30 de novembro de 2007

Simetria

Ok. Eu não lembro como ou onde isso começou, e não sei dizer se sempre tive tendências claras e sintomas ou não. Talvez tenha ficado pior com o tempo, mas pode ser também que sempre tenha sido ruim assim. Quem já assistiu ao filme Melhor Impossível, com Jack Nicholson, sabe o que é transtorno obsessivo compulsivo. Eu não tenho, mas quase.

Todos os objetos que fazem parte da minha vida precisam obedecer a um sistema de ordem simétrico criado e desenvolvido por este que vos fala. Livros, todos expostos em escala de tamanho - por título só em casos graves como misturar guia turístico com arte ou fotografia. Meus remédios têm seu devido lugar, alinhados e sem um espaço não-simétrico em branco dentro da caixa.

Para decidir sobre a disposição dos móveis da minha casa nova, levei mais de uma semana. Não porque não sabia como os queria posicionados, mas porque precisava encontrar o sistema simétrico perfeito que satisfizesse por completo a minha ânsia por ter todas as coisas distribuídas de acordo com aquilo que, digamos, soe bem aos meus olhos. Enquanto meus olhos não topam, um sentimento de tarefa inacabada toma conta de mim.

Minha mochila é, como meu quarto, um brinco. Nada fora do lugar, por mais que esteja em constante movimento ou em contato com fatores externos como pessoas não-simétricas e imprevistos do cotidiano. No entanto, admito já ter chego a lugares muito mais atrasado do que o previsto por ter que arrumar rapidamente a casa antes de sair. A cama, por exemplo, está sempre arrumada com travesseiros dispostos de forma que os brancos de dormir fiquem por baixo dos estampados.

Na mesinha de trabalho, uma gaveta fechada está sempre a disposição dos que não querem seguir as leis da minha selva. Papéis, revistas e jornais, sempre no lixo após consumidos. Quando chego de madrugada, bêbado ou muito cansado, dou no mínimo uma dobrada rápida na calça porque roupas espalhadas no chão atrapalham o meu sono a ponto de as vezes não conseguir dormir. O que é sujo, no saco do que espera para ser lavado. E os limpos, de volta pra arara. Sinal claro de que a bagunça também tem um sistema simétrico a ser seguido.

O quesito sujeira não me atrapalha desde que o que estiver sujo também esteja simetricamente organizado. Louça na pia e banheiro sujo costumavam ser sinônimo de crise emocional no passado, mas hoje sobrevivo se estiverem existindo bem longe dos meus olhos. Se não vejo, o coração não sente. Quem vive em contato direto comigo sabe, por tanto, que uma medida eficiente de curto prazo é esconder tudo embaixo da cama ou ter sempre uma gaveta pronta para salvar o dia.

Álbuns, organizados. Recordações e lembranças de viagens, em álbuns. Contas, separadas em uma pasta. Todos os recibos guardados para a contabilidade controlada por uma tabela do Excel. CDs e DVDs empilhados com precisão. Um DVD dois dedos para a esquerda ou visivelmente fora da fila podem destruir a minha tranquilidade. Não é algo que todos os meus amigos percebam, e não atrapalha a ponto de eu sair na rua querendo pendurar as folhas de volta nas árvores. Mas eu só não sou caso de internação porque sei fingir ser normal. Como você e todos nós.

Barda. A barda é um solução prática para problemas pequenos do dia a dia, geralmente aplicada em caráter repetitivo e comumente confundida com a palavra mania. Viver comigo não é das coisas mais simples, mas eu sei recompensar de outras formas. Com a experiência de viver em comunidade, descobre-se a importância de respeitar a barda alheia a fim de ter a sua respeitada. Ninguém mexe no meu queijo e eu não mexo no queijo de ninguém. Tenha um fim de semana bem simétrico e organizado você também.

29 de novembro de 2007

10th German Film Festival



Entre os dias 23 e 29 de Novembro, o cinema Curzon de Shaftsbury Avenue está sediando a décima edição do Festival de Cinema Alemão em Londres. Cerca de vinte filmes fazem parte da grade de programação do evento que em 2007 tem Four Minutes como atração principal.

