29 de março de 2005

Carta pra vó sim e daí

A idéia de morar um pouco melhor vem com a de não ter nenhuma puta na escada pedindo desculpas enquanto pica heroína e me vê passar. Vem com internet wireless, vista para os pontos turísticos da terra encantada e grandes planos de fazer com que todas as coisas incertas comecem a se tornar parte da minha realidade. Que é minha - não sua, não de alguém.

A idéia de morar um pouco melhor vem com a triste verdade de que pra ter um pouco mais de conforto é preciso gastar um pouco mais de dinheiro (ou, no meu caso, bem mais). É uma questão de escolher entre passar uns dias em Paris ou vários fazendo tudo o que eu, tecnicamente, poderia ter feito desde quando vim parar nesse lugar. Que é tanto, bastante e muito mais do que você pode imaginar.

E foi assim que fui construindo as paredes ao redor do castelo que queria montar só pra mim. Impedi que uns entrassem, abri as portas pra outros, fui reparando as bordas e fazendo coisas que nunca imaginei ser capaz. Como dizer não sem remorso e olhar pro umbigo sem levar em consideração o de quem estava ao meu redor. Ajeitar essa agonia que era a de eu estar sempre me preocupando com a panela do feijão que nunca terminava no meu prato.

Eu sei que pode ser feio e tenho certeza que soa egoísta pra quem lê, mas ninguém nunca olhou muito pra mim enquanto eu cuidava de terceiros. Então, pra explicar mais ou menos tudo o que andou acontecendo nos últimos meses, é isso que tenho a dizer. Que andei recuperando coisas perdidas, montando a minha vida e aprendendo que tirar o pó do tapete ajuda a manter a limpeza da faxina. Casa limpa e vida nova, é hora de correr atrás.

28 de março de 2005

Skype, a roda e o fogo

Eu sei bem quando vou ficar complicado e esquisito antes mesmo de começar um texto e isso faz com que eu fique parcialmente de fora da classificação dos retardados feita pela minha pessoa há alguns dias atrás. Mas, como isso é um blog e você podia estar lendo a Folha Online, acredito que posso começar a desenvolver as idéias que já perdi tentando explicar minha situação. Ao próximo parágrafo, então.

O que eu ia dizer é que o Skype é a melhor invenção depois da máquina de lavar. Um programa que imita o telefone e faz com que você, jovem mochileiro que dá a cara a bater e viaja o mundo, esteja em contato com papai e mamãe todos os dias. Mas eu preciso contar sobre a minha relação com o programa antes que, de fato, fossemos apresentados um para o outro.

Sabe quando alguma coisa muito nova aparece e todo mundo começa a adquirir e tentar fazer com que você faça o mesmo? É claro que você sabe. Foi assim com aquelas escovas de dente elétricas idiotas, todo mundo abriu uma conta no Orkut e hoje tem gente batendo aqui em casa todos os dias pra eu ter uma máquina fotográfica no celular. Então. Com o Skype foi assim também. Eu nunca vou ter um flash no meu telefone, mas tenho a impressão que abrir mão do ICQ e baixar o MSN pode, muitas vezes, ser até recompensador - se é que a palavra existe (mas eu falo censo ao invés de senso e se você quiser pode procurar os erros porque eu nunca sei quando por que é junto ou separado).

E aí eu baixei o Skype e falei com todas as pessoas que não falava e não via e não conversava há tempos. Criei brincando, botei um daqueles nomes ridículos de quem não ta ligando e agora sou conhecido como o idiota do nome esquisito que fala com os amigos no Skype e economiza no telefone (agora tenho um em casa, mas ainda preciso comprar cartão porque o Brasil é logo ali, no fim do mundo). E os problemas, é claro.

O primeiro é que eu precisava dividir minha nova experiência com meus irmãos de bem, mas sei que existem aqueles detestáveis super pertencentes a todos os grupos citados no texto anterior que vão procurar por mim desesperadamente no programa (e olha eu falando como um cara super popular e amado por quem não amo). A esses: por favor, não. Queria muito ter o direito de ter na lista quem eu quero e, por respeitar a minha decisão, obrigado.

