30 de abril de 2004

In the cut

Hoje é dia de correr contra o tempo pra não perder o ônibus. Pra entender melhor, basta fechar os olhos e imaginar alguém correndo no meio da rodoviária, com uma mala de cuecas sujas, livros, revistas, celular e mochila nas costas. Já repeti o ritual tantas vezes que consigo ver a cena com distanciamento, rindo da minha própria cara e fazendo comentários com as pessoas ao redor quando alguma coisa muito frágil cai no chão enquanto o motorista entra na cabine e fecha a porta pra partir.

Dá gosto de ver as pessoas das rodoviárias. Chegam duas horas antes da partida, freqüentam todos os bares e bancas, fazem amigos e conhecem o amor de suas vidas. É tão simples que dá vontade de ser igual. De fazer a mesma coisa. De levar a vida nas coxas pra tornar tudo menos complicado.

Como tem gente que tá desde a semana retrasada entrando aqui atrás de informações do filme da Meg Ryan, do peito da Meg Ryan, da bunda e da pomba da Meg Ryan, devo dizer que passei a tarde de ontem envolvido com o filme. Saí da faculdade direto pro cinema, entrei, sentei, quase dormi (porque tava desde sempre sem dormir), mas consegui me manter acordado o tempo inteiro. Esse é o único ponto que devo dar pro filme, porque ele não é bom, mas uma merda das grandes.

O roteiro é ruim, óbvio e você fica pensando nas comédias românticas dela ao longo do filme inteiro. Tem muito sexo, as cenas são muito fortes e intensas. Os atores aparecem de todas as formas, sob todos os ângulos e eu nunca vi tanto birro em um só filme em toda a minha vida. O final é todo mundo reclamando do desfecho, a platéia inteira falando mal e as velhinhas satisfeitas com a dose de sexo do dia. Porque você sai da sala com o cansaço de uma foda e não fica com vontade de assistir uma outra vez.

28 de abril de 2004



Como eu não tenho espaço suficiente pra colocar minhas roupas de verão e inverno no mesmo lugar, sou obrigado a deixar boa parte das minhas coisas no meu outro quarto, a pouco mais de 400 quilômetros daqui. Já tentei deixar tudo no mesmo canto, mas alguma coisa sempre cai no chão ou faz todas as outras desmoronarem. Essa é a medida que eu adoto pra que as roupas não fiquem gritando, querendo explodir a caixa e pulando umas nas outras.

Isso porque o frio chegou. De tirar os cobertores de onde eles permaneceram o verão inteiro. De ficar com os pés gelados no computador. E de usar jaqueta dentro de casa durante a madrugada. Meus banhos já não são de portas abertas, tenho preguiça de descer pra comer alguma coisa e cozinho, bastante, o tempo todo. Meu fogão, que passou uma temporada sem uso, tá sujo, daqueles horríveis que a gente só vê nos filmes do Jack Black. Deveria ajudar a controlar meus gatos, mas eu sempre descubro algo diferente pra comprar.

Saí da faculdade decidido a tomar uma atitude, porque preciso daquelas peças de dormir que a gente não tira durante o dia. Eu preciso não passar frio, porque o inverno de qualquer lugar desse país é menos rigoroso do que o dessa cidade. Aí eu cheguei no shopping e percebi, em cinco minutos, que eu ia sair daquele lugar assim que terminasse o meu prato de comida. Passando nas vitrines, eu tinha vontade de bater em todos aqueles vendedores modernos que trocam o meu nome, dão palpites e fazem comentários desnecessários. Detesto gente simpática. Fui pra livraria, onde as pessoas só te atendem se você quer ser atendido. E depois ao cinema, onde ninguém quer vender bilhetes dando tapas nas suas costas.

Assisti Sob o Sol da Toscana, que é um filme de suspirar, rir e sentir arrepios. Ao longo dele você fica com vontade de escrever um livro, conhecer a Toscana e pegar um filme melhor na seqüência. A Diane Lane tem as melhores cenas de sexo que já assisti, mas é sempre velha demais pra maioria dos seus parceiros. Eu sei que é feio não gostar de contrastes como esses, mas a minha mente condicionada não consegue assimilar uma produção que tenta disfarçar e fazer parecer que todo mundo tem sempre a mesma idade. É legal pra assistir sozinho e não precisar contar pra ninguém depois. Porque não rende nem mesmo um post. Vou ali terminar o dia que passou voando e volto assim que puder.

Operárias, as incansáveis trabalhadoras do meu estômago

Elas são assim mesmo. Num dia estão presentes, ativas, trabalhando sem prazo e levando os extras pra casa. Aí cansam, ficam ausentes por um período (às vezes grandes períodos) e somem da sua vida sem mandar notícias ou cartões postais. Você sabe que elas existem, imagina que um dia voltará a encontra-las, mas vai vivendo sem lembrar que elas podem surgir a qualquer momento.

Freud dizia que as pessoas são movidas por instintos sexuais e eu concordo com a tese, apesar de achar que alguns indivíduos são o próprio instinto e nada mais. De reler e ver que é muito engraçado eu concordar ou discordar de Freud, como se eu dominasse a técnica. Como se eu estivesse na quinta fase de psicologia ou fizesse terapia três vezes por semana, deixando uma grana alta e chorando de arrependimento na hora de voltar pra casa. Mas de qualquer forma e retomando, na fila do banco ou desesperado em busca de livros na biblioteca da faculdade, você é alguém que busca o prazer e prioriza seus contatos sexuais. Fazendo sexo.