É claro que você pode clicar no link e descobrir por você mesmo, mas para resumir o filme se passa em um presídio feminino alemão da década de 80. Uma professora de piano descobre o talento de uma assassina rebelde e decide investir em sua carreira musical inscrevendo-a em concursos e protegendo-a de seu instinto de auto-destruição.

O diretor Chris Kraus e a atriz principal Hannah Herzsprung estarão presentes na exibição do filme, com direito a um curto debate após o término. No entanto, até lá, muita água deve correr. Estou de saída em direção a biblioteca da faculdade aonde passarei o dia escrevendo sobre Costumer Relationship Marketing no novo milênio. Alguém afim de contribuir?

28 de novembro de 2007

Meu mundo acadêmico Real

Tive e estou tendo dificuldade pra me adaptar ao sistema de ensino da Inglaterra. No Brasil eu tava acostumado com o ritmo relativamente tranquilo da vida acadêmica da PUC, onde matéria dada era matéria tomada. Aqui, tive e continuo tendo que correr atrás de absolutamente tudo já que as leituras recomendadas sozinhas tomam grande parte do meu tempo. Vivo em função de pesquisar novos exemplos, imprimir artigos extras e responder a perguntas enviadas por email.

Não basta saber o que o professor ensina em classe. A chave está em várias das centenas de páginas que embasam a teoria do assunto em questão todos os dias. Leituras complementares são chamadas de recomendadas por pura força de expressão. É deixar de seguir o recomendado por um dia e você já ficou pra atrás. Colocando minha vida na balança fico tentando imaginar como alguns amigos que tenho puderam trabalhar e estudar períodos integrais dividindo-se entre livros e atividades pesadas como a de fazer coquetéis atrás de um bar.

Algo me diz que não faziam nada muito bem e, talvez por isso, continuem até hoje dividindo seus tempos entre o que gostariam de ser e o que foram obrigados a fazer para sobreviver. Uma dura realidade, fruto da falta de dedicação ou planejamento - até porque quem tem a intenção de trabalhar pode perfeitamente fazer a matrícula em um curso part-time que é flexível e bate com horários normais de trabalho.

Agora uma pausa rápida pra dormir, até porque já arranjei briga em casa por estar indo dormir mais tarde do que o combinado. Amanhã vou a estréia do principal filme alemão do German Film Festival desse ano, mas sobre isso converso com vocês amanhã. Finalmente tenho acentos e ninguém mais precisa reclamar do meu português. A gramática já foi bem melhor, mas dá pro gasto. Boa noite.

Alguém encontrou o blog pelo Google usando o termo Sambuca Preta. Viva o bom gosto.

27 de novembro de 2007

Gente que faz

Fico feliz quando vejo que meus amigos deram certo, estão progredindo e alcançando seus objetivos. Tenho um complexo bem grande de ter amigos fracassados, porque lá em Barbacena o sol não aparece para todos sempre. Colegas publicitários que não trabalham com publicidade, amigos que acabam na empresa dos pais - enfim, poucos com coragem e determinação para alçar um vôo bem sucedido.

Ontem fui jantar com meu amigo Saeed Farouki. Moramos juntos em Angel e Newington Green há cerca de dois anos atrás quando ele ainda se aventurava por caminhos incertos, tentando tudo ao mesmo tempo e jogando com todas as armas para conseguir viver de música ou cinema. Abriu uma produtora com um amigo irlandês e se deu bem. Ontem passei a noite ouvindo as novidades, os planos, os relatos de viagens. Espero não levar mais um ano para que possamos nos encontrar novamente.

O Saeed, esse ano, rodou documentarios na Faixa de Gaza e Estreito de Gibraltar. Os videos sao comprados, exibidos ou bancados por canais cada vez maiores como a AlJazeera International e a CBC do Canada. Alguns documentários estão disponíveis no You Tube, já que perdi o link das emissoras que já transmitiram seus vídeos disponibilizando tudo na internet. I See the Stars at Noon foi rodado com um imigrante marroquino que tenta atravessar a fronteira da Espanha pelo mar.

