Primeiras impressões
Roupa de academia, bem colada, mesmo pra gordas. Na rua, na chuva, na fazenda e, enfim, em todos os lugares possíveis incluindo festas e aeroportos. O mesmo se aplica pra tênis de corrida, que as pessoas usam para trabalhar. Se for da Nike e parecer uma nave, melhor ainda. Minha mãe acha que por não ter quinze molas visíveis na sola, os meus estragam minha coluna.
Homens de férias são um capítulo à parte. Quando com dinheiro, fingem que são inteligentes, geralmente usando a armação ideal de óculos. Quando sem, fazem o mesmo, mas confundem tudo e abrem a camisa estilo cafetão até o umbigo, potencialmente com aquele medalhão de ouro no pescoço - ou os alternativos cruz, imagem de santo ou só uma corrente simples para os mais discretos. Aqui todo mundo parecer achar que pose de cafetão é estilo. Uma desgraça, enfim.
Todos riem de tudo o tempo todo. Não sei o que é, mas ainda não achei graça de nada. Procuro prestar atenção no humor e entender porque as pessoas riem de tudo, mas sempre acabo frustrado sem uma resposta. Riem de erros, de demora, desentendimentos, decepções, desgraças - tudo. Negociam rindo. Fazem perguntas sérias com tom de sarcasmo. A piada é o centro das relações humanas. Mesmo as ruins são prestigiadas. Qualquer merda fala, é lucro.
No grupo das coisas boas está a presença de pedreiros e faxineiras que é perceptivelmente maior nos aeroportos do país. De férias, sem uniforme e viajando de verdade. O ruim disso é que quanto mais gente importante no vôo, menor é a chance que ele tem de cair. Uma teoria que faz todo sentido e me deixa muito mais calmo ao ter que atravessar o buraco negro e a ausência de radares aéreos de Santa Catarina no trajeto de São Paulo a Porto Alegre. Enquanto 90% dos passageiros falam que a água está "meia" quente, eu vou passando mal.
Entrei no país como turista. Meu passaporte Brasileiro foi parar na lavadora há cerca de um ano e esse acontecimento isolado me obrigou a entrar como Italiano semana passada. Em Guarulhos não fizeram perguntas, nem deram data pra sair. Entra quem quer, fica o quanto quiser. Na checagem de informações ninguém presta atenção em quem chega, e rola ainda uma festinha com direito a sorrisos e sacanagem entre os colegas oficiais. Pra que seriedade e concentração se basta passar o passaporte na maquininha e carimbar uma das folhas? Até "porra" e a genitália da chefe foram tema de conversa enquanto esperava.
Tinha esquecido também de algumas coisas importantes. Por exemplo, que lugar de papel higiênico é no lixo ao lado do bacio. Todo mundo faz cocô, limpa a bunda e joga o papel no lixo. Alguns não se preocupam sequer em esconder a parte borrada e deixam tudo exposto, virado pra cima, presenteando o próximo com aquela visão especial. Minha curiosidade seria saber o motivo de não dar descarga no papel. Alguém sabe?
Tem mais. Depois.
30 de dezembro de 2007
21 de dezembro de 2007
Medo-pânico-pavor
Cobra-se por absolutamente tudo hoje em dia (e sempre). Estou aqui postando do Heathrow Airport, pagando pela internet e pelo direito de sentar na cadeira do Costa Coffee. Como tenho medo de avião, estou com diarréia há três dias. O lado bom é que sempre que viajo chego no destino com 2kg a menos. O lado ruim, é que só consigo relaxar uma vez no chão. Depois de muitas drogas e garrafas de vinho quando em vôos de longa distância.
Voar me confunde. Acho moderno, sofisticado, aprecio a máquina em si e adoro participar. No entanto, desde que tive uma experiência traumática viajando de Milão pra Londres (e adoro contar essa história porque desastre aéreo é um dos meus assuntos prediletos) não consigo mais me acertar. Aí já entro no avião fazendo amizade com os comissários e fingindo que passo mal pra poder levantar e fazer perguntas sobre as condições de vôo. Fingindo estar super calmo e mantendo a elegância.