E tudo bem, porque as coisas ficaram mais fáceis depois que as cantadas clássicas deixaram de existir na vida real pra serem emprestadas aos programas de auditório. Longe das câmeras, você pisca e se apaixona. Pisca e desapaixona. Pisca de novo e o mundo sorri, pra cuspir em você dez minutos depois. Aí você dá uma volta, disfarça, dá outra volta, retorna ao ponto inicial e beija na boca. Só que, beijando, você vê que não vai a lugar nenhum, resolve interromper e fugir. Ou interromper e trepar. Ou interromper e pirar no mundo das coisas irreais.

Uma vez portador dessa disfunção estomacal, você corre riscos. Elas fazem com que você avalie, gradue e pense com freqüência no comportamento de terceiros. Use técnicas idiotas de sedução pra fazer com que os outros satisfaçam suas necessidades. E pense, enfim, que está sob controle.

Mas aí você vai atravessar a rua, pegar o carrinho no supermercado ou partir pra qualquer um desses movimentos condicionados, e tudo acontece sem pedir licença ou dar satisfação. Soco no estômago, brilhos por todos os lados. E o controle absoluto de quem estava apenas atravessando a rua e pegando o carrinho do supermercado cai por terra. Você quase morre atropelado, leva cinqüenta minutos pra separar um carrinho do outro, desiste, pega uma cesta e vai atrás do que você quer que seja seu. Até decidir que já não quer e que é hora de interromper, fugir e viver tudo de novo.

27 de abril de 2004

Sobre o amansa que agora tenho

Eu já sabia. Nem todo mundo é tão ruim na arte de dar presentes. Dormi poucas horas de sono, fui um pouco sem enxergar pra faculdade, mas tive uma das melhores surpresas de sempre assim que sentei pra assimilar as informações do estranho que só me olha pra dizer “bom dia babaca, hoje é segunda-feira e acabou a mordomia”.

Ganhei um dicionário de português. Não um desses dicionários comuns, comprados em livrarias por valores que sobem todos os anos. Um antigo, usado, customizado e dado com carta e dedicatória. Que tetéia. Que bom saber que quando você comenta que não tem um, alguém pensa em te fazer um carinho, senta, escreve uma carta e entrega com um sorriso estampado por saber que deu certo.

Aproveitou pra dar nos meus dedos e tudo. Eu sei que é feio ficar mostrando carta pessoal para os outros, mas não tenho como não dividir. Porque eu to bobo e feliz e com vontade de falar sobre isso durante uns dois meses até todo mundo cansar de ouvir a mesma história. “Se você não gostar do presente, azar o seu. E pode escrever me esculachando: eu vou ler e achar o texto ótimo, como de costume”.

“Escolhi esse pra te dar porque foi o primeiro que eu tive. E o primeiro a gente nunca esquece. Foi, provavelmente, o que eu mais usei. Tem páginas caindo, páginas soltas, páginas faltando. Meu nome estava escrito por tudo, não te assusta se ainda achar algum perdido. Eu sempre fui narcisista, sempre”. E você tem motivos pra ser assim. Hoje você passa sem esculachos, mas vai providenciando a camiseta.

25 de abril de 2004

Jack & Coke, mão no pau, pau na boceta

Noite pra quem tem dinheiro na terra prometida é assim: cu na mão, mão no pau, pau na boceta. Um mar de gente vazia, que transpira superficialidade e gargalha piadas que sequer escutam. No canto, do outro lado da boate, você vê que da massa nada se aproveita. Que sob os saltos finos que custam sozinhos o dobro do seu salário mensal, desfilam uma série de endinheiradas tupiniquins que dão pouco ou nenhum sentido ao que carregam na bolsa.

Todo mundo tem uma clara intenção, porque é sábado e chegou a hora de se arrumar à procura de uma boa foda que compense as centenas de reais que os colarinhos gastam em doses duplas de whisky. Porque depois que aquela banda que ninguém prestou atenção toca, todo mundo aplaude fingindo ter gostado e parte pro sofá que desejavam desde o início da festa.

É lá que a sua filha, papai, dá pro menino mais velho do seu amigo de pesca na frente de qualquer um que esteja passando pelo local. Aquela criança que não podia tomar a mamadeira antes que ela fosse fervida três vezes pra garantir a esterilização é, isolada na liderança, a maior chupadora da casa. Mas segue a lição. Três vezes, como lhe foi ensinado.

Espiando de leve as bordas do lugar e prestando bastante atenção pra não desviar o foco e encarar a garota que estudou a vida inteira no melhor colégio particular da cidade e mexe a boca sem compasso pra fingir que canta em inglês, fica fácil de encontrar os gordos, as velhas e os casais de cinco anos e três meses. Marginalizados e sufocados pelos freqüentadores de academia que desfilam com seus Gol, Ka, Celta, Clio e afins.

Os gordos balançam a cabeça e os braços, seguram seus copos de qualquer coisa que os destrua por completo e olham com reservas para as meninas gostosas que passam na sua frente a fim de chegar no bar. As velhas não são mães das que chupam no terceiro andar, porque suas filhas estão em casa estudando pra prova de atualidades que têm segunda-feira. Não por proibição, já que até emprestou o cinto tigresa que combina com o top, mas porque filha de mãe vagabunda é assim mesmo - reza a noite inteira pra não acordar com um desconhecido assaltando a geladeira de pau duro.

