31 de maio de 2004



The Day After Tomorrow é um bom prato pra quem vai ao cinema querendo muita ação e efeitos inacreditáveis, mas agrada também às vovós que curtem a previsão do tempo e ao irmão adolescente que vive criticando o governo americano. Ao longo do filme, você fica com vontade de levantar pra xingar e pular pra aplaudir. A história é simples e bem montada, tem várias cenas de chorar e não serve pra casais apaixonados (com sede de sexo ou não). Destaque pra Jake Gyllenhaal e Roland Emmerich, porque o primeiro é o Donnie Darko e o segundo deve passar muito trabalho com as produções que costuma dirigir.

Continuo sem acreditar que o filme tá em cartaz na terra dos feriados nacionais, onde passei meu último fim de semana. O ar condicionado tava desligado, minha mãe fazia dois comentários por cena e a cidade inteira resolveu achar que cinema é um bom programa pra sábado à noite. Tinha um babaca do meu lado que tentava adivinhar as falas pra mostrar o poder do seu inglês de merda à namorada, mas eu já tinha muitos problemas pra arranjar outra pedra no sapato. Vou tentar assistir outra vez durante a semana e volto quando puder.

27 de maio de 2004

Voodoo

Quarta-feira é aquele dia entre os dois que se passaram e os outros que ainda virão antes do fim de semana. Você acorda cansado e com vontade de pegar a primeira sessão da tarde, pensa o dia inteiro em algo que não esteja ao seu alcance, almoça qualquer coisa diferente da comida da sua mãe e tem a tarde mais longa dos últimos seis dias da sua vida.

Enquanto isso, em algum lugar de uma cidade a sua escolha, um candidato à prefeitura palita os dentes sorrindo de ladinho. Ele acorda cedo, toma um bom café da manhã e vai pro banheiro checar seu nome nos jornais. Depois disso, liga o celular e distribui gentilezas a cada cinco minutos enquanto descarrega o que jantou naquele restaurante famoso que você não conhece. A conta deve ser o triplo da sua arrecadação anual e quarta-feira é, pra ele, apenas dois dias depois do fim de semana.

No entanto, ao arrumar seu cabelo caju montado com laquê, nosso amigo defende-se dizendo que há pedras no caminho. Um bom candidato deve ser simpático, apertar a mão olhando nos olhos, visitar comunidades carentes e prometer algo em troca de um voto. São mentiras sinceras jogadas ao vento por um cidadão cansa em mostrar aos outros seu histórico, suas idéias e aquela perfeição tão típica dessa classe escrota que paga carros populares por vinhos importados.

Já foi exilado político, sofreu com a ditadura militar e resolveu fazer da democracia uma fonte de renda. Vai ver é por isso que fala tanto nisso. É para ela que vive. Através dela que banca seus filhos. São os dois lados da moeda. O presidiário dando lugar ao membro de uma elite que vive com a exclusiva preocupação de não transar sem camisinha.

Uns com tanto, outros com tão pouco. Enquanto jovens pagam peitinho todas as noites pra bancar uma viagem pro nordeste, aquele que passa tardes ociosas pensando nas eleições do fim do ano planeja uma viagem a Cuba para visitar Granada, o companheiro de Guevara. Faz questão de dizer que "qualquer dia desses dá uma passada" logo ali, no meio das Américas. Cuzão filho da puta que com o nosso dinheiro tem tempo de assistir Diários de Motocicleta no horário em que todos gostariam de estar sem o chefe xingando a mãe dos outros na sala ao lado. E que se foda. Tomara que perca todos os votos que tem.

24 de maio de 2004

Soaked in bleach

Eu nunca soube a diferença de Pepsi pra Coca-Cola. Nunca soube e não tenho vontade de aprender. Sempre evitei refrigerante, porque fico com vontade de arrotar tudo o que não tenho justamente nos horários mais impróprios imagináveis. Apesar disso, negar copos e ficar explicando os mil motivos que o fazem preferir água e suco de laranja no almoço, é mais ou menos fazer imersão em aldeias indígenas e pedir ducha-quente-com-toalhas-limpas-por-favor.

Todo mundo sabe que não faz bem, já ouviu falar a respeito da experiência dos ossos, mas resolve dar seqüência ao hábito a ponto de, algum tempo depois, já estar com desejo às quatro horas da manhã. O que aconteceu pode ser fruto do meu corpo clamando por um novo vício, mas prefiro acreditar que a substituição de cocaína por ácido fosfórico e cítrico é quem cria minha dependência artificial.