A pira do avião é tão grande que eu juro que sei pilotar. E sei mesmo. Depois de tantas horas no ar como tenho, acabei aprendendo a diferença entre o pouso bom e o pouso ruim. O bom não existe. Eu poderia realmente ficar horas divagando sobre todas as minhas teorias de aeroporto, mas a internet custa £2.99 por 30 minutos. Um roubo. Então, não poderei terminar. Mas vou.
Muito me impressiona a quantidade de aviões que entram e saem desse país. Olhar pro céu, a qualquer hora do dia, deixa qualquer pessoa atônita. Isso me deixa bastante conformado, mas logo passa e eu já tenho que correr pro banheiro outra vez. Segundo a teoria do Eduardo o próximo acidente aéreo está sempre prestes a acontecer. Uma desgraça. Mas, se a TAM vai e volta todos os dias de tantos lugares, não é hoje que alguma coisa vai acontecer.
Como tive que vir para o Heathrow as 4am (nao tive, mas vim) fiquei fazendo nada desde entao. Meu vôo sai de Londres para Frankfurt as 3.25pm e já li todos os jornais de hoje. Cansei de ler. Cansei de comer. Cansei de ser sexy. Fui na TAM, o staff foi extremamente atencioso, mas o escritório é uma espelunca. Espero que os aviões sejam mais bem tratados. Precisam de alguém de marketing na empresa.
Fidel Castro foi eleito um dos mais bem vestidos de 2007 segundo alguma revista idiota que eu me recuso a comprar, ao lado da cantora do CSS - que, por sinal, estava na fila hoje de manhã indo para Portugal provavelmente fazer conexão e seguir a São Paulo. A raça odeia aeroporto, horários desagradáveis e horas intermináveis de nada pra fazer. Um dia o mundo será interligado por tubos de trem e nesse dia eu serei um homem feliz.
A foto a seguir foi tirada do meu celular e baixada via Bluetooth. Dessas coisas modernas que eu jamais achei que fosse capaz de fazer. Fico até emocionado, achando ser a Rosana Hermann. Que, por sinal, me mandou um e-mail maravilhoso hoje que alegrou a minha espera. Aqui, do alto, eu me despeço. Um beijo do gordo (gordo, mas emagrecendo a cada ida ao banheiro).

18 de dezembro de 2007
O eu-eu e o eu-outro
Passei apenas pra dar satisfação. Por experiência de anos blogando, sei que a vida pós-blog passa a ser dividida entre duas pessoas diferentes: o eu-eu, e o eu-outro. O eu-outro é virtual, tem leitores e vive de olho em novidades para postar. O eu-eu é mais sem graça e, no momento, está muito ocupado para deixar que o eu-outro exista ou dê notícias suas.
O eu-eu está escrevendo dois trabalhos que totalizam mais ou menos 15 mil palavras, preocupadíssimo com os longos vôos que fará nas próximas duas semanas e conciliando essas sete linhas (ou oito) com um pentelho impaciente que faz perguntas por querer atenção. São muitas as funções. Preciso ir, mas tenha você um bom início de semana. Você e todas as suas faces diferentes.
Passei apenas pra dar satisfação. Por experiência de anos blogando, sei que a vida pós-blog passa a ser dividida entre duas pessoas diferentes: o eu-eu, e o eu-outro. O eu-outro é virtual, tem leitores e vive de olho em novidades para postar. O eu-eu é mais sem graça e, no momento, está muito ocupado para deixar que o eu-outro exista ou dê notícias suas.
O eu-eu está escrevendo dois trabalhos que totalizam mais ou menos 15 mil palavras, preocupadíssimo com os longos vôos que fará nas próximas duas semanas e conciliando essas sete linhas (ou oito) com um pentelho impaciente que faz perguntas por querer atenção. São muitas as funções. Preciso ir, mas tenha você um bom início de semana. Você e todas as suas faces diferentes.
