31 de agosto de 2004

Agora isso é um blog outra vez

Antes de vir para Londres, pedi que minha mãe mandasse notícias importantes do Brasil via qualquer meio que eu pudesse manter um determinado grau de informação. Primeiro, porque sim. Depois, porque sim também.

Foi aí que há duas semanas topei com uma caixa de chocolates ao chegar em casa e, com vontade de vomitar, passei a ler a mais tradicional de todas as nossas revistas ruins. Com mais um político milionário fazendo caras estranhas na capa (porque são sempre os mesmos fazendo as mesmas merdas da vida inteira) e a ausência de notícias não relacionadas à gravidez da Luana Piovani, não pude deixar de reparar que Lya Luft reforçou o time de cronistas com aquelas coisas idiotas que a sua avó diria com menos rebuscamento. Tipo, por exemplo, pensar é transgredir.

No fim, já na coluna do Diogo Mainardi, encontrei a única coisa que realmente prendeu a minha atenção. Começando a conversa, ele entrou na minha vida, saiu e aparece de vez em quando. Pra mim, um lunático a toa que ganhou espaço e faz Manhattan Conection com o típico ar de superioridade que só um bom babaca consegue manter. Como lunáticos babacas também têm os seus momentos, acabei pirando e concordando com a propriedade de quem está fora e pode opinar com consistência. Coisa, aliás, que babacas faze com freqüência.

Olimpíadas.

Porque era disso que eu ia falar.

No texto, que é muito ruim obrigado, ele fala a respeito da ausência de êxito dos nossos atletas e de como a imprensa faz de conta que o Brasil é reconhecido por qualquer coisa que não seja futebol (na verdade eu é que estou dizendo que é isso que ele diz). Eu não sei se a Globo ainda está no ar, mas tenho certeza que interrompeu a programação com flashes das derrotas e movimentou todo o sistema Globosat com coberturas, choros e reclamações. Perder não é suficiente, a gente tem que contestar.

Aqui, na terra das mulheres cobertas que apanham o dia inteiro, o Brasil aparece menos que a Etiópia e os esportes individuais que dão valor às nações participantes não contam com a nossa presença em nenhuma das finais. É claro que ganhamos ouro no iatismo, mas outras vinte e sete pessoas de cinqüenta e quatro países fizeram a mesma coisa pra que, na pior das hipóteses, todo mundo ganhe medalhas de ouro e a Coca-Cola feche contrato pra anunciar as Olimpíadas de Seul.

Se você já está chorando porque acompanhou tudo e acaba de descobrir que Papai Noel não existe, pode guardar o lencinho. No fim do segundo tempo, o mundo voltou os olhos para o Brasil com olhos de indignação e, graças à torcida da maratona, também tivemos nossos quinze minutos. O paraíba chorou, a Folha de São Paulo cobriu com coisas exclusivas e os ingleses deixaram de perguntar das praias pra sugerir uma medalha de merecimento. Mas passa, porque aqui as bombas explodem e todo mundo faz de conta que a Olimpíada foi há quatro anos atrás. E o Brasil? Aquele das Havaianas e, é claro, do futebol.

Em tempo: uma das coisas mais engraçadas que li nos últimos tempos foi o balanço geral do COB afirmando que o país provou crescimento qualitativo mesmo com a considerável diminuição do número de medalhas. O que eles chamam de progresso, eu chamo de cagada.

30 de agosto de 2004


25 de agosto de 2004

Mão no pau, pau na boceta - parte II

Imagine que você acorda, faz as coisas que deveria fazer todas as manhãs e vai até a padaria comprar o seu café (você tem tempo e dinheiro pra fazer isso todos os dias da sua vida). Ao chegar no destino, nenhum funcionário do estabelecimento fala a sua língua e você fracassa em todas as tentativas de pronunciar o nome do lugar de onde vieram. Eles não têm história, nomes e não se relacionam com pessoas que não possuem a falta de expressão típica de lugares reconhecidos por acaso pelo Atlas Geográfico. A culpa não é sua. Tolerância é o que vem a sua mente.

Aí você resolve tentar uma simples conexão, compra os pães e volta pra casa tentando se acertar (porque você é fresco e ficou vinte e sete minutos tentando explicar que gosta de pão sem miolo). Na hora do trabalho (você tem muito dinheiro e trabalha pra fingir que tem responsabilidades), você pega o metrô (pra brincar de ser pobre) e percebe que mais de noventa por cento das pessoas do seu vagão não são da sua nacionalidade. Ou seja, você mora em uma nação que é sua, mas só por acaso. Alguns estrangeiros enrolam a língua, outros fazem apenas gestos, mas a maioria tem cara de nada e não esboça reaçoes com a exclusiva finalidade de evitar contato com quem não nasceu nas montanhas rochosas do Quirquistão.

Saindo da estação e pegando a rua principal da cidade em que voce nasceu, uma procissão de mais ou menos quinze pessoas estranhas pintadas da cabeça aos pés e devidamente vestidas com pedaços de pano cor pastel, esbarram e cantam coisas incompreensíveis na sua cara. A sua vontade é a de promover um evento africano na frente dos portões de onde os primeiros jamais deveriam ter saído, mas você respira fundo e pensa que é assim que as coisas funcionam quando vivemos a era da diversidade cultural.

No trabalho as coisas continuam como sempre. É claro que a sua secretária é preta e grande, pinta as unhas do pé de vermelho e tem mais ou menos cinco vezes mais lábios que a Angelina Jolie. Ela usa turbante combinando com o vestido, acha que está linda o tempo inteiro e você precisa disfarçar a cara de espanto todos os dias quando abre a porta do escritório (ela já acha que essa é a sua expressão natural).