Mais ou menos esse é papel do Faustão na minha vida (sim, eu sei que é péssimo, mas eu realmente citei Pepsi com Coca-Cola pra poder falar mal do Faustão depois). Ele é o refrigerante que não gera dependência. O que significa que eu vivo falando mal do produto e de quem o consome. Troco, sempre, por qualquer coisa que não seja aquela pessoa grande e burra falando coisas desconexas pros participantes. De todas as questões que carrego, uma delas é o sonho de saber por qual motivo ele continua com um programa todos os domingos na maior emissora do país.

Falo isso levando em consideração que todo mundo tava na Globo quando Caetano Veloso (outro chato) fazia aquele showzinho medíocre de músicas gringas e ruins - incluindo aí uma nova versão de "Come As You Are" que a gente, é claro, nem comenta. Sabe quando você fica com vergonha e vontade de sumir por causa da ignorância alheia? E sabe também quando você quer morrer por ter perdido tempo pra escrever a respeito daquilo? Pois é. Deu pra concluir também que Caetano é tão inteligente quanto o Roberto Carlos é rei do Brasil.

23 de maio de 2004



"Chamo-me Octave e visto-me na APC. Sou publicitário: pois é, poluo o universo. Sou o cara que vende merda a vocês. Que faz vocês sonharem com aquelas coisas que nunca vão ter. Céu sempre azul, garotas nunca feias, uma felicidade perfeita, retocada em PhotoShop. Imagens supercaprichadas, músicas da moda. Quando, depois de economizar, vocês conseguirem pagar o carrão tão sonhado, aquele que lancei em minha última campanha, já o terei tornado fora de moda. Estou três vogas à frente e sempre dou um jeito de não deixá-los frustrados. O Glamour é aquele país aonde nunca se chega. Drogo vocês com a novidade, e a vantagem da novidade é que ela nunca fica nova. Há sempre uma nova novidade para envelhecer a anterior. O meu sacerdócio é fazê-los babar. Na minha profissão, ninguém deseja a felicidade de vocês, porque as pessoas felizes não consomem."

22 de maio de 2004

Cagando e andando

Todo processo criativo requer tempo e provoca dor. Em períodos como esse, tudo o que você mais quer é ficar longe de lugares em que pessoas como eu são obrigadas a reparar no comportamento alheio, fazer comentários maldosos e escrever sobre como é difícil ver crianças que cagam nas calçadas ao lado da própria mãe.

Há mais de um ano, quando voltei a pisar com mais freqüência na terra prometida, vi a mesma cena na rodoviária e achei que essa poderia ser uma daquelas que você vê uma vez e conta pro resto da vida. Coisa nenhuma. Hoje, passando pela rua de um bairro teoricamente nobre, vi a repetição de um esquema que imaginava ser pouco provável em um lugar daqueles.

Quando você dá de cara com uma mãe auxiliando a filha de pouca idade a tirar as calças e fazer coisas que pessoas peladas e de cócoras não costumam fazer no meio da rua, pode ter todas ou nenhuma reação. No meu caso, procurei alguém que, como eu, não achasse tudo bem. Um daqueles seres iluminados que resolva se revoltar, vá atrás, bata na mulher e tire a criança da vista dos pedestres.

Não foi o que aconteceu. Enquanto eu parei pra ver se alguém prestava atenção no que eu tava vendo, as pessoas estavam agitadas e em busca de qualquer coisa barata que as levassem pra casa o mais rápido possível. Era eu procurando desespero no olhar dos outros e os outros desesperados por um chuveiro que desse fim ao cansaço da semana. Tudo o que eu queria era alguém pra compartilhar. Fiquei querendo. Como sempre. Como em todas as vezes que coisas assim resolvem acontecer.

Aí entro aqui pra dividir, contar, desabafar, e correr pra outros textos que preciso entregar. Melhor seguir a linha e não ligar para os problemas de uma sociedade que não se importa com merda no sapato. Amanhã eu volto, porque hoje é dia de me dedicar à outra seqüência de palavras.

19 de maio de 2004

Até a última ponta

Medida é tudo na vida. Na minha casa, por exemplo, você precisa ter a medida exata da chave do banheiro pra trancar a porta. Um centímetro pra fora ou pra dentro e toda a ação se torna inviável. Ou você a deixa onde está, ou ela sai fora e cresce o risco de alguém ser surpreendido roxo ao fazer aquilo que ninguém gosta de ver os outros fazendo.

