23 de julho de 2004

Navalhas multicores que dividem nossos pratos

Uma semana, vinte e sete cartões. Isso é viver cercado de tecnologia. Você ganha cartões de todas as cores e finalidades, não é ninguém se os deixa na gaveta de casa e precisa fazer de conta que se sente abençoado quando o contemplam com essas coisas que fazem a sua carteira parecer um Big Mac com a carne fugindo do pão.

Se em pouco tempo já foi assim, posso imaginar a minha caixa de sapato especial para cartões em menos de um mês de vida fora da terra. Cartão da escola, do metrô, do telefone público, de estudante internacional, da energia, do celular, do passe e da vida. Tem também os de crédito que eu finjo que não existem e mal posso esperar por presentes do banco, do trampo e das agências (de modelo, é claro).

Algumas empresas perdem a noção da praticidade e fazem da sua vida um inferno virtual, porque não basta adquirir - você tem que personalizar através da internet. Aí você corre pra carteira e procura os cartões do passe (pra ir ao centro), do cyber (pra ter acesso uma vez no centro) e de crédito (porque internet não é direito adquirido em lugar nenhum do mundo). Em cinco minutos de tentativas frustradas você é um psicopata suado, lutando contra o mouse e tentando explicar pra um indiano de sessenta anos que o computador não está conectado.

Com tantas possibilidades mais criativas, os inventores das bonecas que falam fizeram do identificador magnético a grande sacada da civilização moderna, tornando indispensável tudo aquilo que você mais perde, esquece e deixa cair. Bobiou, se fodeu. Deixou cair? Dorme na rua, anda a pé e perde contato com o mundo externo. Sim, eles têm outras finalidades, mas é basicamente pra cortar a sua jugular que eles existem.


20 de julho de 2004

Banco Imobiliário com Sim City
 

O bom de viver fora do país é ter a sensação de estar o tempo todo em um jogo. Alugar uma casa, conseguir um emprego e ganhar dinheiro não são tarefas impossíveis como no Brasil. Você decide, vai atrás e descola a solução para o seu problema sem conhecer a mãe do dono do apartamento.
 
Aí as pessoas chegam, ficam uns meses, descolam uma grana, continuam mais um pouco, arrumam a casa do jeito que gostariam que ela estivesse no começo, cruzam as pernas em cima do sofá e ficam aqui por mais tempo do que planejaram ficar. Você coloca o disco do jogo, fica viciado e não faz questão de levantar pra tomar banho ou sair pra conversar com alguém. O dinheiro entra, você faz ele sair com as coisas que jamais imaginou comprar, se realiza cinco minutos e já sai atrás da próxima aquisição que passa a ser a mais importante da sua vida.
 
E o mais legal? O mais legal é que não existe mais legal. Tudo é bom, cada esquina reserva uma nova descoberta e você se perde em coisas que jamais chamariam a sua atenção antes. Virar para o lado já é uma diversão, porque conversar com qualquer uma das pessoas das ruas é ganhar novas informações e usar a troca a fim de conhecer outras culturas diferentes da sua.
 
Você aprende que as pessoas podem ficar tão impressionadas com o seu hábito de tomar banho de chuveiro todos os dias quanto quando você fica sabendo que aqui no mundo civilizado um mendigo ganha cem pounds por semana pra cuidar de um cachorro de rua. Bom pra caralho porque ser jogado em qualquer outro país do mundo sem sair do lugar nunca foi tão fácil como é agora. O que falta é descobrir as teclas de atalho para o andamento perfeito da próxima jogada.


17 de julho de 2004

Problemas de percurso
 

E a viagem foi um fiasco. Fiquei no pior lugar que alguém pode ocupar dentro do avião, o inglês da poltrona ao lado era um leitor compulsivo que deixou a luz acesa ao longo de toda a viagem e cheguei em Londres sem as malas que despachei na terra prometida. Fiquei de quarta a sexta com a mesma roupa (incluindo cueca e meias), não me acertava sem as coisas de higiene pessoal e tive que me conformar com a ausência de todos os artefatos eletrônicos que mantém ligados os que eu trouxe na mochila.
 
Como prova de que no fim tudo vira bosta, a jovem da imigração fez um interrogatório de aproximadamente quinze minutos, sugeriu que não havia necessidade de aprender inglês e não concedeu o visto que eu julgava ideal. Aí, quando eu já estava arrasado, descobri que o translado que paguei no Brasil pra me esperar em Heathrow não estava no portão de desembarque. Tive que, sim, dar um jeito de chegar do outro lado da cidade sozinho. Nada desesperador, mas eu já estava sem as malas e achando que não chegaria vivo em casa.
 