15 de dezembro de 2007
13 de dezembro de 2007
Iniciativa
Corro dos parados como o diabo corre da cruz. Jamais sou mal educado, mas faço questão de deixar claro que não estou interessado em conversar logo que detecto a presença de um na roda. Não consigo disfarçar. Meu rosto muda e meus olhos não respeitam o manual de boas maneiras. Ao invés de perguntar e articular, viro um mar de monossílabas.Uma das coisas que eu melhor sei fazer é deixar as pessoas confortáveis ao longo de um bom papo. Sou acessível, interessado, pergunto muito e gosto de aprender. Tenho poucos amigos, e preguiça de fazer novas amizades, mas estou sempre disponível e afim de conhecer novas pessoas. Gente ativa, inteligente, com bons projetos e várias coisas para falar e ensinar.
Tem coisa melhor do que ser apresentado a alguém que abre os seus horizontes e mostra novas possibilidades? Tem, claro, mas isso também dá prazer. Ter acesso a vida interessante de quem permite a invasão é tão bom quanto ler um bom livro. Virou moda citar como hábito sentar e olhar a banda passar. Eu prefiro interagir. Saber, ao invés de imaginar.

Às vezes, do nada, eu conheço alguém que desperta a minha curiosidade. Geralmente alguém que me fascina de alguma forma. Essa moça da foto, Lynn Vos, é uma jovem senhora que coordena meu curso na Middlesex University. Nascida em Vancouver, casou com um marido francês e veio pra Londres por um grande amor. Que acabou. Atualmente ela continua na Inglaterra, mas visita a família todos os Natais em Honolulu, aonde vivem.
O que mais me choca na Lynn é a forma articulada com que fala, enfrentando platéias de centenas de alunos com a determinação de quem entende muito do assunto. É rápida, bonita, corajosa, extremamente educada, bem vestida, usa sapatos maravilhosos, é expert em Marketing e fala com a propriedade de quem estudou muito pra chegar aonde um dia eu chegarei também.
Esse é o ponto. Admiramos aqueles que possuem faces que invejamos - procuramos referências naquilo que damos valor. Assim, a gente se espelho no comportamento de modelos pra fazer parte do meio, brilhando por aí. Quando a vida muda e com ela os objetivos, vamos trocando de modelos e fazendo escolhas os levando sempre em consideração. Os usamos como referência para saber quem somos, e o queremos ser. Eventualmente chegamos lá. Graças, também, às Lynns do seu mundo.
12 de dezembro de 2007
Sem graça
Segue a seguir a introdução de um artigo de Peter Wilky sobre Chavez no Guardian de segunda-feira. Resolvi postar porque antes de falar brilhantemente sobre o presidente Venezuelano, ele deixou clara como água a visão que a Europa tem da América Latina. Toda a Europa não, porque a Itália pensa primeiro em bunda devido ao alto número de putas brasileiras em suas capitais.
"Latin America is a region to which the British press normally pays little attention. Unlike the European Union, China and all Muslim countries, it does not menace the British way of life. Nor does it offer imperial nostalgia. Being full of military men with silly hats and twirly moustaches, and visited only by reckless teenagers on gap years, it is not to be taken seriously."
Segue a seguir a introdução de um artigo de Peter Wilky sobre Chavez no Guardian de segunda-feira. Resolvi postar porque antes de falar brilhantemente sobre o presidente Venezuelano, ele deixou clara como água a visão que a Europa tem da América Latina. Toda a Europa não, porque a Itália pensa primeiro em bunda devido ao alto número de putas brasileiras em suas capitais.
"Latin America is a region to which the British press normally pays little attention. Unlike the European Union, China and all Muslim countries, it does not menace the British way of life. Nor does it offer imperial nostalgia. Being full of military men with silly hats and twirly moustaches, and visited only by reckless teenagers on gap years, it is not to be taken seriously."

PS: Tentei achar uma foto legal no Google Images digitando a palavra bunda, mas só encontrei a foto perfeita ao digitar Brasil. A ilustração perfeita de um país enorme que insiste em entrar no rego. E rego, leva acento?
11 de dezembro de 2007
A última moda
O Financial Times de hoje traz um caderno especial que achei ótimo pra aplicar em um dos meus projetos de faculdade - e, porque não, dividir com vocês também. Fala a respeito de filantropia e aborda o tema sob os olhos de uma renomada jornalista de negócios chamada Sarah Murray que eu deveria dizer que conheço e adoro, mas nunca ouvi falar.
