Eu tento entender, mas continuo achando que não vou conseguir. Por mais que eu procure explicações lógicas, especule, formule teorias e todas aquelas coisas que eu costumo fazer pra ficar ainda mais confuso, nunca vou encontrar uma razão pra essa selva de gente burra que não me deixa chegar no castelo.
Um país de milhões que pára pra assistir à novela das oito, uma cidade de milhares que é descaradamente reformada quatro meses antes das eleições e 3 milhões de lunáticos evangélicos que invadem São Paulo pra fazer a Marcha para Jesus. Porque essas pessoas não ficam em casa comendo Passatempo com a Angélica na tevê?
Intolerância o caralho. Eu entendo que as pessoas gostem das novelas e queiram saber quem matou o personagem chave da história e não acho ruim que o último capítulo tenha picos de 68 pontos e esses detalhes que você só fica sabendo quando entra na página principal do OFuxico.
A questão é que eu não me importo com uma novela que nunca passou na minha tevê. As pessoas precisam entender que pode ser legal assistir algumas coisas que nem todo mundo vê. E cuidado. Perguntar pra mim quem matou o Lineu em momentos de fúria pode ser fatal.
Por tópicos e continuando o esculacho, estou na cidade dos feriados nacionais (que em breve passará a ser a terra do nunca) e fiquei chocado com as transformações da prefeitura. Em uma semana, tudo mudou. O trânsito, as ruas, as placas e as pinturas. Praças, ruas e avenidas iluminadas e um prefeito que aparece mais no jornal do que o Ozzy na MTV.
É claro que ele deixa as domésticas da cidade sem saneamento básico nos seus bairros, mas elas só servem pra limpar o chão e cuidar das suas crianças. O supermercado é ali ao lado, mas agora a elite tem placas pra saber como chegar. Placas coloridas e grandes, iguais àquelas que viram em Nova Iorque quando deixaram de comer por seis meses pra passar três dias e voltar.
E pro inferno com a Marcha de Jesus. Vou ali começar a virar gente pra dormir às seis da manhã. Hora de terminar minha jarra de quentão, comer a comida do meu pai e aproveitar um fim de semana sem rodoviária, ônibus e taxistas.
27 de junho de 2004
26 de junho de 2004
Você tá insatisfeito com o serviço grátis, passa a pagar pra não se incomodar e descobre que as pessoas não dão valor ao seu dinheiro. Bancando uma fortuna ou ganhando assinatura grátis em troca de textos ruins, as pessoas olham de cima pra baixo e se sentem no direito de fazer de conta que tá bom assim. São aqueles jovens engravatados que pegam ônibus às sete da manhã e só trabalham pra contar vantagem no Natal da família. É bom ter clientes, mas as coisas ficam melhores quando os clientes se sentem respeitados. Estava há dois dias fora do ar e pretendo não passar por isso outra vez. Vou ali e já volto.
21 de junho de 2004
Você tem quinze anos e o sonho da sua vida é dar fim às espinhas amarelas do seu rosto. Sua pele parece uma esponja suja e quanto mais você espreme, mais tem vontade de esfolar a própria cara. Você é feio, fala coisas idiotas em momentos impróprios e gosta de tudo aquilo que detestará em, no máximo, três anos. E o bom de ser jovem?
O bom de ser jovem é que chove na sua horta. O mérito não é seu, mas as pessoas querem ficar com você porque estar com alguém é mais do que preciso. Beijar na boca é um passo importante em fases como essas. Antes de tudo, a melhor maneira de se enquadrar no grupo mais valorizado das pessoas da escola. É claro que isso se faz com nove anos no jardim de infância, mas você entende que eu não preciso imaginar minha irmã nessa situação.
Têm coisas que começam nesse período e só pioram com o tempo. Você não entende porque sua mãe se preocupa tanto com suas refeições até receber e-mails com listas nutricionais. As pessoas dispensam seus comentários em rodas de adultos da mesma forma que não ouvem o que você fala enquanto estagiário e sua auto-estima tende a diminuir com as rugas de expressão que conferem a você mesmo um aspecto de couro maltratado.
Já outros detalhes permanecem iguais e duram tanto quanto aquelas visitas que aceitam seus convites no fim da tarde de um domingo do seu verão. São questões de temas variados, porque seus pais enchem o saco e a cidade em que você nasceu é uma merda. A internet, o dinheiro e a quantidade de bebida são regulados em todas as alturas da vida, e festas não são permitidas dentro do apartamento que não é seu.
Mas aí você cresce, descobre o sexo e ganha uma chave que abre a caixa de correspondências. Do dia pra noite você é alguém que não sabe quem é e precisa alimentar o bolso de quem sabe ainda menos. Tudo o que você se perguntou na adolescência vai fazer pouco sentido, porque lutar contra o sistema não é suficiente. Você precisa dançar a música dos outros pra não ficar sem disco. Os grandes sorriem, sacam o chicote e te comem por trás.