O segundo, e acho que último porque esse programa é realmente muito genial, não existe. E chega dessa merda. Já estou falando como um daqueles viciados em rinha de galo que criam um mundo paralelo e não fazem sentido pra mais ninguém. Mas entrei na internet pra dizer que estou feliz com minha nova aquisição. Vim conhecer a máquina de lavar roupas na Europa (sinto muito em falar algo do nível, mas no Brasil lavava tudo no tanque de verdade) e agora mais essa descoberta. Os próximos ítens da minha lista são um iPod e um celular desses pretos que abrem e fecham. Sem câmera, sem qualidade de televisão, só um desses que não parecem um bip como o meu. Ao som de um pombo insuportável brincando com cinquenta amigos no telhado dou boa noite ao dia que acaba de amanhecer. Tchau.

26 de março de 2005

Alta voltagem

Gente esquisita a gente classifica em cadeias muito maiores que a que você costumava estudar quando pequeno. Começando do básico, o maluco que todo mundo entende louco é aquele que, em termos simples, se comporta de forma diferente em todos os lugares, não sabe fazer comentários que não quebrem o ritmo da conversa dos outros e chama atenção até quando quer passar desapercebido (que é, em si, um termo que gente doida gosta muito de usar).

Depois existem várias outras formas de ser um retardado. São graduações e situações extremas que fazem com que você perceba em alguém um anormal em potencial ou já bem em evidência. Eles estão em todos os lugares e freqüentam a mesma locadora de vídeo escolhendo sempre os mesmos que você, como eu, sabe bem quais são. Podem ser seus novos vizinhos ou colegas de trabalho, a síndica, você mesmo ou o chefe.

E, é claro, um bom louco passa a perna. Você conhece alguém disfarçado de agradável, abre a gaveta da conversa e descobre vinte minutos depois que a pessoa em questão é, na verdade, o novo problema da sua vida. Que fala cospindo ou gagueja enquanto faz gestos pra tentar se fazer entender. Pisca demais, sorri forçado e faz todas as coisas que você não gosta, juntas, compulsivamente.

Nessas horas, virar as costas e sair à francesa pode ser perigoso porque você nunca sabe do que uma pessoa como essa é capaz. Aí você sofre, tenta retribuir o afeto, sofre mais um pouco, e troca telefones, e e-mails e perde a linha. O fulano tem um senso de humor que faz qualquer normal sentir vontade física de chorar e tranca a respiração fazendo cara de paisagem.

Ele fede, e fala errado e o fim da história é que os finais são sempre diferentes. Você pode cruzar com dois na sessão de frios e passar sem arranhões ou casar com cinco no curto período de uma vida. Tudo depende de capacidade de percepção, velocidade na fuga e, é claro, muitíssima sorte. Daquelas que você quer, mas nunca vai ter.

24 de março de 2005

Puta-merda-que-agonia

Dá pra ver que o tempo passa quando seus amigos têm filhos, casam e começam a levar a vida que você nunca quis levar. Acho que sempre foi assim e sei muito que vai continuar sendo. Você não descobre um talento a tempo, esquece de aperfeiçoar ou desenvolver uma aptidão e, de uma hora pra outra, começa a fazer o que tá na mão.

Momento gostoso pra fechar os olhos e lembrar de todos na época da professora que casa com o jogador de futebol. Gente que sonha, brinca de carrinho e, aos poucos, perde o ritmo pra seguir a linha e acompanhar uma música que ninguém sabe ao certo qual é. Um dia, em algum ponto, todos dançam sem som algum pra depois passar a disfarçar. Gente vazia. Profissionais da enrolação.

É esquecer de ser feliz pra fazer concurso público sem lembrar que emprego em instituição governamental não dá tesão e é uma porcaria. Fico imaginando que tipo de pessoa nasce com talento pra ser analista jurídico/administrativo. Quatro mil reais na conta bancária e dois anos inteiros sem trabalhar a espera das eleições. Porque nada pra fazer e democracia são a chave do sucesso de qualquer um que não sabe que caminho seguir.

E chega. Minhas perguntas são muitas e sei que uma vida é pouco pra encontrar as respostas. Censo prático é a arma da sociedade e perder o ônibus é coisa de gente que retardou pra virar artista. Não sei o fim da história. Estou com a faca e penso em ficar assim um pouco mais. Na pressa, todo mundo faz o que pode. E, no queijo, todo mundo vai.

15 de março de 2005

Carga pesada

Um grande amigo e uma cagada são dois elementos fundamentais para construir uma grande história de desencontros. Você xinga, troca, engole a razão e dá impulso ao orgulho que faz com que a cagada fique ainda maior e tome proporções, às vezes, maiores do que você e sua ignorância, juntos, poderiam imaginar.

