1 de janeiro de 2008

Cansei de ouvir merda

Estou há dez dias e já cansei. Todos falam muito, e todo mundo fala muita merda. Talvez seja o nível cultural da minha família, mas desconfio que a epidemia é generalizada mesmo. Em rodas de conversa os campeões são "pois agora", "a gente vai levando" e "o importante é ter saúde". Dez minutos de participação na roda e qualquer pessoa razoável sai com vontade de vomitar as frases conformistas usadas em excesso.

Ninguém é feliz, mas todos acham que são. Todo mundo só vive, porque não há outra opção senão morrer. Assim vão esperando a vida passar entre uma cerveja e outra, falando de generalidades inúteis, mal de familiares ausentes na festa ou a respeito das proezas de filhos que só repetem o erro cometido pelos pais. O erro de não ser. De deixar o óbvio e procurar algo que vá além.

Conversas normais não existem porque ninguém tem assunto. Dessa maneira, temas se repetem entre uma piada sem graça e outra. Saúde é o básico, porque todo mundo tem uma doença. Viver dói e eles adoram. Informações são trocadas o tempo inteiro sobre médicos, alternativas de tratamento, remédios naturais e tipos diferentes de tragédias familiares. Entre uma colher de maionese velha e outra somos abordados por um mar de micoses, cirroses e problemas cardíacos. Cirurgias em geral são diversão garantida.

A graça. Brasileiro têm mania de piada pronta, do tipo que passa de tio pra tio até chegar no primo idiota que quer ser igual. Como ninguém tem capacidade intelectual pra desenvolver um senso de humor descente e improvisar com inteligência, todo mundo enche a cara e vê graça em tudo. Qualquer forma fálica vira pau pro seu cu entrar na reta. Os preferidos dos burros inconvenientes são os verbos chupar, dar, comer, ajoelhar, massagear, lamber e outros. É só falar e sair, todo mundo ri.

E, finalmente, a carência. As pessoas não tem novidades porque nada muito novo acontece na vida de ninguém e, por isso, acredito que seja difícil encontrar um ouvido amigo interessado em saber mais a respeito de algo. Depois do praxe "quando você chegou?" "quanto tempo fica?" e "como é morar em Londres?" preciso sentar e ouvir muito por conta da falta de ouvidos dessa gente ociosa. Fala-se da faculdade, contam-se detalhes a respeito de acontecimentos irrelevantes e fofocas quentes de indivíduos que nunca vi.

Sem prática com gente de fora dos seus círculos sufocantemente fechados, não sabem conduzir um simples diálogo. Falam e se preocupam com a etiqueta, mas não sabem se comportar como uma pessoa razoavelmente normal e fazer o que há de mais básico em elegância: mostrar conteúdo, ou calar-se. Do nada você se vê nadando em um mar de informações desnecessárias que simplismente não interessam, desesperado pra voltar à superfície e respirar fundo pra ganhar fôlego. Haja fôlego.