
Ouvi dizer que umas músicas famosas falam de Paris na primavera e acordei achando que chegou a hora de praticar meu vasto vocabulário de duas palavras. Nunca soube de estação nenhuma e não conheço as clássicas que cantam achando que você é obrigado a conhecer, mas sempre tive vontade de tomar café aonde todo mundo diz ser legal sem nunca ter estado pra falar. Aqui eu já fiz, mas inglês com chá não é o mesmo que francês fedido com jornal na mão ? embora eu também nunca tenha estado pra falar.
Quando saí da casa dos meus pais, ficava passeando nas ruas da terra prometida e reparando nas semelhanças com a Europa sem nunca ter vindo pra cá. Depois de vir, percebi que as áreas mais nobres de lá são mais bonitas mesmo com aquelas mesas de plástico das empresas de cerveja no meio da rua. Uma gente rica que depois de gastar o circuito padaria-cabeleireiro vai ao centro beber café de óculos escuros. Muito mais legal que por aqui, por exemplo.
De volta à França, já me disseram que é cidade pra casal apaixonado (o que, nesse caso, é mais clássico que as clássicas que não conheço). Disseram também que as pessoas lêem livros de braços dados nos parques e que o mel escorre por todos os lugares mesmo que você esteja em busca de algo azedo que fede. O importante é que já ouvi ser bom, ruim, mas péssimo jamais.
Dá até vontade de ser assim pra sempre. Acordo achando, compro as passagens, roubo um guia no aeroporto e vôo pra bem longe da polícia local. Depois de rodar um pouco você acaba descobrindo que os melhores guias estão disponíveis sem detectores e aos montes por todas as lojas à sua disposição. Pegar trem, tomar café da manhã com ovos e queijos na sala de embarque e voar de barriga cheia com gente alaranjada vendendo comida. Meu vício.
Então saio de trem e atravesso o oceano. Assim, de trem, no oceano. Eu sei que é túnel preto e moderno e preto de novo, mas até hoje não consigo parar de imaginar o Nemo e a Pequena Sereia vistos de dentro da cabine. Como pedi muitas vezes por janela na hora de comprar as passagens, já sei que vou acabar mesmo é na porra do corredor como sempre acontece. E deixa, porque vai ser tudo preto e moderno e preto de novo lá dentro.
Agora que já resolvi os maiores problemas de uma viagem dessas, vou mandar um e-mail pro prefeito avisando que chego nas próximas semanas porque visita avisa antes de desembarcar. Mal vejo a hora de sentar no parque com um livro gringo, olhar pro rio e encher a cara desses salgados doces com chocolate por todos os lados.