No telefone, as pessoas não falam o seu idioma. Estão em recepções, lojas, mercados, festas e eventos. São motoristas, recepcionistas, faxineiros e todas as pessoas que limpam a sua bunda. Todos esses idiotas que fazem as coisas que nenhum dos seus amigos tem coragem de fazer. Essa gente feia e suja que ocupa espaço e não serve pra nada que não seja botar a mão em lugares que jamais seriam tocados por pessoas brancas, européias e, por isso, muito inteligentes. Uma massa escura que fede. Gente que não tem dinheiro, em trajes que falam por si só.
Aqui na Inglaterra tudo começa bem. As pessoas pensam coisas legais e estão informadas, mas um dia lembram que diversidade cultural também cansa. Aí tratam bem quem tem dinheiro, destratam quem não tem e, como tudo acaba em sexo de qualquer maneira, abrem exceções aos moradores do distrito vermelho. Aí sim, tudo outra vez. Salve a Rainha. Viva a diversidade cultural.

15 de agosto de 2004

Do suportável

Se você nasce em um lugar como esse e não vive do turismo, acaba sem motivos para ser um adulto normal depois dos vinte anos de idade. Deve ser por isso que pessoas desfilam sem roupa em parques lotados de executivos que tomam sol de meio-dia com terno e gravata.

É claro que existem alternativas bastante eficientes pra fugir do caos em épocas historicamente invadidas por habitantes do resto do mundo, mas eu não posso abrir mão de viver as melhores coisas de um lugar que não vai ser a minha casa pro resto da vida. Dessa forma, o esquema é andar sem pensar na velocidade das pessoas que encaram o passeio como shopping em época de Natal.

Deixando de lado a diversidade que permite acesso a todas as regiões do planeta e essas coisas que eu costumo falar pra que os outros morram de inveja e queiram estar no meu lugar, tentar entender o sotaque polonês de todas as pessoas que não são da Polônia (porque, na dúvida, todo mundo é de lá) faz parte do cotidiano de quem mora por aqui.

Botar os pés na rota turística em um fim de semana tem outras desvantagens. Você sai em todas as fotos de todos os asiáticos do lugar, precisa bater fotos para todos os italianos que gostam de aparecer com os amigos e não pode perder a paciência quando um grupo de turcos segue a sua trajetória falando palavras tão pouco sonoras que você tem medo de estar no Candid Camera.

Existem meios pouco lícitos, mas uma alternativa para aqueles que não seguem a principal (dormir e esperar a segunda-feira) pode ser levar fone de ouvido e não abrir mão deles mesmo que alguém tente contato com você. A menos que alguém esteja interessado em treinar seu inglês com turistas da Colômbia ou falar bem do Brasil aos jovens da Koréia, nada vai mudar a sua vida. Você contaria sobre as praias, responderia que falamos português e seria aplaudido porque, especialmente esses últimos, se divertem com qualquer prazer (incluindo rolar de rir com pombos que estão por todos os lugares).

Acordei sem saber o que fazer, fechei os olhos e escolhi uma dessas atrações porque estava frio e chovendo. Mesmo assim, eles estavam por todas as partes, em todas as filas quilométricas e se divertindo com qualquer coisa que tivesse cores ou fizesse barulho. Aparentemente essas pessoas não fazem nada em seus países e vivem em função de guardar dinheiro pra ter uma vida de verdade por uma ou duas semanas, mas não cabe julgar o estilo de vida de quem ignoro boa parte de quase tudo. Item extra da lista: não confiar em pessoas que usam ideogramas, porque diversidade cultural tem limite.


12 de agosto de 2004

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Essa é uma carta oficial direcionada a todas as pessoas que acham que a minha caixa de entrada está disponivel pra qualquer coisa que nao sejam pessoas ricas me oferecendo empregos milionarios. A voces, que me entendem como uma maquina de fazer textos, uma explicacao.

Estou em uma sala com mais ou menos dez computadores, usando a internet gratis do ultimo andar em um restaurante brasileiro da Oxford Street. Enquanto tento escrever alguma coisa ignorando que todas as palavras acentuadas nao terao acento, o jovem ao lado parece estar mais interessado nas minhas coisas do que nas dele.

Até sei que nao posso reclamar, mas as pessoas acessam seus cartoes virtuais com a musica no ultimo volume, gritam com os amigos que estao no outro lado da sala e ficam horas falando bem de umas coisas super dispensaveis do nosso pais (como, por exemplo, tudo). É claro que eu também nao entendo como essas pessoas do interior do Acre conseguem ter dinheiro pra almocar aqui todos os dias com direito a coxinha com guarana no meio da tarde, mas essa é outra questao que eu nao pretendo abordar agora.

A vida aqui nao é tao simples e eu nao tenho tempo pra escrever nada que nao sejam mensagens para os meus pais, meus amigos mais proximos e essas coisas de gente que vive fora contando as moedas pra comprar uma garrafa de agua mineral. Sim, eu posso atualizar o album de fotos e a pagina, mas nao, eu nao posso ter isso como mais um dos meus compromissos.

Tenho saido mais do que posso, feito todas as coisas do mundo ao mesmo tempo mais do que eu preciso e aproveitado todas as oportunidades que aparecem (com excecao das de emprego que nao existem no momento). Minha agenda é dividida entre a parte de festas e a de coisas de alguem que trabalha, sendo que a segunda é quase que absolutamente vazia.

No entanto, aos poucos, as coisas comecam a acontecer. Daqui a pouco tenho duas entrevistas marcadas do outro lado da cidade e nao posso esquecer de, no caminho, passar em um salao e marcar um horario pra acabar com o desespero de quem nao pode sair de casa sem o boné embaixo do braco. Um dia eu volto com mais tempo, porque tenho vinte minutos sem respirar contando a partir de agora.