Aí você tenta chegar até o bar, que está atolado de meninas que não conseguem passar por causa dos gordos das bordas, faz o seu pedido e não pode deixar de perceber o ar de fúria do atendente. Não por detestar os filhinhos da mamãe empresária que o xingam desnecessariamente, mas por desejar, com paixão, ser igual, participar das rodas e correr ao terceiro andar pra comer a filha do dono da loja do shopping. Das questões que você até entende, mas custa a acreditar.

Uma noite muito bonita, em que muitos dariam uma vida pra poder freqüentar e pagar e rir das coisas que não ouvem. Uma noite quente, onde quase todos não se importariam de subir nos sofás e protagonizar as orgias do topo. Um lugar de grana, onde só o lustre equivale ao valor do último carro que sua tia rica comprou depois de ter descolado um marido em festas como essas. Tudo perfeito e uma banda do caralho no palco, mas pessoas sem o brilho dos olhos, desesperados em busca de algo que não se encontra assim. Um tesão à toa, uma qualquer coisa que se repete todas as noites dos dias que ninguém vê passar.

24 de abril de 2004

Quando oitenta centavos faz a diferença

Acabei de mudar minha resposta padrão. Se alguém me perguntar sobre métodos eficientes de tortura, respondo sede, na veia. Porque é insuportável chegar as quatro e meia da manhã sem um puto no bolso, ter a genial idéia idiota de comer um prato de feijão congelado do ano passado e dormir logo em seguida tomando todo o resto da água estocada há uma semana atrás.

Acordei desesperado no meio do sono, achando que a minha língua, a minha garganta e meu corpo inteiro estavam sem água e pegando fogo. Tendo pesadelos, sonhando que a Xuxa tava vestida de Mamãe Noel e que eu precisava bater nela por comemorar o Natal logo depois da Páscoa. E você pára de pensar a ponto de acreditar realmente que acabar com a vida dela é a missão da sua vida.

Depois de ter essas crises de pânico, tá valendo qualquer coisa. Eram oito horas da manhã quando eu comecei a pensar em levantar, colocar um chinelo e ir até o supermercado pra comprar essas malditas garrafas que salvam vidas. Aí me arrumei, coloquei a bermuda do pijama e comecei a sair de casa a bordo da minha cara de detonado, pronto pra xingar todas as pessoas que dormem à noite pra maltratar jovens que não ficam em casa.

Mas não. Enchi a carcaça da minha última vítima até o bico com a água da pia, tranquei a respiração e tomei tudo em um gole só. Quando eu já tava pronto pra encher a segunda garrafa, feliz por não perceber a diferença entre água mineral e da torneira, aquele gosto de qualquer coisa tomou conta. Porque é lamber a caixa d’água e dar boas-vindas aos vermes. Um dia, quando eu for voluntário desses projetos que cuidam de recém-nascidos esfomeados da Etiópia, vou entender bem mais os que passam sede no Saara. Agora vou ficar aqui, bem quietinho, aguardando a minha morte. Bom fim de semana pra mim. E pra você também.





22 de abril de 2004

Cute is not enough

Eu já tava pronto pra falar que não sei o que tá acontecendo com as jovens que resolveram engravidar todas ao mesmo tempo. E eu ia falar que esse processo não pára, que é constante e infinito depois que você cansa de freqüentar as festas de 15 anos do seu colégio. O que acontece, é que quando você entra na faculdade, todas as mulheres da sua idade vão trepar com os homens das suas vidas até ficarem prenhas e ganharem um filho pra comemorar o aniversário de um ano da criança. Mas não.

Hoje eu recebi um presente ruim (daqueles que a gente acha feio e sem utilidade) e fui obrigado a forjar uma satisfação que não existe pelo simples fato de não ter coragem de ser verdadeiro o suficiente pra beirar à falta de educação. Mas tudo bem, já que o agente presenteador do meu presente lê o que eu escrevo e vai ficar sabendo mais cedo ou mais tarde.

Por mais cruel e doloroso que seja, eu não gostei do seu presente. Ele tá na mesa da sala, dentro do pacote e pronto para ser passado adiante em uma daquelas situações em que você tem quinze minutos pra comprar alguma coisa e fazer aquela visita inesperada. Porque é assim que as pessoas fazem quando não querem algo dentro de casa. Elas não guardam, passam adiante.

E é sempre a mesma tortura. Você recebe a caixa, ela olha pra você e faz cara feia. Aí você tem que pensar em alguma coisa muito foda pra sorrir como se tivesse procurando por aquilo há dois meses sem conseguir encontrar em nenhum lugar. E agradecer. E dizer muito obrigado por mais um objeto não-identificado dentro daquele armário de coisas sem função que todo mundo têm no cômodo menos usado da casa.

Eu sei que vão falar de boas intenções, porque tem gente que não consegue assimilar as informações e comprar alguma coisa que faça sentido para o presenteado. Da mesma forma que eu tenho dificuldade pra receber presentes e botar em prática todo o ritual ensinado pela minha mãe quando pequeno, algumas pessoas têm medo mortal de levar em troco um sorriso amarelo de “era justamente o que eu tava precisando”.