Essa semana, na tentativa de comecar a produzir documentários de ordem geral, Saeed viaja ao Cairo a fim de preparar o campo para um documentário sobre o efeito do seriado Sesame Street em países de maioria muçulmana. Segundo ele, história e personagens são adaptados de acordo com a cultura local de diversos países ao redor do mundo. Uma ótima terça-feira para você também.
Enquete

Aproveitando o gancho de etiqueta do post anterior, ontem fui jantar com um amigo muito querido que não via há anos (me senti a Hebe) e assisti de longe a maior saia-justa do ano. Um casal chegou pra jantar e ao passar pelo corredor o rapaz cometeu a gafe de encostar a bolsa no copo de vinho da menina que estava sentada. O copo de vinho caiu dentro do prato resultando em comida molhada e copo vazio.

Por sorte os garçons do Mem & Laz, meu restaurante favorito, são sempre rápidos e muito prestativos. No mesmo segundo o prato saiu da mesa e minutos depois um novo retornou evitando maiores arranhões. Já o moço causador da confusão, pediu desculpas com um sorriso amarelo e saiu de mansinho. Ficamos horas pensando em formas educadas de se retratar pelo incoveniente.

Não sou a Danuza Leão (ainda), mas acho que o mínimo que poderia ter ser sido feito era pagar um Amaretto digestivo ao final da janta para formalizar o pedido de desculpas. Não existe nada mais indelicado do que não ter o cuidado de olhar para os lados. Pessoas grandes tem essa mania. Não tem a delicadeza de treinar os passos antes de sair de casa e acabam se perdendo na medida dos braços e pernas.

Concordo não ser o fim do mundo, mas existe um limite pra tudo. Se a situação tivesse passado comigo, levaria na esportiva e não veria problema em nada - até porque jé estava na minha terceira taça de vinho - mas a gente nunca sabe em que momento estava a vítima nesse caso. Não há nada mais desagradável do que uma situação saia-justa enquanto você está tratando de negócios ou em um date com alguém com quem você não tem intimidade.

Não?

25 de novembro de 2007

Bacon, baked beans, salsicha e ovo frito - na hora certa

Sempre tive muita dificuldade de chegar aos lugares na hora certa. Acho feio, mal educado, mas não consigo evitar um atraso de entre 5 e 10 minutos. Minha falta de noção de tempo é tão grande que mesmo planejando chegar com folga de horário, sou pontual. Chegar cedo, por exemplo, não lembro de ter feito esse ano ainda. Até porque não faz sentido. Como não faz chegar tarde, embora um ou outro sejam obrigados a acontecer.

Essa afirmação é quase uma confissão porque vem de alguém que detesta atrasos. Pontualidade é importante, mostra respeito e leva a espera do outro em consideração. Não há nada pior (há sim) do que a espera por alguém que marcou e ainda não chegou. Mais triste ainda é se submeter a falta de respeito de quem não tem o bom censo de avisar de seus passos antes e durante o ato de estar atrasado.

No entanto, percebi há uns dias atrás, que não sou tao ruim assim. Talvez por estar britânico há tanto tempo, acabei me esquecendo que no Brasil esse conceito simplismente não existe. Marquei um encontro com 3 brasileiros na porta de Tottenham Court Road, mandei uma mensagem dizendo que talvez chegasse com 5 minutos de atraso e, alem de ter chego na hora, tive que esperar por cerca de 30 minutos no frio e com fome.

Não recebi uma mensagem, e ninguém pediu desculpas quando chegou. Muito a brasileira, todos riram da situação, disseram que se perderam no sistema do metrô e foram trocando de assunto como se eu fosse obrigado a me submeter aos caprichos alheios. Desde entao venho tentando mudar. Com amigos ainda preciso melhorar, mas em se tratando de compromissos em geral sei que já estou bem melhor.

Vale a pena lembrar, antes de encerrar o assunto e começar meu domingo, que a pontualidade dos britânicos é, em partes, lenda. O principal motivo pelo qual as coisas funcionam de acordo com o programado em Londres não são os ingleses, isso é pura propaganda. É o fato de termos um sistema de transporte público altamente eficiente que raramente nos deixa na mão. Basta checar o Journey Planner e programar o seu dia já levando em conta as eventuais eventualidades da chegada no evento em questão.