Você pode tomar o maior porre da sua vida por passar dos lábios dormentes, pode querer que tudo vá pro inferno depois da anestesia do corpo inteiro ou, simplesmente, fazer de conta que a dose certa jamais existiu. Têm as medidas que funcionam, as que sempre darão certo e as que precisam de medidas pra que falhas de dosagem sejam consertadas a tempo.

Não adianta escapar, é ela quem dá norte à sua vida. Meu vizinho nazista que ficou maluco nunca vai saber, mas o prédio inteiro comenta que ele não a tem. Perdeu a medida e com ela foram-se os bons modos, o português pouco aprendido e a vergonha de andar com a cueca rasgada no elevador. Virou, assim, um estranho no ninho. O terror do prédio das viúvas. A vítima da dose incompleta.

Por estar em todos os lugares, podemos aplicar essa teoria às mais diversas situações. Existe a medida dos negócios, do controle na direção, dos passos de uma vida saudável, do odor e de uma boa trepada. No entanto, nenhuma delas têm repercussão tão certa e intensa como a do amor - que é a única capaz de fazer com que, de uma hora pra outra, você perca todas as demais e viva em função das formigas do seu estômago. O único tema grandiosamente popular, que faz com que você abra a sua caixa de entrada e descubra que o seu texto virou corrente.

Chega a ser engraçado escrever sobre isso. Dá vontade de interromper pra rir e dizer a você que ninguém tem a obrigação de ler o Faustão falando sobre a ALCA. Mas, retomando, toda relação estável corre o risco de virar jogo através das regras que estabelecemos pra conviver com alguém. Ou você é autêntico e esquece que o mundo não reconhece a perfeição, ou assume que é preciso trabalhar algumas reações e deixar de ser você mesmo em tempo integral.

Sem regras de comportamento, não há trato. Códigos pré-estabelecidos precisam ser obedecidos pra que, durante um jantar, você não surpreenda a sua namorada com o pé no meio das pernas do seu melhor amigo. Eles podem gostar, mas as convenções precisam ser respeitadas. Caso contrário, seria tudo bem de encontrar meu velho alemão sem cuecas e postar uma foto da suástica que ele tatuou na bunda há quarenta anos atrás.

17 de maio de 2004

Eu e o tio gordo do bar (que foi promovido e só usa social)

A única explicação pra o que vem a seguir, são eventuais experiências traumáticas que acabaram gerando reações pouco ou nada domesticáveis da minha parte. Meu autocontrole tem avançado bastante nos últimos tempos e atitudes fáceis de prever há anos atrás desapareceram sem deixar resquícios.

Não mais brigo quando pessoas tomam água no bico das minhas garrafas (dependendo da visita, até ofereço), não tenho nojo quando esquecem da descarga em banheiros públicos (na verdade eu nunca tive, mas preciso de três itens) e não me importo quando alguém sem valor aponta meus defeitos. Essas são as mudanças. O problema, de verdade, é quando me subestimam. Ou, ainda, quando fazem da minha cara de doze anos, veículo pra aliviar as tensões de uma noite mal dormida.

Quando resolvo deixar de comer filé cru com restos de arroz dos outros, faço pensando em ter momentos que me deixem acreditando em um mundo melhor. Pensando que tudo bem de comer o pedaço de frango alheio pra me satisfazer durante a semana, porque um dia eu vou apostar regularmente na loteria federal e ganhar um prêmio daqueles em que a gente não precisa voltar pra visitar os primos e as tias.

Sentar e comer em um lugar em que os garçons tomam banho antes de trabalhar, envolve um sistema de códigos fundamental pro bom andamento do processo que circunda a relação entre as pessoas dos restaurantes. Quando compro um aparelho eletrônico, gosto que ele tenha garantia, mas também presto atenção no atendimento. Porque se eu pago pra comer sem me preocupar com o cabelo preso da cozinheira, acho interessante que me tratem de acordo com essa posição.

Aí, ontem, resolveram me usar pra descontar os problemas de casa outra vez. Foram fundo, pisaram com força e fizeram com que eu levantasse pra reclamar com o gerente. É quando entra o meu trauma, que toma conta e coloca qualquer manifestação de controle no bolso. O fim da história sou eu explicando técnicas de liderança pro bolinha (todos que trabalham nessa área são assim), citando argumentos utilizados pelos seus funcionários, sendo chato pra caralho e dizendo por qual motivo eu acho que o seu estabelecimento é uma merda. Não ganhei nada em troca, mas me senti muito melhor ao voltar pro meu lugar.

