30 de abril de 2005



Ouvi dizer que umas músicas famosas falam de Paris na primavera e acordei achando que chegou a hora de praticar meu vasto vocabulário de duas palavras. Nunca soube de estação nenhuma e não conheço as clássicas que cantam achando que você é obrigado a conhecer, mas sempre tive vontade de tomar café aonde todo mundo diz ser legal sem nunca ter estado pra falar. Aqui eu já fiz, mas inglês com chá não é o mesmo que francês fedido com jornal na mão ? embora eu também nunca tenha estado pra falar.

Quando saí da casa dos meus pais, ficava passeando nas ruas da terra prometida e reparando nas semelhanças com a Europa sem nunca ter vindo pra cá. Depois de vir, percebi que as áreas mais nobres de lá são mais bonitas mesmo com aquelas mesas de plástico das empresas de cerveja no meio da rua. Uma gente rica que depois de gastar o circuito padaria-cabeleireiro vai ao centro beber café de óculos escuros. Muito mais legal que por aqui, por exemplo.

De volta à França, já me disseram que é cidade pra casal apaixonado (o que, nesse caso, é mais clássico que as clássicas que não conheço). Disseram também que as pessoas lêem livros de braços dados nos parques e que o mel escorre por todos os lugares mesmo que você esteja em busca de algo azedo que fede. O importante é que já ouvi ser bom, ruim, mas péssimo jamais.

Dá até vontade de ser assim pra sempre. Acordo achando, compro as passagens, roubo um guia no aeroporto e vôo pra bem longe da polícia local. Depois de rodar um pouco você acaba descobrindo que os melhores guias estão disponíveis sem detectores e aos montes por todas as lojas à sua disposição. Pegar trem, tomar café da manhã com ovos e queijos na sala de embarque e voar de barriga cheia com gente alaranjada vendendo comida. Meu vício.

Então saio de trem e atravesso o oceano. Assim, de trem, no oceano. Eu sei que é túnel preto e moderno e preto de novo, mas até hoje não consigo parar de imaginar o Nemo e a Pequena Sereia vistos de dentro da cabine. Como pedi muitas vezes por janela na hora de comprar as passagens, já sei que vou acabar mesmo é na porra do corredor como sempre acontece. E deixa, porque vai ser tudo preto e moderno e preto de novo lá dentro.

Agora que já resolvi os maiores problemas de uma viagem dessas, vou mandar um e-mail pro prefeito avisando que chego nas próximas semanas porque visita avisa antes de desembarcar. Mal vejo a hora de sentar no parque com um livro gringo, olhar pro rio e encher a cara desses salgados doces com chocolate por todos os lados.

27 de abril de 2005

De quem tem

Não sei se já falei de postura por aqui, mas minha teoria diz que o que você é hoje vai continuar sendo pra sempre por mais que mude de opinião. Porque no fim das contas o que vale mesmo é a forma com que você soluciona problemas e faz com que os outros ao seu redor reconheçam sua maneira característica de lidar com as mais diversas situações.

Postura não é livro de etiqueta, mas atitude. Você pode comprar uns livros e mostrar ao bando de idiotas que colocam guardanapo no colo o quão informado está, mas botar os pés na mesa e envolver os convidados você faz com muita autenticidade e improviso. Por tanto, se você não tem essência ou postura ou atitude, trabalha pros que têm e estão lá prontos pra serem admirados nas mais constrangedoras cenas.

Pensa aí em alguém que tenta muito e não consegue ser ouvido. Agora olha pro lado e vai encontrar aquele outro que não fala muito, mas merece atenção sempre que abre a boca pra falar sem medo. Essa é a diferença. Tem gente que nasce e desaparece antes de morrer e outros que nunca param de brilhar. Não é sorte, nem dinheiro, mas uma mistura de todas as coisas que você pode ou não ter sensibilidade para desenvolver com o tempo. É postura.

Depois de entender e ficar viciado em analisar a postura alheia, vira mania. Você senta, conversa, troca meia dúzia de palavras e já sabe exatamente o que esperar. Aí fica afiado, olha pro lado e já sabe quem são todas as pessoas ao seu redor. Sempre tem uns que conseguem enganar no primeiro tempo, mas esse tipo de gente você descobre pertencer a um terceiro nível de pessoas que respondem amarelo queimado pra cor predileta.