Talvez eu esteja sendo um babaca sem boas maneiras. Talvez eu seja um daqueles meninos bobos que querem transformar o mundo e pregar a autenticidade no rabo dos outros. Mas se eu tenho a oportunidade de reverter o quadro e mostrar pra alguém que talvez eu não tenha sido tão sincero na hora de calcular as minhas reações antes mesmo de ver o conteúdo do pacote, excelente.

Espero que eu não perca um amigo, não seja mal interpretado por jovens católicos e suas mães fervorosas, nem receba e-mails criticando minha postura e tentando fazer com que eu perceba o quanto eu preciso dos castigos com os quais vocês estão acostumados.

Eu sei - /desnecessário pra mim.

20 de abril de 2004

Pela inveja que corrói

Quando eu estiver trabalhando como vendedor de lojas, vou correr pra casa e escrever um post com o número da minha conta bancária. Porque eu vou estar passando fome, matando velhinhas autoritárias e precisando muito de dinheiro.

Peço desculpas se você é velha e pede informações idiotas, ou se essa é a sua esposa, mãe ou avó. Partindo do princípio que todo idoso pode ter sido um adulto medíocre, não tenho saco pra respeitar incondicionalmente essa classe tão valorizada pela sociedade.

É um ciclo. Se você não sorri, bate palmas e faz aquelas coisas idiotas que pessoas grandes fazem com bebês, já corre o risco de parar na cadeia por maltratar um jovem da terceira idade. Aí eles acham que o mundo a eles pertence, furam filas de todas as espécies e resmungam quando você não diz as coisas ensinadas pelos seus pais.

Piscou? Vira bagunça. Acham que são mais inteligentes (e na maioria das vezes, não são), vivem falando em experiência de vida e se julgam muito superiores no quesito sabedoria. Quesito. Como nas escolas de samba.

Andar nas ruas desse lugar durante a tarde é uma tortura. Você fica com inveja das senhoras das plásticas ruins, porque elas gastam em maquiagem e carros importados tudo o que você gostaria de ter pra gastar nas suas bobagens. As suas bobagens que são mais legais que as delas. E ainda tortura, porque elas maltratam os seus não-iguais (ou diferentes).

Hoje a tarde peguei uma dessas fulanas brigando com o atendente por não saber mexer na máquina digital. Tudo bem. Elas podem ter acesso à tecnologia, baixar as fotos na internet e trabalhar com editores de imagens. O problema é reclamar por ter preguiça de pegar o manual, e xingar, e berrar, e ser velha até alguém mandar pro inferno, levar um processo e acabar prestando serviços comunitários em um asilo depois de perder pra velha-rica-da-máquina-digital.



Há um mês a AOL publicou uma matéria sobre a vida dos jovens ricos de São Paulo. "As loucas baladas dos paulistinhas endinheirados" virou conversa de rodas, corrente na internet e essas coisas que acontecem quando todo mundo quer falar ao mesmo tempo sobre alguma coisa. As pessoas desmentiram, todo mundo se sentiu ofendido e saiu na defensiva por aí. Ano passado a Rolling Stone fez uma matéria bem parecida com a Paris Hilton e hoje comprei o livro da Lolita Pille. Que já começa assim:

“Eu sou uma putinha. Daquelas mais insuportáveis, da pior espécie; uma sacana do 16ème, o melhor bairro de Paris, e me visto melhor que a sua mulher, ou a sua mãe. Se você trabalha num lugar "metido", ou é vendedora numa butique de luxo, com toda certeza gostaria que eu morresse; eu, e todas as minhas iguais. Mas a gente não mata a galinha dos ovos de ouro. De forma que a minha espécie insolente irá perdurar e proliferar. Meu credo: seja bela e consumista.”

Edição de post: terminei o livro e achei bem mais ou menos. Fiquei um pouco decepcionado porque esperava mais do que uma riquinha inteligente que vive no pó e dá a bunda pra qualquer um. Isso a gente encontra fácil por aí. A diferença é que elas não escrevem livros e são bem mais competentes na arte de gastar dinheiro. Não sei se é bem isso, mas acho que sim.

18 de abril de 2004

Mil vivas aos nossos umbigos

Só pra avisar que eu não morri descendo escadas. Ou subindo. Ou de tédio, com algum livro embaixo do copo num canto qualquer desse lugar. É muito bom quando os móveis da sua casa estão sem pó, o chão sem sujeira e o sofá sem formigas atrás de restos da pizza do dia anterior. Dá gosto de ver que em algum lugar do mundo as pessoas conseguem manter uma casa grande, sem ficar chorando e reclamando e falando pra sempre o tempo todo. Sensação de ar puro e vontade de não voltar ao computador (que passa, mas chega a existir).

Atravessei o continente pra assistir a três filmes e reencontrar os meus queridos amigos que vivem feriados todos os dias. Tenho vindo bem mais do que gostaria de vir à terra dos feriados nacionais e isso não é bom das nove ao meio-dia. Fico meia hora querendo não estar na cidade assim que chego, mas depois de brigar com alguém da casa por aquele motivo que eu procuro desesperadamente até encontrar, volto ao (meu) normal.

Estou com planos. Com novidades. Com grandes idéias que mudam vidas e dividem etapas importantes. No grande momento de estar feliz ao lado de gente realizada, que têm boas intenções e vontade de tirar as vontades do papel. São meus velhos amigos jovens vivendo coisas marcantes e definindo o rumo dos próximos tempos de suas vidas. Dá gosto de ver. E vontade de aplaudir.