Cada vez mais - uma expressão que eu detesto usar, mas uso diriamente porque em business tudo é cada vez mais - doadores mandam dinheiro a localidades distantes, se interessam em saber o que de fato está sendo feito com o dinheiro angariado e utilizam-se de tecnologias como a internet pra suportar essas boas causas. O mundo está conectado, muitos viajam e, assim, têm acesso fácil ao que antes permanecia escondido em uma esquina qualquer de qualquer lugar.
A contribuição feita a essas instituições aumentou nos últimos anos devido à mudança na fonte de renda da população. O doador comum de hoje é jovem e faz sua fortuna pessoal de forma rápida, geralmente trabalhando para empresas globais. Há quinze anos atrás, 3/4 da Sunday Times Rich List era composta por herdeiros. E a forma com que trabalhadores e herdeiros milionários vêem seu próprio dinheiro faz, segundo experts, toda a diferença.
A reportagem fala também que herdeiros enchergam suas fortunas como bens familiares e, por isso, têm problemas sérios em fazer boas ações filantrópicas - já lancha em Mônaco, banheira de Moet e baús da Louis Vitton tudo bem. Trabalhadores, por sua vez, jogam merda no ventilador o dia inteiro fazendo quem é pobre cada vez ficar mais pobre, mas dão aquela forcinha rápida pra se redimir dos pecados ao fim do mês.
Só no Reino Unido são 180 mil instituições filantrópicas trabalhando em cerca de 100 projetos ativos diferentes. Muita gente não contribui, porque sabe que grande parte do dinheiro arrecadado é gasto em propaganda, imagem e salário de funcionários que não sabem sequer a posição do Sudão no mapa. Passam a semana inteira mandando emails sobre as crianças pobres da Colômbia e o fim de semana enlouquecidos cheirando com os amigos.
Outros acham que propaganda faz parte do processo e entram em sites como donorschoose.org e globalgiving.com para escolher entre um criador de galinhas da Nigéria e as torneiras de água das tiazinhas do Peru. O bom é que, segundo o jornal, você doa dinheiro a um projeto e acompanha os resultados através de emails diários com fotos e notas a respeito do andamento das obras que você ajudou a construir sentado no sofá da sua casa.
As empresas filantrópicas são cada vez mais competitivas e adotam estratégias usadas por grandes corporações para entrar no mercado e prosperar. Eles escolhem a causa mais rentável e até investem em novas técnicas de marketing para direcionar a campanha aos segmentos que batem com o perfil clássico do doador. Agora trendy é divulgar fotografias de gente feliz desfrutando do resultado da doação ao invés daquelas fotos horríveis de recém-nascidos africanos virando comida de urubu.
O Financial Times de hoje traz um caderno especial que achei ótimo pra aplicar em um dos meus projetos de faculdade - e, porque não, dividir com vocês também. Fala a respeito de filantropia e aborda o tema sob os olhos de uma renomada jornalista de negócios chamada Sarah Murray que eu deveria dizer que conheço e adoro, mas nunca ouvi falar.
Cada vez mais - uma expressão que eu detesto usar, mas uso diriamente porque em business tudo é cada vez mais - doadores mandam dinheiro a localidades distantes, se interessam em saber o que de fato está sendo feito com o dinheiro angariado e utilizam-se de tecnologias como a internet pra suportar essas boas causas. O mundo está conectado, muitos viajam e, assim, têm acesso fácil ao que antes permanecia escondido em uma esquina qualquer de qualquer lugar.
A contribuição feita a essas instituições aumentou nos últimos anos devido à mudança na fonte de renda da população. O doador comum de hoje é jovem e faz sua fortuna pessoal de forma rápida, geralmente trabalhando para empresas globais. Há quinze anos atrás, 3/4 da Sunday Times Rich List era composta por herdeiros. E a forma com que trabalhadores e herdeiros milionários vêem seu próprio dinheiro faz, segundo experts, toda a diferença.
A reportagem fala também que herdeiros enchergam suas fortunas como bens familiares e, por isso, têm problemas sérios em fazer boas ações filantrópicas - já lancha em Mônaco, banheira de Moet e baús da Louis Vitton tudo bem. Trabalhadores, por sua vez, jogam merda no ventilador o dia inteiro fazendo quem é pobre cada vez ficar mais pobre, mas dão aquela forcinha rápida pra se redimir dos pecados ao fim do mês.