O prêmio vem quando na pior das hipóteses você sabe se pode confiar, respeitar, ouvir e, dessa maneira, cria-se uma rede de convenções que existe sem ninguém perceber. Alguns praticam arduamente como eu, outros apenas se deixam levar impondo ou não uma postura positiva - seja lá o que eu queira ter dito com isso.

Tem quem vai ao mercado e fica amigo do caixa e quem ganha desconto em táxi por ser primo da tia que mora no interior do Paraná. Uns que vão ao campo de futebol e fazem negócios e outros que só vão pra arranjar briga com o filho da puta que torce pro outro time. A graça é que dependendo do motivo da porrada e da postura adotada, esses colocam no chinelo o idiota que foi lá e saiu com um contrato no bolso. O título do campeonato vem quando depois de muito observar você vira juiz do próprio jogo e passa a não ter dúvidas quanto ao seu próprio veredito. Ou veredicto. Ou, enfim, era isso.

15 de abril de 2005

A porra da Bjork

Você é um dos meninos de treze anos que conta os meses pra fazer catorze e acha os caras do segundo grau muito adultos e inveja a vida independente que eles levam longe de seus pais. Aí você chega no segundo grau e descobre que era tudo mentira, que os grandes garotos eram um bando de idiotas que enganavam você e que os seus pais continuam dentro do telefone celular e por todos os cantos da casa.

Sai da cidade, vai morar em um lugar longe, mas os problemas continuam existindo e aumentando e você sonha com outras coisas que descobre não tão legais ao serem conquistadas. Tudo é nada demais, basta conseguir. Você vai lá, faz, os outros acham o máximo e você se contenta com o fato de parecer genial pra uma meia dúzia de não tão geniais assim.

No entanto, como tudo tem um porém, o bom de parecer ideal é ouvir coisas que fazem o seu dia parecer do caralho de verdade. Depois de conhecer a Bjork e todos os convidados da Bjork em uma festa produzida e coordenada pelas pessoas da Bjork, o ponto alto é chegar em casa e ler coisas de um passado não muito distante. Abrir a caixa de entrada e descobrir que você é velho o suficiente pra sentar com amigos e relembrar coisas de décadas atrás.

É doce pensar que o passado foi logo ali. Que você fez merda e conheceu pessoas e dividiu experiências e que, mesmo muito distante de tudo, é reconhecido através de meia dúzia de palavras que fazem o seu dia cansativo e chato e cheio de Bjork pra todos os lados valerem a pena. Tudo porque recebi um e-mail e guardei a mensagem pra sempre comigo. Um doce de pessoa daquelas que você guarda e repeita e admira e coloca na agenda todos os anos pra lembrar o aniversário mesmo sem poder dizer que lembrou.

Uma dessas pessoas que olha pra você e vê que as coisas mudaram porque já esteve lá. Que diz que se orgulha pelo fato de você ter conquistado o mundo ou, ainda melhor, de ter abrido asas pra voar falando isso de uma forma tão carinhosa que você acha que de fato abriu e vôou. O que eles não sabem é que nada é tão demais quanto parece. Que a Bjork é estranha e que você responde às perguntas dela querendo filmar pra mostrar, mas querendo correr e ir pra casa descansar ao mesmo tempo. Correr de cansaço e dor nas costas. Porque, mais uma vez, nada é tão demais quanto parece.

Quanto mais você cresce, mais você tem vontade de, às vezes, diminuir. Quanto mais você se acha, mais tem vontade de se confundir. Arriscar é escolher ir de encontro ao medo. E como o mundo é feito de escolhas, você tem o que merece. Continuo preferindo escolher alto. Às vezes mais alto do que posso alcançar, mas sempre alto o suficiente pra não voltar ao mesmo lugar.