15 de abril de 2004

Os movimento tá fraco, mas nós leva na moral

Fila de táxi nessa cidade é sempre a mesma coisa. Eu chego junto com a excursão de uma turma da puta-que-pariu, pego o último lugar da fila depois que todos passam na frente do menino invisível e fico sentado na mala com bastante tempo pra analisar o comportamento dos taxistas. Que deveriam escrever livros. Pra casarem com as vendedoras de shopping.

O mais interessante sobre eles é que, com raras exceções, se comportam como animais. Não ursos, coelhos e essas coisas coloridas que têm pêlos, mas aqueles macacos que vivem de mostrar o pau pros visitantes dos zoológicos – e isso faz eu lembrar que meu pai sempre brinca e berra coisas impróprias pra macacos, como se eles fossem o filho mais novo do irmão mais velho, mas ok.

A questão é que eles parecem um bando de hienas que fumam e andam de uma extremidade à outra do carro e falam mal do rádio táxi pro cara ao lado. Quando todas as velhas crentes da excursão já estão a caminho da igreja, o organizador da bagunça chama o próximo e você começa a se sentir a ovelha morta dos selvagens à sua espera.

A partir daí é como se o mundo usasse câmaras lentas pra viver as suas cenas, colocar a sua mala no banco de trás e esperar por alguma atitude que a gente não sabe qual vai ser – apesar da certeza de que será idiota o suficiente pra você dar um sorriso quente no elevador de casa.

Quando você não tem carro e sempre precisa de um taxista pra atravessar a cidade em menos de dez minutos, pode ter um fixo (que os pais chamam de “de confiança”) ou apelar pra diversidade, escolhendo um diferente a cada rodada. São várias as classificações que descobri ao longo do tempo.

Tem o religioso, que só fala do pastor e tenta converter o passageiro em cinco minutos de corrida. O avô, o pai dos filhos formados, o filho do pai taxista e o que começou há dois dias e erra todas as ruas. Tem o corno e o marido galinha. O malandro que faz caminhos maiores e o meu “de confiança”, que é sempre muito correto e faz cursos de atendimento ao cliente. Um dia eu encontro uma velha ou um travesti na direção, corro pro computador e faço um texto sobre as coisas impossíveis que sempre acontecem nessa cidade linda e suja que come seus filhos pelas costas.

14 de abril de 2004

Veja, Cera, Vidrex, Pinho Sol e Multicoisas

Só pra finalizar o meu dia de hoje, tô achando que tá tudo errado. Se eu quisesse falar sobre o que aconteceu depois do fim da tarde (como quero), ia ter que pedir pra vocês lerem o último parágrafo do post anterior. Por tanto, façam o favor. Se a vontade de me mandar pro inferno for grande e incontrolável, resolva seu problema por e-mail ou feche a janela antes de continuar.

Eu tava na esperança de dormir cedo depois que me peguei desejando um sanduíche natural recheado com tomate, cenoura e alface a tarde inteira. Quem senta em um lugar, pede “o de sempre” e recebe um suco de laranja na mesa, é obrigado a dormir antes das dez pra fazer perguntas ao professor na aula de antropologia cultural aplicada à qualquer coisa idiota que eles julgam ser importante. Só que eu não consigo. E passar das dez, pra mim, é dormir as três da manhã – de preferência não ouvindo nada que me deixe como fiquei ontem.

Aí fui buscar Eloá, a faxineira. Ela, muito limpinha, falando da netinha e perguntando da minha familiazinha, veio do hotel onde trabalha até a minha casa falando mal da patroa e rindo baixo como se a mulher estivesse dentro da sacola de verduras que ela carregava. Era a segunda vez em mais de um ano que eu contratava alguém pra pegar nos panos da minha casa. Fiz o trajeto inteiro querendo muito que ela não fosse tão péssima como havia sido na vez anterior e louco pra soltar ela dentro do apartamento, fugir e voltar algumas horas depois. É claro que isso não aconteceu.

Eloá, a faxineira, se sentiu bastante à vontade quando eu me dispus a lavar a louça e guardar as roupas do varal enquanto ela limpava o meu banheiro. Quando parei pra refletir, eu já enchia baldes de água e sofria na pia pra lavar os panos que ela usava. Contratei uma mulher que recebeu pra dividir o trabalho comigo. Minha postura de menino obediente atingiu picos quando resolvi pedir pra ela limpar o chão da minha cozinha, como se fosse tudo bem se ela não estivesse disposta justamente hoje que resolveu fazer o favor de limpar a minha casa.

Como veio, foi. Limpinha, bonitinha, falando da netinha e dizendo que vinte reais é um preço justo quando um otário como eu cruza o seu caminho. O saldo do dia foi positivo, mas eu tô querendo um banho quente e a minha cama no mais absoluto silêncio. Espero que todos os travestis e prostitutas da minha rua trabalhem quietos para que eu possa desfrutar de boas horas bem dormidas. Minha faxina foi excelente. Já posso trabalhar em casa de família.

13 de abril de 2004

Porque o verdana vai mudar a minha vida

Não sei até que ponto a fonte escolhida pode influenciar um texto, mas a que eu tô usando atualmente parece fazer com que o mundo não percorra o caminho que eu exijo que ele faça. Tá menor, quer grudar nas palavras ao lado e não entende nenhuma das minhas explicações. É como se eu falasse tudo em meia hora e ela, em cinco segundos, alterasse o sentido de todas as minhas palavras. Aflição, agonia, medo-pânico-pavor. Praticamente um umbigo no meio das costas.