17 de junho de 2004


Acabei de acordar, porque agora voltei a fazer parte do grupo das pessoas que dormem a tarde, e já sinto que posso falar de Cazuza - O Tempo Não Pára sem ficar dizendo sete vezes por parágrafo que eu quero ser o personagem principal.
Saí da sala de cinema feliz, mas muito confuso. Primeiro, porque é tão bom que todas as velhas da sala se levantaram pra cantar a música dos créditos finais. Depois, porque o filme é um tapa na cara de todas as possibilidades de políticas corretas. Mais do que uma homenagem, a produção é um grito de liberdade.
Em uma semana pretendo parar de comentar as cenas em momentos impróprios, pra começar a pensar em assistir pela segunda vez. Uma amiga que se apaixonou platonicamente pelo Anthony Kieds depois do show do Red Hot no ano passado, me contou que uma segunda ida ao cinema no meu estado obsessivo atual pode ser fatal.
Com relação às características técnicas do filme, descobri que o diretor Walter Carvalho filmou em 16mm, passou pra 35mm e deixou as cenas com características muito específicas do cinema brasileiro na década de 80. Alguns críticos não gostaram, mas não merecem respeito porque devem freqüentar shows do Roberto Carlos. O aspecto de desleixo é muito bem-vindo em todas as passagens e a leveza de Cazuza é refletida inclusive nos movimentos de câmera, uma vez que nenhum tripé foi utilizado ao longo de todo o processo.
Daniel de Oliveira é um grande ator e dá margem para imaginarmos o quão pior e vazio o filme teria sido sem ele. Uma clara demonstração de entrega à arte e respeito ao personagem que lava a alma de quem já não agüenta mais as caras burras da televisão. É, apesar de pouco experiente, um dos grandes nomes do cinema nacional.
Saí querendo comprar o DVD pra chorar em todas as cenas que me controlei. Saldo positivo. Agora todo mundo odeia ainda mais o Frejat e esquece esse negócio de ser John Malkovich. Torço, sinceramente, pra que seja uma das grandes bilheterias do ano. Vá ao cinema.
15 de junho de 2004
Viver as cores que ninguém vê é abrir mão de ser normal e passar por cima das suas próprias barreiras, gritando sem medo das inseguranças de quem consome sua forma de expressão.
Para os soldados cegos do mundo que gira, enxergar pelos olhos dos outros pode não fazer sentido. São olhos que não buscam compreensão por conhecerem o lado negro da desilusão. A janela só fecha pra gozar o prazer de ver coisas que só podemos sentir. Licença para o desejo de ser alguém dentro de si.
Dizer que todo artista trabalha com a miséria enquanto instrumento, é conhecer com propriedade a arte de viver em uma floresta de desencontrados. Gritar pro vazio aquilo que ninguém vê é ser e parecer o oposto de quem atravessa a multidão sem chamar a atenção.
Hoje minha dor é maior que a sua, amor deve ser medido e brilho nos olhos é indicador social. Eu conheço o respirar de quem encanta por apenas existir. Felicidade não é ser você mesmo, mas se permitir àquilo que não se quer ser.
14 de junho de 2004
Eu fico me gabando de ter uma casa, limpar o banheiro e varrer o chão, mas não aprendi a fechar as janelas antes de passar uns dias fora. Desde cedo me ensinaram a levantar a tampa do bacio e eu continuo mijando a casa de todo mundo e essa é mais uma das coisas que são assim, porque é assim que elas vão continuar sendo.
Tava tudo pronto e montado em esquemas, só que o meu tênis derreteu no duto de ar quente da viagem que acabei de fazer e, visto que esse é um problema classificado como muito grave na minha escala de valores, perdi a última hora colando os restos mortais do que já não tava lá essas coisas.
Aí eu tinha lixo da cozinha dentro dos quartos, fotos molhadas no banheiro e um Buda pedindo socorro na porta da geladeira. Essa cidade tá fazendo um frio do caralho, não tem ninguém na rua e o meu aquecedor resolveu que hoje era um bom dia pra eu tirar todos os cobertores do balcão e ainda assim bater o queixo. Ele nunca havia tentado não funcionar, mas eu também nunca tinha precisado dele dessa forma. Já vi que é uma questão de proporção e que ele vai começar a esquentar o quarto quando o despertador tocar pra eu pular da cama.
Amanhã falta um mês pro começo da minha nova vida e já estou me candidatando pra ser representante do governo na reforma dos feriados nacionais. Primeiro decretarei o direto à pré-datas-importantes e, depois, o dia do solteiro. Aquele em que você acorda sábado de manhã e compra flores pra entregar no seu jantar com você mesmo, ou presenteia seu melhor amigo por não ter acreditado na máxima de que as pessoas são felizes quando se casam. Ia ser fenômeno comercial do nível Páscoa e Natal. Eu ia ganhar muito dinheiro, viver mil verões bebendo coquetéis com leite condensado nas Bahamas e tudo aquilo que eu não gosto de fazer quando o sol aparece.
11 de junho de 2004
O mundo pode até tirar férias, mas precisa saber que nem todo mundo dorme até as duas e meia da tarde em dias como hoje. Descansei três horas, acordei fedendo a todos os cheiros de um bar cheio de pessoas velhas que cantam todas as músicas do Chico Buarque, desci tentando assimilar os botões do elevador e dei de cara com uma cidade completamente vazia.
