Eu não sei mais escrever, tudo é um lixo e com o tempo as coisas vão ficando pior. O meu desejo de botar tudo pra fora, no entanto, continua aqui e é por ele que continuo a falar. Sou um problema no volante, mas não deixo de dirigir jamais. Hoje entrei pra dizer que sou a pessoa mais feliz do mundo. Pra contar que estou bem. Pra falar que de tudo o que aconteceu, o melhor foi o que ainda está por vir. Sou eu, aos poucos, colhendo os frutos de acreditar sempre e não desistir jamais.
Eu sei que soa clichê pra caralho. Sempre detestei essa gente medíocre que vai às prateleiras pra ensinar aos outros sem saber administrar sequer o próprio rabo. Limitar, no entanto, não é uma possibilidade. E em termos de entender de si mesmo eu poderia escrever a porra de uma enciclopédia porque a minha luta diária faz com que eu esteja em contato constante e direto comigo mesmo.
Estou indo ao Brasil por um mês depois de muito tempo na Europa. Um tempo maior do que eu esperava passar. Uma fase que eu achava ser mais uma das que precisavam ser vividas. Aquela que já passou dando espaço pra outra que acaba de começar. O que eu não sabia é que a uma certa altura seus instintos pegam você pelo braço, esfregam seu nariz no chão e mostram o lugar sem possibilidade de escolha. É animal, claro que sim. Mas faz sentido pra caralho também. Faz parte da vontade de sobreviver. É peitar, encarar e tornar possível.
Espelho. Dá de ver, tá lá. Eu sei que o tempo passou, comparo minhas fotos. No meu rosto e olhar, marcas de tudo e todos que por mim passaram nos últimos tempos, o tempo todo pra ser honesto. De situações difíceis e realizações bem sucedidas. Brigas e mal entendidos. Paixões, carinhos e orgasmos. Uma olhada pra trás e constato que vivo de intensidade. Tudo ao mesmo tempo agora. Sempre buscando mais, tentando entender, pensando, apostando, criando. Mais que atitude, um vício.
Eu sou a pessoa mais feliz do mundo, sim. Porque estou em contato com o real, prestando atenção na aula que é dada todos os dias lá fora sem que muitos percebam. Anotando, tendo cuidado ao assimilar. O bando diz que é fase de experimentar, descobrir, aperfeiçoar. Mas no fim das contas, o bando é só um bando. Eu, do fundo da alma, invisto por saber que essa mesma intensidade pode ser vivida aos quinze, trinta e cinquenta. Comodidade e medo são evitáveis. Instabilidade é força, instrumento de renovação.
Não pretendo mudar. Essa é uma declaração oficial. Hoje, com vinte anos, sei o que quero e sou a pessoa mais forte que conheço. Aos que se importam, estou bem. Sou rico, tenho luz própria, brilho por aí. Assim encerro minha última semana londrina do ano. Saindo do frio pra ver no que dá. Sofrer o choque e sentir as reações. Comer o mesmo prato com temperos diferentes. Tão marcante quanto trocar de ônibus ou pedir uma pizza podem ser eventualmente. Ir e voltar. Estar. Fazer. Acontecer. Viver.
Seja feliz você também.
2006.
4 de dezembro de 2005
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