Aí eu começo a perceber que tudo o que eu tento passar do meu dia começa a se voltar contra mim do nível pra caralho. Quero a minha fonte antiga de volta, porque tô com saudades de conseguir falar qualquer coisa que não seja sobre eu-mim, eu-mim mesmo e o umbigo das minhas costas. Tá sendo como andar de caminhão a vida inteira, ganhar dinheiro transportando essas coisas que transportam nas rodovias, comprar um carro popular e chorar querendo o caminhão de volta.

E aí o meu celular berra de um lado, o relógio anda mais rápido do que deveria do outro e todo mundo faz a minha tela piscar com mensagens que atrapalham o processo duro de colocar essas letras pequenas enfileiradas. Se eu conseguir botar em prática os próximos cinco itens da minha agenda até o fim do dia, prometo dar uma festa e fazer aquelas coisas que as pessoas felizes fazem no calor do momento.

E chega. Vou buscar a faxineira que eu nunca chamo porque não faz nada. Tô de saco cheio da minha casa, tenho nojo desse chão imundo com pequenos animais invisíveis que habitam suas frestas e quero um banheiro novo de um desses programas de auditório do Silvio Santos. Sem obras e pedreiros, sem gastar dinheiro à toa. Só chegar em casa e encontrar uma porta que corre sem gemer e pisos pretos que não me façam ter vontade de vomitar com os pentelhos do chão.

A devil inside

Acordei às três da manhã sem ter dormido e decidi que tava com depressão. Levantei, botei meu disco mais triste pra rodar e resolvi dar início à primeira fossa do ano. Dez minutos se passaram e as coisas foram se tornando piores. Pode ser que a causa tenha sido um distúrbio do sono, mas eu ainda acho que a culpa foi do som estragado que berrava coisas desconexas na sala enquanto eu reclamava dos vizinhos na minha cama.

Sou muito desligado pra ficar triste. O que é ruim costuma me deixar, no máximo, irritado. Esse esquema de abraço, música romântica e flores no aniversário não é, definitivamente, o meu forte. E é daí que vem a minha dificuldade em lidar com a melancolia. De aceitar que o fim do mundo não é achar o parapeito convidativo, mas votar no convite, fazer uma carta suicida e ir ao encontro do chão.

A visita de um sentimento diferente não merece um post, mas pra não criar mofo vale uma nota. Tudo sempre foi assim. As pessoas têm oscilações de humor e passam vidas encontrando fios de cabelo no meio da pizza. Sei porque também sou como você. Também tenho crises de afeição por pessoas desconhecidas, vontade de bater em desconhecidos que têm crises de afeição e, agora, ataques de desespero no meio da madrugada. Uma sequência de palavras só pra dizer que apesar de ontem, continuo preferindo acreditar que o cabelo do entregador não é o pentelho da moça da cozinha.

12 de abril de 2004

Vou ver Ghost e volto quando der

Com exceção dos dias em que eu me atraso pra faculdade, tenho vontade de aplaudir a postura sempre muito correta das pessoas que ajudam deficientes a ter acesso ao transporte público da cidade. Os ônibus novos são adaptados com rampas automáticas, mas um braço amigo sempre aparece a bordo dos velhos e ruins. Arrepia e é uma puta lição de cidadania.

Momento ideal pra reinvidicar atenção especial às pessoas das festas. Um ambiente fechado que cospe bêbados pelas janelas poderia receber algumas adaptações pra não fazer do convidado de hoje o deficiente de amanhã. Descendo escadas sábado à noite eu: rolei dez degraus e não consigo andar, derrubei duas meninas arrumadas que devem estar de cama e derramei meio copo de vodka pura em todo mundo que fazia o mesmo caminho que eu. Dá vontade de buscar o organizador no inferno e jogar ele pela sacada pra ver como é ruim ter que mancar e explicar pra todo mundo o que aconteceu na terra dos feriados nacionais.

10 de abril de 2004



Durante um bom tempo da minha jovem vida de antigamente eu não sabia o livro favorito das perguntas dos outros, mas sempre fazia questão de dizer que Mike Leigh era o diretor mais bem cotado de um ranking que nunca existiu. Depois dessa fase o tempo passou e eu trocava o nome dele com o do David Lynch (a quem eu detesto com todas as minhas forças). Tudo muito comum em se tratando de mim mesmo até chegar o dia em que eu fiz uma lista de filmes e esqueci de Secrets & Lies que está, indiscutivelmente, em uma posição de bastante prestígio no meu bloco de notas.

Pra compensar, ontem aluguei alguns filmes pensando em não fazer nada durante o fim de semana. Com chuva e cobertor, fiz rodar All or Nothing (do Leigh), que começou exatamente da forma como eu esperava. Cores perfeitas, atores bem orientados, cuidado com os detalhes e Crystal Gayle como trilha quase única do filme inteiro. Aí tudo piorou, a história desandou, a simplicidade virou monotonia e eu me peguei tendo que voltar três cenas por desvio de atenção. Enquanto tudo se encaixava eu estava organizando meus vícios pra hoje à noite e pensando que ele está declaradamente fora de qualquer sobreposição de nomes que eu já tenha pensado em elaborar.

