustrações em cima de quem, por um acaso do destino, resolveu ir pelo acostamento. Em assunto como esse e para o resto da sua vida, vá contra a lição.



Mona Lisa Smile é um filme altamente Julia Roberts. Uma mulher revolucionária, que desafia as condições sociais de um determinado lugar, muda o mundo e a vida das pessoas, cai fora e sorri na última cena. Só que é assim que tem que ser quando o mundo do cinema respira os mesmos atores dos mesmos personagens de sempre. Bom pra uma quarta-feira sem graça. Ruim se você é viciado em drogas.

Muralhas brancas que dividem nossos pratos

É que de vez em quando, no meio das velhas com seus carrinhos particulares de supermercado, eu tenho vontade de sentar na beira do mar e ficar olhando a lua cheia iluminar a água. O problema é que quando estou na beira do mar, olhando a lua cheia iluminar a água, fico cansado e com vontade de sair correndo. Não que eu deseje voltar ao supermercado para assistir ao mesmo espetáculo de todos os dias do ano. Mas um pouco de civilização e, se possível, alguém que saiba o que é um canal por assinatura sempre cai bem.

Tem um lugar bem pequeno, muito bonito e no meio do nada. Um lugar que eu descobri esse ano, onde o grande barato é ter vontade de viver com os pés no chão. É claro que tudo fica menos divertido quando as pessoas não conseguem assimilar a sua presença com a presença da natureza. E é claro que tudo fica ainda pior quando as pessoas questionam a sua presença na natureza. É como se o meu espírito urbano me fizesse incompatível com o ar puro do lugar nenhum.

Aí você passa a conviver com uma família originalmente italiana, em uma praia onde todos são da mesma família - o que significa que eles entram no seu quarto durante a noite, tratam você como se tivessem trocado suas fraldas e se surpreendem ao saber que você não fala italiano. Porque, sim, eles bebem e começam a falar italiano. E eles relembram seus avós, e dançam música baiana e falam daquele jeito.

Um jovem de dezoito anos tem que gostar do mar. Eles não se conformam. Acham que eu tenho algum problema físico para não topar a combinação sol, mar e areia. Analisam a situação sob diversas perspectivas em um italiano perfeito que faz com que eu não entenda praticamente nada. Para eles, eu sou um brasileiro maluco que prefere ler na varanda a ir brincar com as crianças no mar. Para mim, eles são as pessoas me ensinaram a xingar a mãe dos outros em outra língua. E só.



Agora é um instante. Já é outro agora.

Não gosto de literatura brasileira. Na escola eu era o primeiro a não ler os clássicos recomendados. Ou procurava a história do autor na internet, ou pedia pra que alguém citasse os ítens principais. Machado de Assis era tortura e continua sendo até hoje. Gosto do que ele pensa, mas detesto as coisas que escreve. E se eu não tenho paciência pro que chamam de grande autor da história do Brasil, você pode imaginar o que eu penso dos seus colegas de época.

Há alguns meses, ainda no ano que passou, ganhei um par de convites para assistir ao espetáculo Água-Viva, da Clarice Lispector. Enquanto Suzana Vieira praticamente lia em voz alta, um casal de atores desenvolvia um trabalho de expressão corporal fenomenal ao fundo da cena. E aquele foi o meu espetáculo. Dois atores e a dança das palavras.

Hoje fiquei com vontade de relembrar. Pesquisei no mesmo lugar de todas as pesquisas e encontrei tudo na íntegra. Você, como eu, pode não ter a menor vontade de ir até o fim. O jogo de palavras e a grande quantidade de informações desencontradas cansam. Mas vale espiar alguns trechos pra ver que não é tão ruim assim. Caso você não concorde, respeite porque eu também sou do tempo da lambada.

Suco de manga com galinha catupiry

Ser jovem aos dezoito anos foi deixar de morrer antes do tempo. O mundo das possibilidades esteve para mim assim como eu estive para as oportunidades. A quantidade de informações é intensa e você consegue fazer tudo ao mesmo tempo e sem qualidade. É misturar a cor das roupas na hora do amaciante e passar a camisa com o secador de cabelo sem pensar que sua mãe poderia detestar.

Tudo bem se existe luz. O problema é quando ela está no fim do túnel. Você quer viver tudo ao mesmo tempo, experimentar todas as sensações pra ontem e acreditar que as pessoas são realmente feitas de algodão doce. Aí você pega uma revista, vê que pessoas da sua idade passam as férias no nordeste, frequentam as melhores festas de São Paulo e dão autógrafos nas ruas de Nova York. E o que acontece? Você também quer tudo, mesmo sabendo que as ruas certas ficaram para trás.

No mundo real as coisas são mais fáceis do que podemos imaginar. Você faz elogios, distribui sorrisos, ganha a confiança de meia dúzia de ignorantes e faz uma carreira brilhante em qualquer grande empresa formada por imbecis. O problema é encontrar o equilíbrio entre o que você é, o que você quer ser e o que as pessoas querem que você seja. Optando pela forma prática de enfrentar as adversidades, você deixa as coisas do jeito que elas estão, porque assim caminha a humanidade. Passando um pouco mais de trabalho, você passa por cima das suas próprias barreiras e escolhe o caminho necessário para olhar o espelho peitando suas angústias com sorrisos leves.

Seus avós podem não concordar com suas medidas, mas as suas festas em família nem são tão animadas assim. Se você pensa que me entende, escreva para explicar. No dia em que experimentei pela primeira vez o gosto da fruta manga, me despeço com uma puta porção de galinha catupiry.