Só no Reino Unido são 180 mil instituições filantrópicas trabalhando em cerca de 100 projetos ativos diferentes. Muita gente não contribui, porque sabe que grande parte do dinheiro arrecadado é gasto em propaganda, imagem e salário de funcionários que não sabem sequer a posição do Sudão no mapa. Passam a semana inteira mandando emails sobre as crianças pobres da Colômbia e o fim de semana enlouquecidos cheirando com os amigos.
Outros acham que propaganda faz parte do processo e entram em sites como donorschoose.org e globalgiving.com para escolher entre um criador de galinhas da Nigéria e as torneiras de água das tiazinhas do Peru. O bom é que, segundo o jornal, você doa dinheiro a um projeto e acompanha os resultados através de emails diários com fotos e notas a respeito do andamento das obras que você ajudou a construir sentado no sofá da sua casa.
As empresas filantrópicas são cada vez mais competitivas e adotam estratégias usadas por grandes corporações para entrar no mercado e prosperar. Eles escolhem a causa mais rentável e até investem em novas técnicas de marketing para direcionar a campanha aos segmentos que batem com o perfil clássico do doador. Agora trendy é divulgar fotografias de gente feliz desfrutando do resultado da doação ao invés daquelas fotos horríveis de recém-nascidos africanos virando comida de urubu.
7 de dezembro de 2007
Não por nada
Esse ano vou pela última vez em anos ao Brasil. Não por nada, mas porque não tenho mais o que fazer e, por consequência, saco pra não fazer. A vida mudou há muito tempo e, com ela, todo o resto foi junto. Acho ótimo rever os amigos, mas como a maioria não tem grandes novidades no período de um ano, darei mais tempo pra que tenham o que falar.
Minha paciência pra fingir que estou interessado esgotou. Não tenho mais vontade de catar assunto vasculhando a vida alheia de quem eu sequer lembro que existe. E também cansei de aguentar esse buraco enorme que ficou entre a minha vida e a vida dos que deixei quando saí. Sempre que sento com amigos do passado, sou obrigado a interromper meus relatos porque tudo o que tenho para dizer é muito diferente do que as pessoas estão acostumadas a ouvir.
O problema maior mesmo, é não ter com quem conversar normalmente. Lá, fora do contexto daqui, minhas histórias parecem coisa de gente metida. Já pra mim, não tem graça nenhuma saber quem casou com quem e quem está grávida. Não por nada, mas porque casar e engravidar são coisas que todos fazem. E coisas que todos fazem vêm no pacote de qualquer um, jamais sendo o principal.
Vai ser inesquecível. Os anos se foram, toda a roupa suja foi lavada e a água preta jogada fora. Dessa vez viajo para duas semanas no Brasil com o único propósito já definido de dar adeus de forma definitiva ao eu-outro, que já morreu. Tudo chega ao fim e, quando chega, deve-se reconhecer que acabou. Nova página, nova vida, nova história. Não por nada, outra ida.
Esse ano vou pela última vez em anos ao Brasil. Não por nada, mas porque não tenho mais o que fazer e, por consequência, saco pra não fazer. A vida mudou há muito tempo e, com ela, todo o resto foi junto. Acho ótimo rever os amigos, mas como a maioria não tem grandes novidades no período de um ano, darei mais tempo pra que tenham o que falar.
Minha paciência pra fingir que estou interessado esgotou. Não tenho mais vontade de catar assunto vasculhando a vida alheia de quem eu sequer lembro que existe. E também cansei de aguentar esse buraco enorme que ficou entre a minha vida e a vida dos que deixei quando saí. Sempre que sento com amigos do passado, sou obrigado a interromper meus relatos porque tudo o que tenho para dizer é muito diferente do que as pessoas estão acostumadas a ouvir.
O problema maior mesmo, é não ter com quem conversar normalmente. Lá, fora do contexto daqui, minhas histórias parecem coisa de gente metida. Já pra mim, não tem graça nenhuma saber quem casou com quem e quem está grávida. Não por nada, mas porque casar e engravidar são coisas que todos fazem. E coisas que todos fazem vêm no pacote de qualquer um, jamais sendo o principal.
