29 de maio de 2005

De escrever já cansei

Depois de um inverno que tira a sensibilidade da ponta do nariz, alguma coisa muito séria muda com o verão. Eu, que nunca gostei muito desse negócio de ficar no sol, virei um desses que levam sorvete e cerveja pra passar o dia no parque. É verdade que eu tenho um propósito (perder o verde-sapo que ficou), mas vejo meu pai no espelho todas as vezes que me preparo pra fazer esses churrascos sem carne daqui. Logo eu, o rei do pode-ir-que-eu-fico, saindo de casa com caixa térmica e bola de futebol.

Aí é aquela coisa, toda nova experiência é uma descoberta diferente. Você fica sabendo que tem gente que vai pra lá todos os dias, entra em contato com o mundo paralelo dos saudáveis do campo e se pega analisando umas flores e uns patos e umas árvores diferentes. Até parece um lugar no meio do nada, se não fossem os aviões e os carros e as pessoas que trazem na testa o nome da cidade grande.

Eu não sou um esportista, vai. Já fui e to bem longe disso. Tão longe que não posso e nem consigo verbalizar o quanto. A maior caminhada que faço é a de casa ao ponto do ônibus, ou a da balada pro táxi, ou a de uma ponta à outra do bar. Aqui em casa todo mundo caiu no mundo do exercício físico. Eles terminam o dia na academia, compram luvas pela internet e ficam falando coisas de gente que calcula massa corporal. Eles no mundo deles, eu no meu sofá. Faz mais sentido assim.

23 de maio de 2005

Daqui, de Paris

Eu não sabia que dava pra desejar um bom dia até o fim do dia, mas já achei que faz sentido ficar desejando isso o tempo todo já que o ciclo não termina jamais. Saí com medo das pessoas que vivem nesse lugar quando cheguei, mas acabei descobrindo que as pessoas de Paris não são tão ruins assim.

Cheguei e já sou vermelho do sol. Depois de um ano inteiro mantendo a minha aparência verde de sapo, comprei três bolas de sorvete em cores diferentes e fui sentar nas margens do rio pra tirar o atraso. Achei que era mentira, mas todo mundo lê abraçado de verdade. Não sei como conseguem, mas deve fazer parte do sangue de barata dessa raça estranha do velho mundo.

Cantei uma música brasileira qualquer com a bêbada do crepe que, por aqui, é só mais uma apaixonada pelo Brasil. Imagina eu, que não sei a letra do pau no gato, cantando uma música brasileira com a bêbada do crepe. Deve ter sido lindo de assistir. De qualquer forma, devem gostar daí como eu gosto de Ibiza sem nunca ter botado os pés naquele lugar. No fim das contas todo mundo ama uns lugares assim de longe. Pode até virar mania, mas depois passa e todo mundo volta a achar que faz fronteira com Cuba na América Central.

Comi muita comida de passarinho também. A França é cheia daqueles pratos de gourmet em que o tomate de Dubai combina com as três folhas de alface da Judéia. Pedi um prato caro achando que ia deixar comida no prato e quase chorei quando vi aquele pedaço pequeno de carne com uns pingos de cores diferentes espalhados pelo prato. Não dá pra reclamar, porque torcer o nariz é arrumar briga. Mas dá pra fugir e comer no Mc Donalds, porque no fim todo mundo vota em Big Mac com batatas fritas.

E foi mais ou menos assim que me apaixonei por Paris. Já percebendo os pontos ruins pra não me decepcionar. Já superando as coisas difíceis pra sentar e beber e decidir que ano que vem estou lá. Ainda não sei como, mas sei quando e por quanto tempo. Quem aguenta o tranco de Londres, se vira em qualquer lugar. As sacadas iguais das pessoas das bicicletas velhas que me esperem. Eu vim, mas eu volto.

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E já mudei de idéia. Depois de mais algumas horas em Paris já briguei com gente suficiente pra sair xingando as pessoas desse lugar. Gente fina o caralho. As pessoas daqui tratam mal quem não fala francês, falam absurdos nessa língua maldita com todos os que tentam se comunicar e mostram ao mundo inteiro o quão frustrados são por terem saído de moda.

Tudo é muito absurdamente bonito, é verdade. Bonito de abrir os olhos e ver grandes paisagens o tempo inteiro. Bonito de sentar pra brindar à vida e ficar fazendo nada até cansar e começar a agradecer o bom momento. Desses que a gente acha que devem ser filmados pra recordar nos dias em que você acorda achando tudo um saco. O sol bate nas árvores, que bate nas ruas abertas, que bate na alma.

No entanto, as pessoas fedem. As pessoas, as ruas, e os restaurantes. É claro que o visual compensa, mas você sempre imagina que do nada vai aparecer um pentelho na sua comida. As mulheres são bem cuidadas, mas por trás do marrom da maquiagem tem uma casca preta que não sai mais. E apesar de muito elegantes em termos de postura, essa gente é jeca no limite do insustentável. Semana da moda? A gente tem o Carnaval.