Depois de dois dias e meio, acordei ao meio-dia e perdi o horário para o British Museum (que pretendo visitar amanhã). Estou colocando o computador nas costas e indo pra Starbucks a fim de usar a conexão sem fio e comer o primeiro sanduíche do dia. Esses três parágrafos foram mais ou menos pra explicar o verdadeiro motivo de não ter dado notícias até agora. Mandem notícias. Volto assim que puder.


Todos os dias, no GNT
Sexta-feira (eu acho)
 

Quanto mais o tempo passa, mais eu me sinto em um documentário mais ou menos do GNT. Tudo em Londres tem um cheiro diferente e as pessoas soluçam enquanto falam. Ainda não dormi, mas já vivi o suficiente pra saber andar sozinho no metrô e descobrir bons pontos de Internet sem fio na cidade. Você vai pro grande centro, mas continua sendo o mesmo viciado da terra do nunca. Telefone é caro e eu não posso ficar sem contato com as pessoas. Pode parecer frescura, mas não dá.
 
Tudo por aqui é grande e histórico. As igrejas não têm a mesma função que as nossas porque nós não temos uma princesa que casa com o filho da rainha (só a princesa que foge da Europa pra botar no rabo dos nossos índios). Os ônibus e cabines e carros antigos lembram a cidade no século passado, e o metrô velho tem o mesmo fedor da fábrica de cerâmica em que meus pais trabalhavam há dez anos atrás. O mesmo. De lembrar das visitas promovidas pela empresa no Natal e todas as outras memórias da minha infância.
 
No mais, meu pé e minhas costas doem e eu não reclamo porque sei que amanhã eles estarão doendo muito mais. Dessa forma, pelos túneis da cidade grande, mulheres muçulmanas cobertas da cabeça aos pés e homens indianos coloridos disputam a atenção desses jovens que se acham muito malandros e acabam escrevendo textos que a gente encontra com mais qualidade na National Geographic (que, aliás, eu já visitei perto de Heathrow).
 
O tempo é quente, mas nublado. As pessoas também são assim e vivem bebendo em parques espalhados por todas as cidades. Cada um cuida da sua vida e eu cuido da de todo mundo. Tem gente jogada no chão com os braços picados, mulheres de tribos africanas com tatuagens por todo o rosto e gente com características de lugares que eu nem sei quais são. Dá vontade de parar e bater fotos pra guardar e lembrar pra sempre. Estou no centro do mundo. Vou lá viver e volto quando eu puder. Tem uma hora que cansa ficar escrevendo sobre tudo o que todo mundo já sabe, mas faço isso porque saber de longe e sentir na pele são duas coisas diferentes.


Butterflies are free to fly
Quarta e quinta-feira durante a viagem
 

Acabei de deixar as três pessoas que mais amo no mundo chorando em um aeroporto pra dividir o espaço com um turco insuportável que usa chapéu de gaúcho com óculos de moderno. É claro que ele vai ao banheiro de 20 em 20, funga mais que meu pai quando gripado e faz questão de fazer de conta que entende alguma coisa de italiano. É bom, porque até esqueci de chorar e me acabar e imaginar que o avião vai cair pra que eles usem o telefone de emergência que eu dei antes de embarcar.
 
E o bom de ter um computador portátil, é que você fecha no ar e abre em terra com absoluta segurança. Estou no aeroporto internacional de São Paulo tentando lembrar a senha de um provedor que eu nunca uso porque essa é a única possibilidade de conexão aqui no saguão de embarque da ala internacional. Fácil. Eles aproveitam a boa vontade dessa gente rica e burra pra cobrar o que eu pago em um ano de provedor dentro de casa.
 
Ponto pra todo mundo que vota em aparelhos do próximo século. Essas tecnologias funcionam quando você menos precisa, mas eu não estou querendo disfarçar as minhas reações pra um computador a fim de obter algum resultado. E ta tudo bem assim. Mulheres altas e magras com chapéus de Parintins (deve ser a época e eu espero que realmente seja de lá), jovens estranhas que descem de Mercedes usando Converse com a Wanessa Camargo no ouvido.
 
Faz um puta calor na capital das capitais, uma senhora negra e gorda e vestida de lilás fosforescente está histérica tentando realizar uma ligação a cobrar pra Curitiba e, finalmente, a seleção brasileira está em peso distribuindo autógrafos e embarcando pra algum lugar que eu nem desconfio qual seja. O Cafu ta sentado do meu lado e é bem bom que todo mundo dê oi pro Cafu porque ele é aquele que subiu em um palanque com a taça do mundo e fez juras de amor pra a mulher no Brasil.
 