Vai ser inesquecível. Os anos se foram, toda a roupa suja foi lavada e a água preta jogada fora. Dessa vez viajo para duas semanas no Brasil com o único propósito já definido de dar adeus de forma definitiva ao eu-outro, que já morreu. Tudo chega ao fim e, quando chega, deve-se reconhecer que acabou. Nova página, nova vida, nova história. Não por nada, outra ida.
6 de dezembro de 2007
Skål
Tem dias que sair de casa é a pior escolha. Algo potencialmente evitável, caso todos soubessem disso antes de colocar os pés na rua. São em dias assim que você se atrasa, precisa correr na chuva com o casaco novo, perde o celular embaixo da poltrona do cinema e, enfim, deixa seu laptop semi-novo cair no chão molhado da rua mais movimentada da maior cidade da Europa. A cereja do bolo, como dizem os ingleses.
Depois de uma sequência de acontecimentos ruins, não há nada mais aterrorizante do que ter que parar tudo, repirar fundo e juntar as migalhas do chão. Os livros, as chaves e aquele bloco de anotações que já não existem mais. Como deu pra ver, a descrição é baseada em fatos reais e, não fosse o fim do dia ter sido ótimo pra compensar, eu provavelmente teria voltado e cometido suicídio me afogando na poça ao lado do computador.
Mas o meu ano foi como o meu dia. Um sufoco. Vim de 2006 tranquilo e cheio de realizações que, pra ser honesto, não me custaram nada mais do que bom senso e seriedade. 2007, não. Esse foi rastejado, sempre medindo passos e tomando decisões extremamente importantes que custaram cada assinatura de cada aplicação enviada pelo correio dentro da data limite. Cada gota de sangue, suor e lágrimas. Um ano difícil, burocrático, decisivo, mas promisor e recompensador.
Meu ex-chefe dizia, do alto de seus 80 anos, que nada belo nasce sem stress. Ao longo da vida, o grau de dificuldade sempre aumenta à medida em que alcançamos fases diferentes. Você troca de time, muda de tática, ajusta o meio-campo, sobe de divisão e, por passar a jogar com os mais bem preparados, demora mais pra chegar ao gol. Mas eventualmente chega lá, crava a bola na rede e mata o chefão.
Tudo depende de tudo. Do penteado à vontade de fazer um sonho virar realidade. Sorte é papo. O que vale é raça, força, vontade. Assim, fervendo, eu darei início ao meu novo ano. Planejando mudanças, focando em meus objetivos, falando muito francês, conhecendo as pirâmides do Egito e Israel, amando, sendo amado, tomando café na França, terminando minha faculdade, começando a pós, fazendo novos amigos e dando mais atenção aos poucos e bons que já tenho.
Tem dias que sair de casa é a pior escolha. Algo potencialmente evitável, caso todos soubessem disso antes de colocar os pés na rua. São em dias assim que você se atrasa, precisa correr na chuva com o casaco novo, perde o celular embaixo da poltrona do cinema e, enfim, deixa seu laptop semi-novo cair no chão molhado da rua mais movimentada da maior cidade da Europa. A cereja do bolo, como dizem os ingleses.
Depois de uma sequência de acontecimentos ruins, não há nada mais aterrorizante do que ter que parar tudo, repirar fundo e juntar as migalhas do chão. Os livros, as chaves e aquele bloco de anotações que já não existem mais. Como deu pra ver, a descrição é baseada em fatos reais e, não fosse o fim do dia ter sido ótimo pra compensar, eu provavelmente teria voltado e cometido suicídio me afogando na poça ao lado do computador.
Mas o meu ano foi como o meu dia. Um sufoco. Vim de 2006 tranquilo e cheio de realizações que, pra ser honesto, não me custaram nada mais do que bom senso e seriedade. 2007, não. Esse foi rastejado, sempre medindo passos e tomando decisões extremamente importantes que custaram cada assinatura de cada aplicação enviada pelo correio dentro da data limite. Cada gota de sangue, suor e lágrimas. Um ano difícil, burocrático, decisivo, mas promisor e recompensador.
