20 de abril de 2008

Egito

Voltei ha duas semanas do Egito e ontem a noite celebrei o primeiro dia de ida normal ao banheiro. Todas as outras idas, durante e depois da viagem, envolveram situacoes extremas e traumaticas, das quais prefiro me abster de maiores comentarios. Hoje, entao, ja me sinto preparado para descrever a viagem, embora nao tenha muito tempo e possa ser interrompido a qualquer momento.

O Egito eh uma merda - e esse relatorio vai ser escrito sem acentos graficos, com bastante H depois do E, ja pra entrar no clima caotico do pais em questao. La, no Egito, passei doze dias de terror, entre lutas para conseguir realizar tarefas simples, obstaculos ao atravessar a rua e conflitos com os nativos do local. Muito po, muita poeira, muita sujeira, muito tijolinho quebrado na parede e aquele preto encardidinho do vaso sanitario (e da pia, e das unhas das pessoas).

Duas semanas depois da volta as imagens que me vem a cabeca sao a miseria da populacao, e o calor com terra. Tudo eh velho sujo ou quebrado (ou os tres), ate agua tem que ser negociada e o ultimo detalhe bem importante que atrapalhou bastante qualquer possibilidade de relaxamento existente: as moscas. Muitas. De todos os tipos e sabores.

Pra dar uma ideia bem clara do meu problema, eu tenho um bloqueio com moscas que vem da infancia, quando a baba da minha irma - a Fata - contou a historia de um velhinho do hospital (ela era enfermeira antes de ser baba) que morreu por uma infeccao generalizada causada por uma mosca encontrada morta dentro do seu ouvido. Ela contava que saiam lesmas do ouvido, que o cheiro era horrivel e essas coisas que deixam qualquer crianca de 10 anos em alerta ao sinal de um mosquito que seja.

Eu nao sei se isso eh possivel, nao tenho certeza se o velhinho realmente morreu com uma mosca no cerebro, mas essa historia me acompanhou para sempre - infernizando meus finais de semana especialmente quando em visita ao meu avo e seus quase 100 galos, galinhas e mosquinhas. Londres eh otimo porque nao tem insetos em geral (que eu tambem detesto) e o Egito foi praticamente a reuniao dos meus medos, as moscas, e o caos.

Os primeiros dias de Cairo foram feitos a pe, como toda a viagem, enfim. A ideia do grupo - eu e Eduardo - era a de fazer um semi-mochilao em duas semanas. Islamic Cairo foi feito de cabo a rabo, visitamos todas as mesquitas (que sao lindas, claro), aprendemos muitissimo sobre a cultura local e nos metemos em coisas incriveis pelo simples fato de termos fugido um pouco da rota turistica local. O proposito era passar trabalho, e nesse aspecto a viagem foi perfeita.

Depois de Islamic Cairo, visitamos as piramides, os museus e tivemos tempo de passar pela Cidade dos Mortos, o cemiterio da cidade habitado por mais de 1 milhao de habitantes (o Cairo tem 7 ou 8). Atravessamos muita rua sem sinal (nenhuma tem), corremos muito do desconhecido, conversamos com bastante gente interessante em transito ou de la mesmo, comemos muita coisa nojenta e tambem o melhor da comida tipica do pais, rimos pra caralho e ate cerveja conseguimos encontrar.

Do Cairo pra Luxor optamos pela opcao trem, que foi um desastre porque devido ao feriado da Pascoa e a quantidade elevada de turistas, fomos alojados na cabine dos locais. Pausa para explicar. Devido ao recente ataque terrorista em Darhab, turistas sao restritos a viajar em vagoes especificos de turistas, com supervisao policial e ar-condicionado. Claro que esse luxo nao tivemos ja que os tickets ja haviam esgotado. Viajamos 10 horas (a noite) com macacos e galinhas, pessoas rezando alto e aquele medo de bater o trem ou explodir ou ser assaltado ou todas as piores coisas do mundo juntas.

Chegamos em Luxor e passamos a maior parte dentro do Hotel porque a essa altura eu ja estava tendo um colapso nervoso do cansaco, mal estar, diarreia e a febre do Eduardo que parecia ficar cada vez pior. Fomos aos templos de Karnak e Luxor, visitamos o Vale dos Reis, Rainhas e o de uma farao mulher chamada Hot Chicken Soup (o nome nao eh facilmente pronunciavel and I cant be arsed, mas soa como sopa quente de galinha em ingles). Gostei muito, mas fiquei bem feliz com o quarto do hotel tambem. O ar-condicionado me bastou.

Luxor foi otimo, mas bem desastroso tambem. Fiz coisas horriveis tipo tocar uma mulher muculmana para ser amigo e levar um comidao de rabo, almocar tendo que abanar para que as duas milhoes de moscas nao voassem na minha comida, e comprar remedios no alto do meu frances macarronico porque as pessoas nao falavam Ingles e eu nao falava Arabe. Mais uma vez, tudo isso, com muita poeira e calor, porque se o Cairo eh quente, Luxor eh a frigideira do diabo.