No fim do dia de hoje, a Bjork e meu mundo encantado se despedem pro de amanhã. Genial de cu é rola. Sempre quis usar essa expressão em algum lugar e agora que usei vou dormir pra deixar de ficar fazendo pouco sentido aos que olham de longe achando tudo muito legal. Já gosto de ter meus pais morando em meu celular, sei que aqui não é tão grande assim e que a Bjork é só aquela lá. Próxima etapa, por favor.

13 de abril de 2005

8 de abril de 2005

Eles querem engolir você

Não é aversão. É medo. Sempre que eu passo a usar uma dessas tecnologias em que as coisas aparecem do nada na sua frente, tudo dá errado. As máquinas vazam, explodem e pegam fogo quando em minhas mãos. Aí todo mundo tem que se encontrar na esquina e a culpa sempre cai sobre a minha pessoa que, no fundo, ta só tentando se encaixar.

Comprar pela internet é a mesma coisa. A porra da Amazon continua achando que eu não sei lidar com meu cartão de crédito pra exercitar o serviço de atendimento ao consumidor. Eu não sei mesmo, mas isso não justifica o fato de eles nunca enviarem nada pro meu endereço. Comprei de verdade como já comprei tantas outras vezes. Daquelas compras que você puxa o extrato, vê que o dinheiro saiu e fica esperando quase seis meses por meia dúzia de livros que eu sei que nunca vão chegar.

Exagero, o caralho. São seis meses (contando de um a seis) desde que comprei os primeiros produtos que não chegaram. Livros grandes que queria ter em casa e nunca vou poder ter. Já reclamei, xinguei, mandei mensagens com código de pedido e coisas que jamais faria se não estivessem brincando com meu dinheiro. E fui tão otário que já fiz outras compras, brindando às lagrimas o dia em que as coisas começarão a mudar.

É claro que seria bem mais fácil abrir uma loja no centro da cidade e oferecer produtos sem links de promoções que vendem pacotes de 20 discos desconhecidos a preço de banana. Por isso é que eu xingo quando vejo japonês batendo foto de ponto turístico com celular. Porque as pessoas estão se perdendo dentro de seus próprios aparelhos. E porque pra comprar camiseta tem que botar a mão pra ver se a malha é boa, porra.

5 de abril de 2005

Foco é pra quem não é interessante.

4 de abril de 2005

Asas

Pra mim, se dar conta que seu cérebro saiu de férias por conta própria é a coisa mais legal que pode acontecer. Você até dá uma força e leva ao aeroporto, mas a partir de lá ele voa sozinho e sem fazer dramas na hora de dar tchau. É quando, do nada, ele para de fazer perguntas e passa a dar coordenadas com extrema perfeição. Sem pressa, sem correr, bem devagar.

Eu sempre achei que ver um cavalo pastando na sala de estar podia ser genial. Mesmo antes de ter visto um, já achava e tudo. Porque música até inspira, mas tesão mesmo é saber que ver o mundo feito de plástico em tons pastéis é a liberdade na forma mais doce e sútil que você pode tentar encontrar. Você escolhe o hotel e organiza toda a viagem, mas quem sai pra dançar e enche a cara no destino é o seu amigo cérebro. Você, jamais.

Tudo pode ser tão mágico e bonito que dá prazer só de pensar. E prazer dos bons. Prazer daqueles que você lembra, e fica arrepiado, e conta pra todo mundo rindo pra caralho, e não consegue mais parar. Tudo, enfim, depende da sua capacidade criativa e vontade de vencer a si mesmo. Do seu poder de ir além e ter coragem de pensar. Meios pra isso, quem decide é você.

1 de abril de 2005

Só pra constar

Sempre achei que deletar post é não deixar que os outros percebam o quão idiota você mesmo se achou. Por isso um especial pra contar e comemorar meu primeiro apagado daqui. Ontem vim chateado só pra falar de um idiota cheio da grana que fez cena por causa de um polish martini com gelo. Aí, no alto da minha frustração, vim e dei o troco na mesma moeda como se ele merecesse estragar o meu dia e ganhar um texto legal de presente por isso. E já passou. Daqui a pouco, se der, eu volto. Senão, deixa pra lá. Meus dedos já estão, faz tempo, com vontade de dormir.