Eles usam umas coisas que usavam fácil há décadas atrás. Uns cintos brancos descascados, uns brincos sem as pedras coloridas e esses óculos que já perderam a cor do aro prestes a desmanchar. Mas, segundo eles mesmos, isso faz parte do privilégio de ser francês. E falar francês. E fazer coisas de francês. Quando eu cansar da civilização e for morar na África central, quem sabe. Ano que vem eu to lá.

13 de maio de 2005

Balanço, extrato e saldo final

Uma vez eu era uma criança que via papai e mamãe guardando dinheiro e acreditava muito que um dia poderia fazer a mesma coisa. Hoje em dia eu tenho umas coisas penduradas no quarto pra pagar, umas viagens a serem feitas pra gastar e um bolo de roupa suja do lado da cama pra lavar. Continuo conhecendo gente que guarda, mas sei que reservo hotéis no mesmo instante que vejo dinheiro sobrar sem explicação.

Nunca passei nenhum grande aperto por causa disso, mas sei que posso precisar. É aquela coisa. Se alguém precisar de hospital urgente, morre pobre em casa por causa de Paris. Meus amigos guardam muito, economizam cada sanduíche e deixam de comer frango porque a salada é mais barata. Eu sempre vou de carne e molho de tomate, e coquetéis e sambuca preta. Não uma, mas dez. Pra mim, pros amigos e pro gerente do banco que olha torto quando vou reclamar de umas saídas do cartão que fico, depois, sem condições de lembrar que foram feitas por mim mesmo.

Objetivos e metas que até tenho, mas esqueço de cumprir quando troco os ítens da agenda de uma semana pra outra negociando a mudança comigo mesmo todos os dias. É acordar, achar que está tudo bem e fazer de conta que nada precisa de fato acontecer. Hoje é dia de fazer de tudo um pouco. Aí vou tomar banho, procurar uma roupa suja menos manchada no bolo amassado das que fedem e deixar esse negócio de guardar grana pro segundo semestre. Numa dessas dá certo. Eu, o problema de mim mesmo.

5 de maio de 2005

Os outros e seus umbigos

Mais um dia na cidade que começa hoje a mudar de nome. Nunca achei que fosse possível, mas a maioria das pessoas falam com elas mesmas enquanto caminham nas ruas. Não só mexem a boca como fazem imposição de voz e caretas.

Se fazem isso por solidão ou porque todo mundo faz, eu não sei. Mas é esquisito ir passando por um bando de gente que vai trocando idéia, contando piada e rindo de si mesmo. Dá pra assustar, porque já cansei de pedir pra repetir achando que falavam comigo e as reações são as mais estranhas possíveis.

Têm os que assumem que falam sozinhos tirando sarro de si mesmo, os que ficam com muita vergonha dizendo que nada aconteceu e os que brigam ofendidos achando revoltante o fato de eu ter me metido no assunto deles com eles mesmos. No fim das contas, todos irritam e se irritam de formas diferentes. Vá ao parque e adote um amigo assim. Devem ter tanto pra falar que ficam transbordando por aí.

3 de maio de 2005

Volta pra jaula

Não aguento mais essa gente burra que não sabe a diferença entre uma pentelha em crise e Mário Quintana. Nunca tive interesse em estudar literatura, mas o básico é sempre bom saber. Você pode não gostar de pistache, mas não custa fazer um esforço e provar o sorvete pra saber se o gosto é o mesmo ou não. O mínimo é descobrir a cor pra não dizer que detesta morango sem apontar pro balde de baunilha. Esse é o elemento básico da enrolação. Você dá uma dentro correndo pelas bordas, mas das bordas não cai jamais.

Aí eu sou obrigado a abrir umas páginas de gente imbecil o suficiente pra publicar texto de Shakespeare falando que "namorado de verdade leva a menina pro show do Milton Nascimento" - nesses termos, nem eu consigo acreditar. Pára tudo, vamos respeitar. Não sei se é só eu, mas tenho vontade de bater nessa raça que não sabe distinguir Oscar Wilde de Machado de Assis. Pobres escritores mortos que viram tópico de vestibular pra cair nas garras de todo jovem idiota e maior de idade da nossa nação.

Eu nunca estudei literatura nem li livros obrigatórios, mas a gente sabe pela história dessas pessoas que Shakespeare não conheceu sequer Carmen Miranda. Paulo Coelho é legal na prateleira, mas vai na livraria e dá uma olhada nos desenhos da capa dos grandes clássicos pra não ficar publicando texto de jovial falando que é Clarice Lispector ou atolando a caixa de entrada dos outros com poemas da Pedrinha de Piracicaba.

Se depois de toda a pesquisa você ainda achar tudo muito chato e cansativo, volta pra internet sabendo que ao menos tentou. Vai lá ler Marta Medeiros pra entender que ela, e não Bukowski, escreve sobre os conflitos que vocês gostam de mandar pro namorado. Bota água no vaso, compra uma bicicleta, mas cuida pra não se perder tanto assim. Eu sei que todo mundo gosta de dizer que lê pra caralho, mas começa com Maurício de Souza pra depois ousar com todos esses velhinhos que um dia já fizeram em algumas horas algo muito mais legal do que você vai fazer ao longo da vida.