13 de maio de 2004



Pipoca salgada sem sal e pizza ruim sem ketchup são praticamente o mesmo que comédias românticas sem final feliz. Quando resolvo pagar pra assistir a uma produção estrelada pela Drew Barrymore, vou sabendo que o Woody Allen não vai fazer uma ponta no filme. Assim, perco uma tarde com a exclusiva finalidade de assistir àquelas cenas de aeroporto e sair pensando em como o amor é realmente muito bonito.

Logo depois de tomar um copo de Coca-Cola antes dos trailers e arrotar o começo do filme inteiro, você se vê sentado em uma cadeira, sendo abordado por uma seqüência de episódios que não parecem perfeitos. Nada dá certo, todo mundo se ama à prestação e o fim (isso mesmo, o fim) não é exatamente aquilo que as pessoas esperavam - porque, é claro, estou considerando o fato de que todos entram querendo a mesma coisa que eu.

A história de 50 First Dates se passa em torno de uma menina chamada Lucy (péssimo), que sofre um acidente e perde a memória enquanto dorme. Pra ela, todos os dias são o mesmo dia. A família se empenha em dar continuidade à mentira, ela faz exatamente as mesmas atividades todos os dias e fica satisfeita, porque no outro dia não lembra de nada e acorda achando que é domingo outra vez. Aí aparece um menino, se apaixona e decide conquistar a mocinha de uma forma diferente a cada dia. Partindo da apresentação, chegando no beijo e, eventualmente, transando também.

Li que a locação inicial era Seattle, mas o Hawaii pareceu se encaixar perfeitamente na história. As cores são bonitas e os personagens engrossam o caldo do roteiro - que, sem eles, faria bem menos sentido. Por fim, gostei da trilha, porque gosto quando sei cantar todas as músicas do começo ao fim. Tem No Doubt e versões mais ou menos de The Cure e The Police (que não conheço, mas sei fazer sons acompanhando o ritmo das músicas). O Adam Sandler canta uma música composta por ele mesmo e você sai cantando "Friday I'm in Love" enquanto fala coisas clichês e quer morrer por isso. Hoje tem D2. Até amanhã.

12 de maio de 2004

Da série sem título

Mais cedo ou mais tarde, todo mundo muda. Por necessidade ou escolha, as pessoas se adequam à novas realidades, passam a dividir códigos com gente diferente e, de repente, uma série de novidades podem ser desbravadas e vividas. É assim que é. E assim que há de continuar sendo.

Por ser um processo natural e comum a todas as tribos (incluindo tribos antitribos), o processo poderia ser encarado de forma menos tímida e muito mais honesta. Não consigo assimilar alguém que apaga seu passado, faz de conta que as coisas nunca foram como eram antes e, de uma hora pra outra, passa a fazer tudo aquilo que detestava com a exclusiva finalidade de fazer parte de um grupo pré-definido.

Acordar e vestir um personagem antes mesmo de fazer o xixizão matinal, deve ser cansativo de beirar à loucura e dar voltas no estômago ao final do dia. Porque uma coisa é passar maquiagem, limpar os dentes e querer parecer alguém que toma banho. Outra, bem diferente, é sair de casa pensando no choque das pessoas quando em contato com seus assessórios ou em como você é polêmico, popular e espelho de qualquer coisa idiota que sirva às outras pessoas.

E tudo bem, meu bem. Alguns vivem de enganar aos outros e a si mesmo com poses e faróis, outros se entregam à sinceridade das emoções e, dessa forma, todo mundo acaba fazendo parte desse bando de animais movidos ao desejo de serem gostados.

Seja o que quiser, mas não queira me dizer que foi sempre assim. Não devo respeito a alguém que sonhava em tatuar as bandas ruins que amava e faz de tudo pra dizer ao mundo que gosta de todas as outras que não suportava há um ano atrás. Vou tentar dormir para as minhas duas provas de amanhã. Fotografia e antropologia social. De chutar e tentar o gol.