Hoje acordei pra assistir Annie Hall e pretendo ficar apaixonado por Woody Allen até o fim do dia. Ele continua igual e ela era muito melhor antes. Tudo é atual e pode ser aplicado para os próximos dois séculos da humanidade. E é genial. E merecia todos os Oscars que não levou sem pensar duas vezes ou lembrar dos concorrentes. Dá vontade de querer um remake, um livro, um disco e o dvd. Só não entendi porque ele não levou nenhum prêmio por sua atuação no filme.

9 de abril de 2004

Church on Friday

Não que eu me sinta bem com momentos de vingança, mas eles são quase sempre muito agradáveis. Hoje, voltando pra terra dos feriados nacionais, fiz tudo aquilo que não gosto quando fazem comigo. Falei alto durante quatro horas seguidas, fiz vários barulhos no banheiro e conversei quase uma hora com um amigo parado no corredor. Faltou peidar caminhando ao lado das poltronas da frente e chorar de cólica três horas ininterruptamente, mas não tive tempo pra tanto.

Fiquei com vontade de acender a luz do ônibus pra explicar aos viajantes que aquilo é apenas uma pequena porcentagem dos milhares de problemas que já enfrentei andando de ônibus nos últimos anos da vida. De sentir fedores o tempo todo e ter fobia de vidro embaçado até querer berrar e chorar ao mesmo tempo. De crianças suicídas que querem brincar batendo na minha cabeça. De gente que olha pra minha cara e quer conversar sobre o Lula e todas as derivações de situações iguais e piores a essas.

Aí chego de viagem e fico sem saber se o mundo parou sem me avisar. Acabei de chegar em casa e a única pessoa online é uma amiga de 55 anos que não mora no Brasil. Talvez estejam todos rezando em casa, mas estou bem votando na idéia de que festas acontecem fora dos limites do meu quarto.

E como o post acima foi concebido no fim da noite de ontem, quero assumir publicamente minha indignação. Juro que eu não sabia, mas a metade da população dessa cidade está trancada em casa por conta de suas mães católicas. Pau no cu da sexta-feira santa. Sem mais, volto quando me recuperar da tarde quente que passei com a menina dos olhos da nação.

7 de abril de 2004

Joga pro mar

Antes de começar a ler, entenda que eu sou um cara observador, facilmente irritável e intolerante. Se você não fechou a página depois de eu assumir as características de um merdinha é porque, por pior que possa parecer, se identifica de alguma forma comigo.

A questão é que, talvez para quebrar o tédio descrito no texto anterior, não consegui terminar o dia sem fazer confusão. No fim da tarde, logo depois de passar algumas horas estudando o que a mente humana não consegue captar, decidi ir ao shopping das mulheres que não piscam suas pálpebras operadas. Ambiente pesado, cheio de vendedoras traídas pelos maridos, que amarram você de todas as formas dentro das lojas e dizem "tá saindo bastante, aproveita senão acaba".

Entrei em uma das poucas salas que eu me dou ao trabalho de frequentar sem que algum prato de macarrão esteja a minha espera, gostei do que vi e resolvi comprar dois presentes. Um pra mim, outro "pros meus pais". Na hora de pagar a mocinha pediu todos os meus documentos, fez perguntas absolutamente desnecessárias e ficou enrolando cerca de cinco minutos no balcão pra me castigar pela foda ruim do dia anterior. Perguntei se ela tava com problemas, pedi o cheque já assinado, rasguei e desci dois andares pra comprar os mesmos produtos por vinte reais a menos.

Quem tem problemas com relacionamentos interpessoais deveria tentar um emprego virtual, passar o dia na frente do computador em contato com o próprio umbigo e essas coisas de gente que fica vermelha na hora de fazer pedido em restaurante. Gosto de ser tratado com o mesmo respeito que dedico aos vendedores que pouco gosto e consigo ser mais desagradável que todos eles juntos quando pisam no meu pé.

6 de abril de 2004

Tchausenãoeupercooônibus

Sabe quando nada acontece? Então. Essa semana o relógio só anda porque esse é o ciclo natural das coisas. As aulas continuam iguais, os professores falam as mesmas coisas dos cinco últimos anos de profissão e o ônibus que eu devo pegar em quarenta minutos ainda está posicionado a vinte outros dos meus pés.

Paguei a inscrição do Fórum da Liberdade pra assistir à palestra do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mas estou sendo obrigado por mim mesmo a faltar. Há algumas semanas marquei um curso de informática, liguei pra desmarcar e a menina chata que me liga duas vezes por semana em horários impróprios, contou sobre uma multa de 30% que não existia no pior dos meus sonhos. Isso significa que além de pagar horrores - e, na verdade, mais do que deveria valer - a opção voltar atrás não é selecionável.

Agora estou aqui, de olhos pouco abertos, decindo se vou comer comida de verdade e pensando na lista de vinte ítens daquilo que as outras pessoas chamam de agenda. Vou fingir que sou cristão, retomar a idéia de pregar o quadro do papa na parede da cozinha e justificar tudo em cima do feriado. Se todo mundo pode, eu posso também. Ainda hoje eu volto da cidade dos dias de sol. Se não voltar, é porque morri de tédio em algum lugar.

5 de abril de 2004

Flash, flash, flash



Há poucos minutos alguém passou a ter um número a mais na hora de preencher o cadastro das lojas Colcci espalhadas pelo país. Nós dois discordamos em tudo, mas nos gostamos mesmo assim. Tanto e muito mais do que você e todo mundo pode imaginar.