Agora é passar uma água na cara, comprar o Guardian e, sem escovar os dentes, tomar meu café da manhã. Preferencialmente gorduroso, bem banhento e feito por um turco peludo que completa o cenário ideal de um bom café da manhã inglês. Um estupro gastronômico. A dor e a delícia. De comer.


23 de novembro de 2007

Briga de reis

Duas grandes exibições visitam Londres este fim de ano: Tutankhamun and the Golden Age of the Pharaohs e The First Emperor - China's Terracotta Army. As campanhas promocionais das duas começaram há meses e são óbvias por todos os lados da cidade. Enquanto o British Museum estampou fotos dos soldadinhos chineses nos meios públicos de transporte, Tutankhamun foi lembrado através de estátuas gigantes de Anúbis postas ao lado dos principais meios turísticos da cidade (como Trafalgar Square, London Eye e afins).

O principal motivo dessa briga de leões foi o veto feito pelo Museu do Cairo em expor as peças no British Museum, onde Tutankhamun esteve há 30 anos atrás quando visitou a Inglaterra pela primeira vez. A briga entre os dois grandes museus é relacionada a posse de alguns objetos egípcios que o Cairo exige que sejam retornados pelos britânicos. O pedido já foi enviado inúmeras vezes ao British Museum, que sequer cogita a possibilidade de se desfazer de parte do seu acervo.

A resposta veio do Egito folhada a ouro. Tutankhamun está em exibição no O2 Arena durante o mesmo periodo que o British Museum exibe a exposição mais aguardada do ano. Algumas medidas foram anunciadas recentemente pelo British Museum referindo-se a política de vender apenas 500 bilhetes diários, mas como a idéia seria abrir durante a madrugada eu sequer levo em consideração. Nesse frio, não há exército que me tire da cama. Estive segunda-feira na exibição egípcia, gostei e recomendo.

22 de novembro de 2007

Abra as asas sobre nos

Um estudo divulgado hoje pela BBC afirma que o uso de cocaína na Europa aumentou 28,5% em relação ao ano passado. Com a adesão de 1 milhão de novos usuários, a droga conquistou os corações de 4.6 milhões de europeus que fazem uso regular de cocaína. Claro, este número não é nada perto dos 12 milhões de adultos que já experimentaram uma ou duas ou várias linhas (de pó) ao longo da vida. 4% da população adulta do continente.

Há alguns anos, quando cheguei do Brasil, percebi muito rapidamente a qualidade daquilo que os ingleses chamavam de liberdade. Ao contrário do que havia aprendido antes, a liberdade disponível na Inglaterra era livre de culpas e medos, levada a sério e de verdade. Um sentimento generalizado do qual todos se utilizam e que exige ser - porque não - tratado com respeito.

Essa civilidade, e reserva, permite liberdades impensáveis em qualquer outro lugar do mundo. Aqui fala-se abertamente das drogas alheias, trocam-se experiencias a respeito de novidades no mercado e, partindo do principio de que todos são adultos e esclarecidos o suficiente para tratar o assunto com maturidade, debates e conversas interessantíssimas são travadas a respeito do antes intocavel.

Poucos contra, vários a favor, mas todos relacionados a algo ou alguém que envolva o tema ao ponto de cheira-lo. O número elevado é reflexo da quebra de tabus, ausência de preconceito e fácil acesso - assim mesmo, em uma panela de pressão. O que aqui acontece, aqui fica. Os eventuais problemas causados aqui, por aqui são resolvidos. Praticamente um piloto do que a legalização seria caso o mundo todo, e não somente o Reino Unido, fizesse parte da alegria de ser primeiro mundo.

Cada um na sua, fazendo o que tem vontade, e nem por isso obrigado a viver a margem de nada - a menos que queiram. Liberdade gera oportunidades, amplia a noção de mundo, abre novos caminhos e possibilita a exploração do desconhecido - do novo. Enquanto o ser humano vive em função de classificar tudo em certo ou errado, os livres aproveitam a festa que é passar pela vida fazendo o máximo para experimentar o que quiser, assumindo os riscos que existem também em ser feliz.