10 de maio de 2004

Alheio, pero no mucho

Nunca fui politicamente engajado e não gosto de conviver com pessoas que levam a sério carreiras e siglas. Gosto de propaganda (deve ser esse um dos motivos de eu estar dentro da faculdade depois de três semestres insuportavelmente teóricos), acho legal o estudo das estratégias de campanhas, mas é mais ou menos por aí que meu interesse começa a morrer. Topei com a revista VEJA no banheiro dos meus pais e tive a oportunidade de ler do começo ao fim (o que eu não fazia há dois anos, quando o colégio em que eu estudava assinava e permitia que eu não prestasse atenção nas outras matérias pra me atualizar).

O interessante é que as coisas continuam exatamente iguais ao que sempre foram. Os escândalos se repetem e terminam antes do fim, e aquela mesma turma de intelectuais continua xingando a soberania dos Estados Unidos (apesar de morrerem de inveja de seus carros e crianças com peito). Sempre foi assim. Os americanos abrem a calça e nós mostramos a bunda. Os jornalistas manipulam como podem e a preguiça aceita sem reclamar.

Eu também fiquei sabendo e estou falando sobre o mesmo assunto durante todo o fim de semana. O que aconteceu é muito pior que as rodovias esburacadas dessa merda de lugar. O Maluf rouba 600 milhões de reais, sai no Jornal Nacional, vira tema de bar e vence as eleições no fim do ano. Vence porque constrói viadutos, encanta com suas obras fálicas e superfatura as contas pra poder desviar e botar no cu do povo depois.

Eu tenho vontade de fazer alguma coisa a respeito, mas não sei por onde começar. A princípio, ficaria longe de uma manifestação pública com camiseta, boné e aquelas pessoas gritando coisas sem concordância no megafone. Até assinaria um abaixo assinado, deixaria de votar nos seus iguais e todas aquelas medidas que demonstram como sou igual ao resto ? que, na primeira oportunidade, desce o cacete e dá as costas pro país.





7 de maio de 2004

Minha garota é Mae West. Eu sou o Sheik Valentino.
Com mágoas. Por pura distração.

O problema de não ter carro próprio (e nesse momento eu preciso interromper o raciocínio pra dizer que "carro próprio” e “dá pra jogar com qualquer coisa” são muito típicos das vendedoras de loja que eu odeio) é sentar exausto no sofá da sala da sua mãe e quase chorar ao perceber que todas as novidades da última semana são reclamações sobre as pessoas dos transportes públicos (que sempre merecem e rendem bons textos, mas irritam e cansam com o tempo).

Então, deixando de lado a estrada interrompida, três horas de atraso e todos os colonos tuberculosos que ajudaram a atrapalhar o meu sono, resolvi falar sobre o tema do Saia Justa de ontem à noite. Eu não tenho um programa favorito, raramente ligo a televisão, mas sei que todas as quartas existe um bom motivo pra pedir pizza e morrer de remorso. Porque uma coisa é pedir a pequena. Outra, bem diferente, é comprar a gigante, comer sozinho, olhar pra caixa vazia e imaginar o tamanho do seu estômago.

Tudo isso não passa de enrolação pra falar sobre as crianças más das escolinhas. Pestes que existem e atormentam colegas problemáticos de várias gerações. Pequenos soldados que, com o respaldo da tribo em que estão metidos, massacram seus menores pelo prazer de arrotar e palitar os dentes.

Por mais que eles sejam frutos de pais cuzões, eu prefiro acreditar na idéia de que todos são essencialmente ruins e potencializam essa capacidade através de lugares que negligenciam comportamentos duvidosos evidentes. Deixam de lado porque acham que é saudável, que faz parte do processo e que tudo bem de fazer com que o filho dos outros chore escondido todos os dias antes de dormir.

Se você pensa que é exagero, tenho certeza que era alheio aos acontecimentos ou agente causador da questão. Eu, enquanto membro das crianças que suavam no primeiro dia de aula pra não cair na sala dos meninos que me detestavam, me sinto no direito de falar abertamente sobre isso hoje em dia. De encarar a minha fraqueza e ver o lado positivo de todas as situações pelas quais já passei.

Eu sei o que é estar em pedaços no primário, juntar as peças e remontar a obra pra forjar a força que me falta. Eu vi os olhares daquelas freiras vagabundas que descontavam na minha desgraça a impossibilidade de foder. E eu nunca vou esquecer do rosto daqueles animais que eram uns inúteis e vão permanecer do jeito que cresceram.