Meu ex-chefe dizia, do alto de seus 80 anos, que nada belo nasce sem stress. Ao longo da vida, o grau de dificuldade sempre aumenta à medida em que alcançamos fases diferentes. Você troca de time, muda de tática, ajusta o meio-campo, sobe de divisão e, por passar a jogar com os mais bem preparados, demora mais pra chegar ao gol. Mas eventualmente chega lá, crava a bola na rede e mata o chefão.
Tudo depende de tudo. Do penteado à vontade de fazer um sonho virar realidade. Sorte é papo. O que vale é raça, força, vontade. Assim, fervendo, eu darei início ao meu novo ano. Planejando mudanças, focando em meus objetivos, falando muito francês, conhecendo as pirâmides do Egito e Israel, amando, sendo amado, tomando café na França, terminando minha faculdade, começando a pós, fazendo novos amigos e dando mais atenção aos poucos e bons que já tenho.
5 de dezembro de 2007
Ninguém pode negar
Um dos meus módulos na faculdade é International Marketing, que vem a ser a minha matéria favorita, onde estudo as maravilhas de fazer negócio ao redor do mundo. Lá a gente aprende sobre sociedades de alto e baixo contexto, língua, estética, vida material, interações sociais, religião e todas essas coisas que fazem eu fugir um pouco da tabela de Ansoff e das estratégias de dominação do mundo - que, por sinal, eu também adoro.
Como o Brasil é um dos 10 países considerados BEMs (big emerging markets), eu sou obrigado a ficar participando da aula o tempo todo, respondendo perguntas que vão da ditadura (quando estudando sobre instabilidade social e risco político) à inflação (quando estudando sobre coisas que não me interessam). No livro, que é óbviamente bem sério e acadêmico, o Brasil é mencionado o tempo todo de forma bastante coerente e informativa. Bem como tem que ser.
No entanto, estudando pra prova da semana que vem, caí no capítulo que aborda o sistema legal e as particularidades de diferentes lugares ao redor do mundo. Falaram que o Japão tem um dos índices mais baixos de advogados por cabeça porque lá ninguém tem o hábito de processar ninguém. E partiram para exemplos de outras localidades importantes. Leia na íntegra, porque se eu conto em minhas palavras, ninguém acredita.
"Brazil, however, has a value system that differs from both the U.S.' explicit contractual agreement and China's mutual trust and verbal contract. The Brazilian value system is known as jeitinho, in which people believe that they can always find a solution outside the legal contract on a case-by-case basis."
Nada nunca vai mudar.
Um dos meus módulos na faculdade é International Marketing, que vem a ser a minha matéria favorita, onde estudo as maravilhas de fazer negócio ao redor do mundo. Lá a gente aprende sobre sociedades de alto e baixo contexto, língua, estética, vida material, interações sociais, religião e todas essas coisas que fazem eu fugir um pouco da tabela de Ansoff e das estratégias de dominação do mundo - que, por sinal, eu também adoro.
Como o Brasil é um dos 10 países considerados BEMs (big emerging markets), eu sou obrigado a ficar participando da aula o tempo todo, respondendo perguntas que vão da ditadura (quando estudando sobre instabilidade social e risco político) à inflação (quando estudando sobre coisas que não me interessam). No livro, que é óbviamente bem sério e acadêmico, o Brasil é mencionado o tempo todo de forma bastante coerente e informativa. Bem como tem que ser.
No entanto, estudando pra prova da semana que vem, caí no capítulo que aborda o sistema legal e as particularidades de diferentes lugares ao redor do mundo. Falaram que o Japão tem um dos índices mais baixos de advogados por cabeça porque lá ninguém tem o hábito de processar ninguém. E partiram para exemplos de outras localidades importantes. Leia na íntegra, porque se eu conto em minhas palavras, ninguém acredita.
"Brazil, however, has a value system that differs from both the U.S.' explicit contractual agreement and China's mutual trust and verbal contract. The Brazilian value system is known as jeitinho, in which people believe that they can always find a solution outside the legal contract on a case-by-case basis."
Nada nunca vai mudar.