Você entende o problema, conhece a solução e não pode voltar atrás. Porque não dá e porque baixar a guarda quando um muro é construído ao seu redor soa muito mais que deprimente. Desfazer o nó depois de um tempo pode ser tarefa improvável, mas dar fim ao mistério e formatar as informações passadas há de ser bem menos complicado do que a teoria e a prática teimam em não aceitar.

Perdoar é feio, coisa de cristão, mas fazer de conta que nada aconteceu pode ser tão bonito quanto se nada tivesse de fato acontecido. É deixar de achar que você tem razão em tudo, bater palmas pra saudade e encher de beijos aquele que você, no fundo, queria muito poder ter de volta.

Ninguém é bom em dardo, acertar o alvo várias vezes e ganhar a corrida é coisa de cinema e errar pode ser o começo de um grande aprendizado. Escolher o melhor caminho de passar ou contornar a situação é simples e fácil de realizar, mas ter vontade de recuperar o que se perdeu é outra história. Bem extensa, trabalhosa e diferente.

Um amigo que você chama de conhecido é aquele que passa o cinzeiro, mas um amigo do caralho vai dar a carteira e fósforo quando você menos precisar. Um dia bom, sem nada pra fazer, fazendo com que o mundo ao meu redor gire ainda mais leve e devagar. O que, no meu caso, é de fazer chorar.

11 de março de 2005

Pra que meus botões não esqueçam jamais

Um dia você vai lá e descobre que, ao seu alcance, o mundo sempre esteve à sua disposição. Aquele habitado por pessoas que da noite pro dia fazem mais parte de você do que você mesmo. Gente que vem, vai, some e reaparece. Gente que vem de lá, sai daqui e, aos poucos, constrói uma história diferente a cada dia. Cidadoes do mundo. Habitantes de um mesmo planeta.

Aqui no outro lugar, cuidar e apostar em amizades é uma tarefa diária levada a sério. Não sei onde a rapidez e o exagero foram parar, mas acredito muito em meus olhos de fora. E hoje, mais do que nunca, faço com que eles vejam e analisem alma em período integral. Você não gosta de alguém por um motivo, apenas gosta. Não porque convém, mas porque todos querem que seja de verdade.

Um grande amigo começa em qualquer lugar desse outro lugar. Você encontra um dia, sai no outro, dança uma década e faz marcas visíveis aos olhos de quem treina pra acompanhar. Quando amizade é respeito ao que se é. E respeito é não uma regra, mas maneira de ser respeitado. Pelo prazer de uma presença, boa vontade e vontade de dividir. Não uma experiência, mas a vida.

É fácil pensar em uma sociedade multicultural com os olhos de cá. Eu vivo na cultura, na contra-cultura e cruzo barreiras todos os dias. Eu vivo na cidade das pessoas que falam sozinhas, das pessoas que não falam e das que falam pro mundo. Minha porta tem uma puta inglesa usando heroína, meu porteiro é muçulmano e a Cleópatra mora a vinte minutos de mim. Todos vivemos em paz. Eu moro no mundo dos cães que não mordem e na vida de pessoas de todos os planos e planetas.

Aqui você aprende que deixar um amigo é não perder. Que deixar é só deixar. E mandar é acreditar que, de certa forma, foi melhor assim. Porque, de repente, nada pode ser ruim. E se for, tudo pode ser muito melhor. Agora é um momento, mas já é outro agora. Reconhecer é entender que todos somos um. E que amar, é deixar partir.

Das pessoas que entraram, todas continuam dentro. Espalhadas, existindo em outros mundos e movimentando o que todos assistem na televisão. Trocar é a palavra chave. Compartilhar é essencial. E ganhar sem tirar, difícil de perder.

Escrevo pra não perder o brilho e jamais esquecer que em um canto qualquer do planeta as mesmas condições indicam o mesmo caminho. Perder-se em si mesmo é o medo do medo. De esquecer. Ou de saber que saber da vida é entenda-la curta. Que os anos são seqüências de meses e semanas. E que quanto mais intenso o processo, menos doloroso será o final. A hora de acabar que chega sem perceber. Bem devagar.

Por isso eu tento. Sabendo que todos os dias são depois de ontem e antes de amanhã. Que os bons momentos acontecem a todos os momentos. E que ao anoitecer eu já sou melhor do que fui ontem e pior do que virei a ser. Que a chama seja eterna enquanto dure. E que dure até chegar ao fim.