O que não me mata me fortalece. Aos babacas do meu passado agradeço o meu futuro, porque não há evolução sem dor. Aprendi apanhando, tive consciência de justiça aos oito anos e sou um cara bem resolvido. Lapidado pelas pessoas da vida, que me marcaram com experiências ruins, lembram-se de tudo o que fizeram e têm a petulância de tentar minha amizade hoje em dia.

Termino sério porque não dói, mas está guardado. Deixe de desculpas. Não queira me explicar. É complicado esquecer as pancadas do caminho, mas sei que agressores também se recordam. Um dia, no sucesso, eu volto pra apontar seus fracassos. Quando eu sou bom, eu sou bom. Quando eu sou mau eu sou muito melhor.

5 de maio de 2004

Pela volta do mau cheiro em que eu vivo

Quem vê de longe, nem acredita que o buraco em que eu vivo fede a flores, mas já vou avisando que a culpa é das viúvas que moram na minha rua. Caminhando do começo ao fim, meu nariz fica entupido de tão intenso que é o odor. Já tentei achar que elas borrifam essências o tempo todo, mas to sabendo que há um movimento de mulheres que passam o dia fazendo café e assistindo Clodovil.

Quando eu tiver uma máquina pra registrar, faço questão de mostrar a vocês que tudo o que eu falo é de verdade. Que realmente existem pessoas que passam a vida com cadeiras de praia na varanda, cuidando de cachorros que vivem latindo e me olhando com cara de poucos amigos. É estranho. Enquanto eu planejo o meu futuro, elas vivem em função do jantar que farão para as visitas do fim de semana.

À noite, enquanto eu escuto som e me divirto com o que tenho, as coisas ficam ainda pior. São meninas da década de 40 deslocadas em um século que, pra elas, nem precisava existir. Se eu tivesse o carro importado e as esposas de boutique que a maioria dos filhos estacionam em festas de família, daria um computador com internet a cabo e amigas embrulhadas pra presente. Porque é triste esperar a morte vivendo das coisas escondidas nas caixas de veludo.

Tem gente que, como eu, não vê beleza em uma senhora que passa o dia regando e conversando com vegetais. Enquanto tudo está uma merda e o mundo corre contra o tempo, elas estão alheias preparando o café da tarde em suas cozinhas que brilham. Não dá pra saber se isso é bom ou ruim, porque minha madrinha já dizia que cada um enxerga a vida de acordo com os próprios óculos. Espero que elas não morram por experimentar os meus.

3 de maio de 2004

No escuro do ônibus, rumo à terra prometida

Perfeito. Dois idiotas que vão conversar ao longo das quatro horas de viagem acabam de dar início ao papinho típico de pessoas que não se conhecem e fazem questão de impressionar a todo custo. Depois de uns quinze minutos suspirando alto, movimentando a minha poltrona e falando palavrões em um tom moderado de voz, eles continuam falando sem dar a menor importância pra quem ouve o que eles falam na cabine do motorista. Já desisti de participar da conversa mentalmente e estou escrevendo, no escuro, pra ver se aceito melhor o fato de que os outros podem falar tanto quanto eu dentro desse lugar.

Ela é estudante, tá se adaptando e contando sobre como é bom viver sozinha em uma cidade grande. Gosta de ir ao supermercado, fica sozinha em casa a maior parte do tempo e está um pouco deslocada na faculdade. Diz que tá procurando emprego, mas é claro que isso é o que ela menos faz enquanto sai todas as noites pra caçar. É aí que ele entra, se aproveita da situação e fala que tá se mudando por uma boa oferta de emprego. Agência, agência, agência. Quer dar a entender que é de publicidade, mas todos sabemos que ele faz parte do banco de dados de uma empresa que cadastra empregadas domésticas.

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Pausas. Isso é bom sinal e nada está perdido. Eles não têm assunto e ficam falando sobre coisas idiotas que não precisavam ser ditas. Bom sinal, porque daqui a pouco um deles vira o pescoço e dorme. Ela diz que não gosta de anel e ele diz que o pai e a mãe morreram recentemente. Diz que foram perdas seguidas e já estou desejando que ele seja o próximo da lista. A menina diz que o fim de mundo em que ela nasceu é uma cidade bem turística e ele concorda discordando. Ela levantou, pediu licença e, sim, disse que vai sentar lá atrás. Vou ao banheiro pra passar por ela e agradecer. Minha mãe vai se orgulhar da educação que me foi dada.