Esse esquema de opostos nunca foi meu forte, mas não há como negar que aqui temos uma exceção. Essa pessoa especial do dia de hoje escuta música ruim, tem o pé que é um leque e acaba de descobrir lesões nos membros superiores pela intensa repetição do movimento copo-na-boca. Ela me chama de velho, diz que eu sou cruel e arrogante, mas participa com vigor de todos os assuntos colocados na roda. Nunca falha. Sempre fala. É inteligente e uma das pessoas mais agradáveis que já tive oportunidade de conhecer.

Pra começar, a Pity gosta de gente. Tenho medo de admirar o respeito que ela tem por aqueles medíocres imbecis que eu vivo xingando e sei que esse é o maior motivo de eu mandar ela pro inferno regularmente. Tudo nada bem se não fosse um prazer conviver com alguém que veio ao mundo pra ser feliz e fazer com que todo dia tenha cara de sexta-feira. Um ser humano que transforma tudo (inclusive as coisas ruins) em um motivo pra sorrir.

Hoje é dia de comemorar o seu aniversário. Muito obrigado por estar na minha vida dos primeiros copos de quentão ao coma alcóolico e por ser, sempre, muito mais do que todos merecemos. Tenho orgulho da sua presença nos meus dias. Parabéns. Você tem um amigo que te ama.

3 de abril de 2004

Notícias do mundo de cá

Sair da aula de informática e correr pro cinema em outro canto da cidade não foi fácil no dia de ontem. Difícil, porque pedir pra motorista de transporte público correr o mais depressa possível é clichê de filmes da Meg Ryan. Bom pra caralho, porque matei várias questões em duas horas bem aproveitadas.

Depois de assistir a todas as campanhas dos últimos sessenta anos de Unibanco e pensar algumas vezes antes de levantar e sair da sala de cinema, entrou em cena o novo comercial da Pepsi. É grande, ruim, Britney é uma gralha e Beyoncé parece um travesti.

Aí começaram os trailers, Paixão de Cristo foi apresentado e fiquei com muita vontade de assistir. Eu sei que todo mundo fala mal, já tinha decidido não perder meu tempo, mas tem uma jovem que faz o papel de Maria e deixa qualquer um arrepiado. E com vontade de voltar pra casa, pregar um quadro do papa na parede da cozinha e rezar por todas as últimas vinte e sete mil noites de heresia. É claro que já passou.





Something's Gotta Give é comédia romântica sem ser porque faz rir, mas não tenta emocionar. Diane Keaton exagera em algumas cenas, tem corpo de menina e surpreende fazendo um nu frontal bem pouco esquisito. Não espere chegar na locadora, porque uma das melhores partes é quando os casais da terceira idade saem assanhados do nível mão na bunda, beliscões e coisas faladas ao pé do ouvido. O filme não termina em um aeroporto e Jack Nicholson dispensa comentários.

Estou na terra dos feriados nacionais pra fazer qualquer coisa que eu ainda pretendo descobrir. É claro que eu já me arrependi na hora de acordar cedo pra vir, mas estar aqui pode vir a ser muito bom também. Minha irmã abre a porta do quarto e faz perguntas enquanto eu escrevo, minha mãe quer contar e saber de tudo o que aconteceu nas últimas semanas e meu pai fala coisas altas, rindo das próprias piadas. Essa é a minha vida em família. Se a sua não for assim, compre animais.

1 de abril de 2004

Glitter



É comum olhar pra tv e encontrar uma roda de travestis discutindo a troca de sexo quando a sua tia é fã da Luciana Gimenez. Pouco comum é não conseguir dormir por causa dessa mesma quantidade de indivíduos berrando a oito andares da janela do seu quarto.

Nas primeiras horas da manhã de hoje, depois de desligar o computador e recolher restos pela casa, deitei a cabeça no travesseiro pra tirar um cochilo antes que o despertador me torturasse com a mesma música de todas as manhãs. O silêncio da internet se transformou no caos. Abri a janela pra reclamar e vi cinco meninas da noite querendo bater em um senhor gordo que pedia socorro. Pensei que ele não me ajudaria se estivesse na situação dele, fechei a janela e caminhei até à cozinha. Na volta, os gritos aumentaram.

Até perceber que as prostitutas eram enormes travestis prontos pra matar seu último cliente, eu tava gargalhando na janela e adorando saber que existe uma Márcia Goldshimidt dentro de todos nós. Os homens de salto falavam absurdos aos ouvidos das viúvas que lotavam os parapeitos do meu prédio. Os de calça, tentavam impedir o derramamento de sangue. Os sem calça, reinvidicavam seu dinheiro de volta.

Chamei a polícia, que apareceu em três minutos e acalmou os ânimos dos envolvidos. Percebi que os dois policiais tinham vontade de chorar e sair correndo, mas arrastei uma cadeira pra janela e juro que teria preparado uma qualquer coisa pra beber se tivesse os ingredientes na geladeira. O fim da história é cada um pro seu lado, todas as partes satisfeitas, duas horas de sono mal dormidas e uma manhã inteira entre textos pra faculdade e poças de baba em cima da mesa. Agora, depois de arrastar os meus dedos tentando dissociar pontos de vírgulas, vou dormir. Boa noite. Feche a porta antes de sair.