Até a última ponta
Medida é tudo na vida. Na minha casa, por exemplo, você precisa ter a medida exata da chave do banheiro pra trancar a porta. Um centímetro pra fora ou pra dentro e toda a ação se torna inviável. Ou você a deixa onde está, ou ela sai fora e cresce o risco de alguém ser surpreendido roxo ao fazer aquilo que ninguém gosta de ver os outros fazendo.
Você pode tomar o maior porre da sua vida por passar dos lábios dormentes, pode querer que tudo vá pro inferno depois da anestesia do corpo inteiro ou, simplesmente, fazer de conta que a dose certa jamais existiu. Têm as medidas que funcionam, as que sempre darão certo e as que precisam de medidas pra que falhas de dosagem sejam consertadas a tempo.
Não adianta escapar, é ela quem dá norte à sua vida. Meu vizinho nazista que ficou maluco nunca vai saber, mas o prédio inteiro comenta que ele não a tem. Perdeu a medida e com ela foram-se os bons modos, o português pouco aprendido e a vergonha de andar com a cueca rasgada no elevador. Virou, assim, um estranho no ninho. O terror do prédio das viúvas. A vítima da dose incompleta.
Por estar em todos os lugares, podemos aplicar essa teoria às mais diversas situações. Existe a medida dos negócios, do controle na direção, dos passos de uma vida saudável, do odor e de uma boa trepada. No entanto, nenhuma delas têm repercussão tão certa e intensa como a do amor - que é a única capaz de fazer com que, de uma hora pra outra, você perca todas as demais e viva em função das formigas do seu estômago. O único tema grandiosamente popular, que faz com que você abra a sua caixa de entrada e descubra que o seu texto virou corrente.
Chega a ser engraçado escrever sobre isso. Dá vontade de interromper pra rir e dizer a você que ninguém tem a obrigação de ler o Faustão falando sobre a ALCA. Mas, retomando, toda relação estável corre o risco de virar jogo através das regras que estabelecemos pra conviver com alguém. Ou você é autêntico e esquece que o mundo não reconhece a perfeição, ou assume que é preciso trabalhar algumas reações e deixar de ser você mesmo em tempo integral.
Sem regras de comportamento, não há trato. Códigos pré-estabelecidos precisam ser obedecidos pra que, durante um jantar, você não surpreenda a sua namorada com o pé no meio das pernas do seu melhor amigo. Eles podem gostar, mas as convenções precisam ser respeitadas. Caso contrário, seria tudo bem de encontrar meu velho alemão sem cuecas e postar uma foto da suástica que ele tatuou na bunda há quarenta anos atrás.