E chega. É difícil me concentrar, porque o balcão das moças que berram está ao meu lado (e do Cafu) e elas estão realmente preocupadas com meia dúzia de jovens jogadores que precisam defender a nação. Se fosse eu, já teriam partido há muito tempo. Vou ali nas lojas fazer de conta que posso comprar tudo o que eu perguntar o preço e as funções e todas as características. Eletrônicos, já.
 
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E antes de fechar o computador pra cair fora do Brasil, devo dizer que vocês (papai, mamãe e irmãzinha) são as pessoas mais importantes da minha vida. Muito obrigado por tudo o que vocês fizeram e continuam fazendo por mim. Jamais pagarei tudo o que devo, mas mando uns brinquedos legais quando estiver lavando pratos suficientes pra isso. Eu os amo tanto que até dói. Fiquem bem. E traz o lencinho.


6 de julho de 2004

Aníbal-das-blusas-com-bolinhas

Ter um professor com esclerose e barbas brancas não é tão ruim quanto realizar que ele tem a idade do seu avô mais velho. Pra piorar você é obrigado a sorrir pra não repetir o semestre no dia em que você acorda com o pé esquerdo, veste óculos escuros como se tivesse usado todas as drogas do mundo e esquece a bronca que ensaiou a fim de defender a sua honra e desrespeitar as leis da terceira idade. Aí você tá pronto, ele tá na sua frente e tudo o que você consegue fazer é pensar que ele poderia ser o pai da sua mãe.

Hoje, na última semana dos últimos seis meses, descobri o nome do meu professor de cinema. Chama-se Aníbal, não retorna ligações e não sabe o que é internet. Chama-se Aníbal, fez o último curso de atualização há mais de cinqüenta anos atrás e pensa seriamente em abandonar seu resto de sanidade ao longo das próximas semanas. O homem que poderia ser o pai da minha mãe chama-se Aníbal e nasceu em uma época em que as mulheres não tinham medo de botar esse nome em suas crianças.

Fato é que eu já sei o que ele faz no fim de semana. Só de olhar, tenho certeza que ele fala as mesmas coisas há mais de trinta anos sem mudar sequer a entonação das palavras. É das pessoas que não buscam novos horizontes e se satisfazem com o que assegura a manutenção de seus caprichos: um cinema de vez em nunca e pirulito suficiente pra que os netos fiquem quietos na hora do jornal.

Tudo bem que ele tá esperando uns anos pra pendurar as chuteiras já rasgadas, que eu não deveria reclamar tanto e que todos os senhores de idade fazem as mesmas coisas há séculos sem mudanças aparentes. Tudo bem que eu esteja há semanas sem mexer os dedos, porque eles não obedecem aos comandos da minha cabeça e me deixam com a impressão de que eu preciso parar antes de ter vinte anos completos. Estou de saco cheio. Só respirar não me leva a lugar algum.

1 de julho de 2004

Caixeiro viajante

Época de transição é foda. Você fica sem saber seus dados pessoais mais básicos e tem que explicar a mesma história todos os dias. Não há um endereço fixo, seus cadastros virtuais precisam ser alterados e, de repente, todo mundo fica sem saber aonde é que você vai se meter.

Na faculdade, uma informação. Pra locatária, uma explicação. Todas as contas canceladas e uma justificativa diferente pra cada telefonista que entra em contato pra te encher. Dessa forma, ao longo do dia, você é atacado com uma chuva de reações esquisitas. Um caminhão de até logo e boa sorte vindo de um monte de gente que nem te conhece direito. Pessoas legais que se preocupam em esquecer o seu nome cinco minutos depois de dar as costas.

To na terra prometida, esperando os resultados e sofrendo com um dos dias mais quentes do inverno. Nunca mais entrei em ônibus e já não lembro como se faz. Ao invés de cobradores que acordam virados, tenho que lidar com a impaciência de motoristas que jogam seus carros em cima do meu. Já briguei de abaixar o vidro pra xingar e mostrar o dedo, a buzina funciona mais do que o freio e dormi da novela das seis até agora de tão cansado e pouco acostumado com essas coisas que dependem da sua atenção pra saírem do lugar.

Vou de volta às caixas, pois se trata de uma mudança e é assim que as coisas acontecem quando você tem pouco dinheiro e muita vontade de cair fora. É um grande passo a ser dado, vai ser legal e chega de falar disso. Meu pai assiste à tevê no volume máximo, tenta competir com o barulho da avenida e me obriga a não terminar o texto da forma que eu queria. Outra hora, menos abafado e com mais tempo, dou sinal da minha vida de cá.