1 de dezembro de 2007
Cinema em casa
Ontem fomos a exibição de Beijing Bicycle no British Museum. Sempre tenho a impressão de que a China é festa estranha com gente esquisita. Continuo achando, mas o filme abordou um aspecto um pouco mais normal ou diferente do esperado. A história relata a saga de uma bicicleta, disputada por dois garotos que têm nela a razão de viver por motivos quase que opostos. Se você não tem paciência, nem assista. O filme é devagar, quase parando.
O fim de semana está sendo bem tranquilo com a compra de vários DVDs novos e uma pizza enorme com Coca-Cola. Logo depois do filme ontem, fomos jantar em um tailandês horrível e passamos depois na antiga Virgin Megastore, agora Zavvi. Rapidamente explicando, da noite pro dia o grupo parou de ser representado pela Virgin e começou o processo de rebranding sem informar o consumidor que está até agora sem entender nada. A logo é verde, feia e pouco atrativa - como o nome.
Verei de perto o nascimento da nova marca, que já começa grande. Os seguintes filmes foram os eleitos do dia de hoje. Se estivermos sem sono, damos sequência a um terceiro. Boa noite, bom domingo e passe bem.
Ontem fomos a exibição de Beijing Bicycle no British Museum. Sempre tenho a impressão de que a China é festa estranha com gente esquisita. Continuo achando, mas o filme abordou um aspecto um pouco mais normal ou diferente do esperado. A história relata a saga de uma bicicleta, disputada por dois garotos que têm nela a razão de viver por motivos quase que opostos. Se você não tem paciência, nem assista. O filme é devagar, quase parando.
O fim de semana está sendo bem tranquilo com a compra de vários DVDs novos e uma pizza enorme com Coca-Cola. Logo depois do filme ontem, fomos jantar em um tailandês horrível e passamos depois na antiga Virgin Megastore, agora Zavvi. Rapidamente explicando, da noite pro dia o grupo parou de ser representado pela Virgin e começou o processo de rebranding sem informar o consumidor que está até agora sem entender nada. A logo é verde, feia e pouco atrativa - como o nome.
Verei de perto o nascimento da nova marca, que já começa grande. Os seguintes filmes foram os eleitos do dia de hoje. Se estivermos sem sono, damos sequência a um terceiro. Boa noite, bom domingo e passe bem.
Istambul
I see the adventures of these ruined neighbourhoods as symbolic. Only time and the sharp shocks of history can give a neighbourhood such a face. How many conquests, how many defeats, how many miseries did its people have to suffer to create the scene before us? - Ahmet Hamdi Tanpinar, escritor turco, sobre os bairros pobres de Istambul.
Ruskin, outro autor, sugere que a beleza da cidade está nas marcas deixadas pelo tempo. Na cor preta da madeira podre das casas erguidas durante o domínio do Império Otomano. Diz que o belo está nas marcas deixadas pelo passado - um fator acidental que não se regenera e não tem capacidade de ser preservado.
Isso explica o porque a população de Istambul não gosta de ver suas casas antigas restauradas. Quando o velho dá lugar a novas madeiras e edifícios renovados com cor, a conexão de seu povo com o passado é quebrada. O livro de Pamuk não é muito bom, mas tem bons momentos. Logo termino e engato nos que estao esperando: Danuza (que geralmente termina em dois dias) e La voz dormida. Mas sobre eles eu falo depois.
I see the adventures of these ruined neighbourhoods as symbolic. Only time and the sharp shocks of history can give a neighbourhood such a face. How many conquests, how many defeats, how many miseries did its people have to suffer to create the scene before us? - Ahmet Hamdi Tanpinar, escritor turco, sobre os bairros pobres de Istambul.
Ruskin, outro autor, sugere que a beleza da cidade está nas marcas deixadas pelo tempo. Na cor preta da madeira podre das casas erguidas durante o domínio do Império Otomano. Diz que o belo está nas marcas deixadas pelo passado - um fator acidental que não se regenera e não tem capacidade de ser preservado.
Isso explica o porque a população de Istambul não gosta de ver suas casas antigas restauradas. Quando o velho dá lugar a novas madeiras e edifícios renovados com cor, a conexão de seu povo com o passado é quebrada. O livro de Pamuk não é muito bom, mas tem bons momentos. Logo termino e engato nos que estao esperando: Danuza (que geralmente termina em dois dias) e La voz dormida. Mas sobre eles eu falo depois.
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