É claro que o aumento do consumo de cocaína na Europa trará problemas sérios para países pobres fornecedores, mas infelizmente não posso resolver as mazelas do mundo. Minha missão no mundo é outra, mais leve e egoísta. Somente aproveitei uma notícia importante para discutir um assunto tão importante para os meus como a liberdade é. Fico na Europa pela ousadia de escolher viver ao lado de quem ousa.

20 de novembro de 2007

Outro?

Interessante um país que preza tanto por crescimento interno e progresso fazer um feriado na quinta e outro na terça-feira da semana seguinte. Dia nacional da consciência negra? Quanta hipocrisia. Um país miserável como o Brasil parado para celebrar as inutilidades de um dia dedicado a celebração da consciência negra. Como se negro tivesse tempo e disposição para ter consciência no Brasil.

Feliz deve estar a dona Márcia, mulher do seu Adolfo, patroa de 3 negras de idades variadas que trabalham pra ela de segunda a segunda em dias alternados. Dona Márcia está feliz porque hoje acordou mais tarde no dia de celebrar a consciência negra no país. Tomou um bom café da manhã preparado pela negra 1, marcou a unha através dos serviços da negra 2 e engatou com um almoço com o marido naquele restaurante cheio de garçons brancos servindo alcatra e cupim enquanto a negra 3 cuidava das crianças.

Adolfo, por sua vez, esta feliz de ter um dia extra para malhar. Seu personal trainner, um preto enorme que Adolfo considera bem sucedido por viver em um meio tão cheio de brancos como aquele, vai estar na academia celebrando o dia da sua própria consciência. Por outro lado, em se tratando de negócios, ele sabe que um feriado não cai muito bem. Para isso, a partir de amanhã, já planeja botar seus negros na hora extra. Afinal o feriado foi para eles e não custa dar uma puxadinha na produção.

Apesar de sermos um país de maioria negra, continuamos restringindo o acesso dos mesmos a trabalhos que brancos não querem fazer. Emprego bom para negro no Brasil seria uma variedade que vai de instrutor de futebol a professor de educacao fisica, motorista, caixa de supermercado e enfermeiro - o responsável pela faxina. Em escritório, boys ou secretárias. Garçom, maioria branca, porque preto mexe com comida apenas na cozinha. Juiz, há 2. Empresário, nunca vi, mas há. Da mesma forma que veado é deputado e puta lança livro virando celebridade.

Fingindo ser simples, vamos parando um país de 200 milhões de pessoas para brincar de sermos um povo caloroso e de bom coração. Algo que já cansei de ouvir no exterior. Uma mentira que serve de consolo para quem não tem culhões de enxergar a realidade de um país na merda. De um povo incapacitado, burro e hipócrita que não tem coragem de enchergar a vida como ela é.

17 de novembro de 2007

Fuck all

De acordo com a Economist dessa semana, a Russia passou de ter 7 bilionarios em 2002 para 53 esse ano. Putin sai do cargo de presidente da republica, mas avalia a possibilidade de mudar a consituicao e passar todo o poder politico para o primeiro ministro do pais - ele mesmo. Ainda na revista, a Angelina Jolie assina um texto ao lado do chefe de estado da Franca, que tem sobrenome polones.

Tem foto do Chavez dancando com a tia da faxina, e a China em praticamente todas as materias. A principio as Olimpiadas de 2008 seria a coming-out party do governo chines, promovendo o fato de respeitarem os direitos humanos um pouco mais do que costumavam fazer no passado. Como a capa traz um dragao carregando a tocha olimpica, todos os anuncios internos trazem empresas diversas querendo morde uma parte da pizza que, por coincidencia, nasceu na China tambem.

Ainda estou na metade da revista, mas ja terminei o Guardian de ontem e fui obrigado a ler ao menos 5 artigos sobre a sucessao presidencial dos Estados Unidos em Novembro do ano que vem. Realmente nao sei porque todos perdem tanto tempo especulando se todos ja tem certeza absoluta que Hillary Clinton sobe mesmo ao poder. Deve ter uma explicacao bem dificil daquelas cheias de numeros, graficos e uma foto enorme daquela gente feia e estressada amontoada na bolsa de valores. La Borsa, na Espanha.