Era o Times Square do Vanilla Sky com o sertão da Bahia de Abril Despedaçado. Esperei dez minutos na parada de ônibus com uma mala de roupas sujas, um estômago pedindo comida e a mochila que ainda não se adaptou à minha falta de postura. Descobri que o transporte público tirou o dia livre, saí trocando xingamentos com o eco da minha voz e decidi ir pra rodoviária a pé.
Agora que cheguei, percebo como é complicado dividir dias de folga com a família. Todo mundo fica em casa achando que o país inteiro emendou os dias pra curtir o frio de alguma cidade que tenha graus negativos e chocolate quente. Passam os dias na fossa, esquecem de ligar pros amigos que estão em casa pensando a mesma coisa e fecham os olhos pra imaginar as grandes notícias que seus colegas de trabalho contarão segunda-feira de manhã.
Assim caminha a humanidade. Todo mundo precisa de um bom motivo pra sofrer e, assim, ser feliz. Os desempregados vivem um período de férias indeterminadas, os assalariados passam o dia pensando nos funcionários públicos, e os funcionários públicos não pensam em nada. Não porque a vida tá fácil, mas porque eles são pagos pra isso. Passam o dia em escritórios verde água com ventilador de teto e vivem com camisas marcadas no sovaco pelas manchas de suor.
Enquanto eu tenho que me submeter a uma série de coisas não-tão-legais pra dizer que sou da família, os desocupados estão reunidos em chalés e hotéis fazenda. Deve ser pra isso que servem os feriados nacionais. Você aluga cabanas, monta pôneis e faz o dinheiro girar. Vou resolver uns pepinos e morrer na frente da televisão. Bom fim de semana pra você também.
8 de junho de 2004
Não é implicância. Algumas pessoas sofrem com ausência de bom senso e ponto final. Se elas não se importam, quem passa trabalho é quem tem. Essa gente tá por todos os lugares, em todas as situações e atravessa o seu caminho quando você menos espera. Deve haver uma estatística ou números que comprovem minhas teorias, porque é tudo muito óbvio pra não ser verdade.
São pais que levam seus filhos que berram em lugares adultos, casais que discutem a relação no meio de um filme da Sandra Bullock e aquela massa enorme de jovens desmedidos que passa uma vida em função de berrar sua inconveniência na cara das pessoas do mundo.
Essa é a vantagem de ser comedido. Você evita transtornos e não estabelece ligação com as frustrações dos receptores das suas mensagens. Não se trata de sofrer por antecipação ou de se preocupar excessivamente com a opinião dos outros. É apenas ter cuidado pra não seguir o caminho dos estabanados.
Quando você se identifica com uma situação constrangedora e tem problemas quanto a assumir que também passa por isso, acaba projetando seu bloqueio e criticando quem faz o que você tem medo de fazer. É assim que um grande grupo de jovens impulsivos se fode todos os dias.
3 de junho de 2004
Tem uma coisa chamada trabalho que entra sem bater, vai arrancando o lençol e acaba estragando todas as tardes de sono de alguém que gosta de dormir. Dessa forma, de brinde, você ganha a preguiça e aqueles gemidos de cansaço que todo mundo faz mesmo quando não tem vontade.
Estou sem tempo pra ligar a tevê na sala e ficar escutando as putarias da MTV enquanto checo e-mails e escrevo e-mails e deleto a maioria deles depois. Não posso mais deixar a mochila em cima do sofá até o dia seguinte, nem procurar a lista de filmes que estão em cartaz e correr para o cinema, nem pensar duas vezes antes de levantar cedo, nem todas essas atividades que eu desempenhava com tanta facilidade há duas semanas atrás. É um mar de abdicações que resulta em olheiras e uma febre local que faz dos meus olhos duas bolas quentes e vermelhas.
O tempo tá voando e eu preciso organizar cerca de sessenta itens que eu insisto em transferir de uma folha pra outra na minha agenda. São detalhes de projetos, itens de mala, favores pro papai e compromissos de faculdade. Um bolo de listas de supermercado e lembretes insignificantes que você escreve pra dificultar, ocupar espaço e reclamar depois.
Hoje o dia é de pagar algumas contas do mês passado que já estão vencidas pra que eu não fique sem luz e banho. Destaque para trabalhos que fazem com que eu perca as esperanças de uma noite tranqüila às nove horas da noite, água no balde, cabelo no ralo do chuveiro, lixo de semanas na cozinha e todas essas coisas que eu pretendo resolver com a chegada de mamãe que, sim, veio me visitar.
Estou atrapalhado e sem tempo pra observar o mundo que passa na janela. A impressão é a de estar preso e impedido de respirar, porque até o ócio se torna um sacrifício. Um barulho. Um barulho avisa que o despertador também está passando por dificuldades. Hora do almoço. Comida no prato, barriga cheia, correria e amanhã é só outro dia cheio de tópicos e avisos.