No Guardian, nada demais, mas mesmo assim vou falar. Uma materia rapida sobre um novo filme brasileiro que ja esqueci o nome, um grupo russo que acredita que o mundo termina em Maio e por isso esta escondido em uma caverna perto da Siberia, e novas figuras do departamento de Imigracao do Reino Unido.

Esse ano, 400 mil pessoas sairam do Reino Unido para morar em outros lugares, sendo destes 207 mil britanicos. Os lugares favoritos sao Australia, Nova Zelandia, Franca, Espanha e Estados Unidos. Em termos de entrada, entra todo mundo como sempre. 591 mil entradas, a maioria de India, Bangladesh e afiliados. Mais do que imigrantes da Uniao Europeia vindo morar no Reino Unido. Depois a populacao escurece e todo mundo acha que sao as nuvens e o tempo ruim.

O livro do Pamuk nao esta recomendado. Ele tem um approach excelente na sua propria infancia e falou varias coisas com as quais me identifiquei muitissimo. No entanto, se perde horrores entre um paragrafo e outro. O livro nao tem continuidade, nao fala sobre nada especifico e nao cumpre a tarefa de falar absolutamente nada sobre Istanbul. Tenho uma amiga italiana que tem nesse um de seus livros favoritos. Este e Gomorra. Os dois sao bem meia-boca. Pra quem mora do Brasil, seria interessante. Melhor que outro domingo com Faustao.

Um otimo fim de semana, enfim. Ontem jantamos e bebemos vinho branco Catalao enquanto assistiamos aos tres episodios de Line of Beauty, uma excelente producao da BBC Londres. 24 horas depois ja quitei quase todas as leituras pendentes da semana e matei, na sequencia, uma lata de sopa de galinha Heinz e um Cherry Yogurt da Onken. Estou agora planejando arroz com feijao com bem farinha, mas considerando a possibilidade de uma pizza Dominos. Tudo com marca, pra ir entrando no espirito do meu curso de Marketing.

Nada demais, fora eu mesmo.

12 de novembro de 2007

Dates e compromissos em geral

Eu tenho o problema bem serio de ter varios problemas de todas as ordens possiveis. Mesmo assim, nao posso reclamar porque eles sao quase todos pesos leves, nao alteram o curso da minha vida e envolvem coisas que na vida da grande maioria seria motivo de alegria, nao agonia. Sorte de quem tem o privilegio de ser privilegiado.

De todos eles, o que mais me encomoda eh o problema de marcar compromissos e nao aparecer. Todas as ideias geniais de encontrar com amigos maravilhosos parecem ser muito melhores duas semanas antes do dia combinado. Assim eu perco tempo planejando, sofro tentando encontrar uma desculpa mais sana do que a real loucura de nao ter um motivo, e gasto dinheiro com media para informar dos meus planos de nao seguir com o planejado.

E eu faco isso sempre. As vezes, tenho crises de panico tao horrorosas que desligo o telefone, finjo que nao existo, e espero passar um tempo para voltar a contactar a pessoa em questao. Horrivel, desagradavel, desrespeitoso, mas eu nao consigo mudar. Hoje, por exemplo, eu deveria estar na mesa de um bar com uma amiga chamada Sarah. Nao estou. Mandei uma mensagem inventando uma historia ridicula de que tinha um encontro de ultima hora na faculdade.

Depois de um tempo ninguem te chama mais pra nada, e sequer acreditam que voce va aparecer por mais que voce resolva de fato dar as caras. A unica coisa razoavalmente boa disso eh que sempre que voce aparece em uma balada, os que estao bebados acham que voce eh celebre tamanha a festa da roda - afinal, depois de 30 encontros marcados e nao cumpridos, eu apareci por livre e espotanea vontade. Um marco.

De repente a minha resolucao de ano novo podera ser nao marcar mais nada com ninguem. Avisar atraves de um comunicado no jornal que minha presenca deve ser cominada com 15 minutos de antecedencia, quando eu estiver na esquina do lugar em questao. Alternativamente eu posso contratar um PA, entrar pra faculdade de teologia, engravidar, ou continuar assim, incompreendido.

10 de novembro de 2007

Viva l'amour

Um dia, movido por planos varios e razoes diversas, decisoes sao tomadas e uma vida inteira passa a mudar. Por muito tempo achei que acabaria sozinho, molhando plantas e cuidando de meus gatos da janela. No entanto, sem querer e bem devagar, descobri meu amor. Passei a tolerar para ser tolerado aprendendo assim a primeira das coisas boas de ser um casal. De nao estar mais sozinho, nao fazer mais o que se quer, e nao planejar a vida de acordo com desejos soh meus.

A dor e a delicia de apenas ser. Mais uma vez enfrentando meus medos, de novo quebrando barreiras, e tambem - acredito - colocando peso na tarefa de fazer dar certo. Na missao de vida de me entregar ao que me foi sugerido. E de tentar ser feliz, sempre, custe o que custar. Um desafio sim, porque dois elefantes encomodam muito mais; mas um desafio desses iguais a todos os outros que sempre parecem muito mais complexos do que na verdade sao.

Foi assim que eu arranjei um namorado. Cultivei a paixao da foda, e me apaixonei pelo que vai alem. Hoje, tempos depois, ja sou eu e algo mais. Com certeza dobrando e lavando uma quantidade maior de roupas, aproximando minha relacao com o varal a passos largos, e organizando, e pendurando tudo no cabide outra vez. O exercicio de minha alma politica na arte do amor. Acordando sempre que possivel com alguem enroscado em mim. Tendo com quem pensar, solucionar problemas e dividir tarefas. Meu amor que tambem dobra, lava e pendura outras coisas pelos mesmos motivos diga-se de passagem.

Acontece tambem que eu tive a sorte, como em todos os outros campos da minha vida, de encontrar alguem que fosse justamente o oposto do que eu sempre fui. Aquele que eh quem eu gostaria de ser se nao fosse eu mesmo - com caracteristicas varias que faltavam em mim, mas que agora eu tenho mesmo sem ter em mim. A metade da laranja, sim. Mas tambem a tampa da panela, sendo eu a porra da panela de pressao.

Nunca imaginei que escreveria sobre dois. Por tao interessante e complexo eh que tantos falaram tanto sem que eu fosse capaz de alcancar. Porque quando se ama se perde o chao, a razao, os meios e os fins - como nos livros. O sentimento em si, nas suas mais diversas representacoes, eh tambem o unico motivo pelo qual estamos sempre a procura de algo que nao sabemos o que eh. Ha de se respeitar quem ama. Ha de se respeitar.

Desvendado mais um dos segredos da vida. Um do grupo dos que todos dizem sempre, mas voce soh descobre quando acontece com voce. Como viajar de aviao, ter um filho, aprender uma nova lingua, usar drogas, falar em publico, fazer uma prova, comer vatapa, dar o cu, chupar pau e fugir da policia. A dor e a delicia de ser, estar ou fazer.
Lendo.

The bitch is kinda back

Tem gente que tem vergonha de sair publicando coisas escritas em um passado nao muito distante, ou ter divulgada aquela foto ridicula de quando voce nao tinha amigos na escola e foi obrigado a dancar na Festa Junina com a Mariana, a Juliana ou a Ana Paula - todas as turmas tem, no minimo, duas de cada.

Eu tambem tenho vergonha. Mas nao me importo porque todo mundo muda de opiniao, fica menos pior, passa por experiencias que fazem o mundo dar voltas ate que finalmente alcancem a perfeicao do agora. Agora somos sempre mais perfeitos do que fomos ontem. E ai de quem criticar.

Como eu nao tenho personalidade nenhuma, resolvi copiar meu amigo Tulio e voltar ao meu blog. Sem personalidade, mas eu ja tava com vontade de voltar. Quem tiver interesse em ler coisas de antes de 2004, clica aqui. Senao, basta checar os textos anteriores dessa pagina mesmo. Espero que gostem do meu retorno, e tambem que eu tenha saco de retornar. Se nao gostarem, tudo bem, porque eu continuo otimo mesmo assim.