E o capitulo a parte (outro). Como ambos temos medo de viajar de aviao e relacionar-se com locais nao era mais uma opcao, optamos por um voo de Luxor a Sharm El Sheikh via Egyptair (medo) com um aviao da Embraer (mais medo ainda). A viagem foi um sufoco, o piloto usava um oculos de sol pessimo daqueles meio que de plastico e eu ja entrei no aviao ouvindo os berros de desespero da queda, mas chegamos e de la partimos para a melhor e mais interessante (sem contar problematica, cansativa e suja) parte da viagem: a experience beduina do Sinai. Tan tan tan tan.

Foi otimo, uma das coisas mais lindas que eu ja fiz na vida, mas tambem bem triste em termos de higiene pessoal, seguranca, conforto e agradabilidade (se eh que essa palavra existe). Zero, na verdade. De Sharm, sem parar, fomos direto para o monasterio de Saint Catherine, com pinturas de seculos ridiculamente passados como o 3 e o 4, copias antigas da Biblia e monges ortodoxos bizarros vagando pelo lugar. Nao vou perder o meu e o seu tempo contando a historia da Santa Catarina, de Moises, da mae de Alexandre O Grande e do proprio, mas se voce quiser pode fazer um Google ou perguntar pro Eduardo.

Subimos a montanha de Moises. Dez minutos depois de saber que teriamos que escalar tres horas de montanha ingreme quase tive um colapso nervoso e chorava rios de lagrimas internas, com aquele mal humor gritante que nao tem jeito de sair quando entra. Vimos as casinhas beduinas, as criancinhas e os burrinhos, os camelos, as pedras, as pedras e as pedras. A vista eh realmente sensacional, talvez das mais lindas que ja vi na vida. Tudo eh grande, e se essa historia de Moises e os mandamentos realmente aconteceu, a probabilidade deve ser grande mesmo de que tenha sido la. Deus nao poderia ter escolhido um lugar melhor - e mais dificil de subir, porra.

La em cima assistimos ao por do sol e descemos com muito frio, mas felizes. Como nao haviamos levado jaquetas, fiquei com muita gripe e ja comecei a experiencia beduina de verdade (que nao, ainda nao comecou) com aquele peso na testa, sabendo que uma febre estava prestes a chegar. Comemos na casinha do tio Mohammed que fez uma janta bem gostosa caseira pra gente, tomamos banho no chuveirinho que pingava gotas e dormimos muito. Foi otima essa parte. Na manha seguinte o mesmo tiozinho ja estava batendo na porta para que fossemos comer e conhecer nossos guias. Um motorista de deserto, um guia de deserto e um guia de historia.

Passamos dias no deserto. A vista era linda, a experiencia unica, e o choque cultural intenso. Dormimos, acordamos, cagamos e comemos no deserto, nao necessariamente nessa mesma ordem. As moscas, o calor, o vento e a poeira, combinados com a falta de higiene e conforto, foram otimos para a continuacao do meu bom humor. Nem eu me aguentava, pobre Eduardo. Os pontos altos do deserto foram templos faraonicos no topo de montanhas (mais escaladas), as vistas imensas e incriveis do deserto, as incricoes antigas nas pedras, as formacoes rochosas variadas, muitas plantacoes de opium e maconha por todos os lugares (o Sinai eh um famoso produtor de drogas) e o medo de bichos dentro da cabana.

A cereja do bolo foi meu encontro com o pior dos meus medos: uma aranha enorme, enlouquecida, que berra. Quem me conhece sabe que eu morro de medo de aranhas, e uma grande que fala eh praticamente a transformacao de um pesadelo em realidade. O nome eh Camel Spider, pra quem quiser fazer um Google. E ela berra, de verdade, eh horrivel. Pra confirmar que nao importa o quao na merda voce esteja, as coisas sempre podem ficar piores. Aranhas podem comecar a berrar.

Nos ultimos dias, ja de volta ao Cairo, os animos voltaram ao normal, fora alguns contratempos com arabes que nao sabem resolver as coisas da maneira simples. Vivem falando que o caminho simples eh o melhor caminho, mas precisam pedir a opiniao de 5 pessoas diferentes antes de tomar qualquer tipo de decisao. Tudo eh muito complicado e requer muito tempo - o que lah, eles tem de sobra. De toda a experiencia esse foi o aprendizado maior. Que a cultura eh total e completamente diferente, e precisa ser respeitada.

Foi incrivel. Agora olho para tras e vejo graca em tudo. Vi e aprendi muito, realizando mais um dos muitos sonhos que ainda realizarei. Lindo, magico, engracado, relativamente romantico e tao diferente, o Egito ficara para sempre guardado na memoria. Um dia voltarei, mas ficarei no Hilton, de frente pro Nilo, com motorista particular e ar condicionado sem moscas em todos os lugares. Bem feliz, pularei de uma bolha pra outra, batendo fotos com os japoneses em uma maquina bem bonita e grande (que ja temos). Experiencia beduina, no entanto, talvez nunca mais.

Fotos:

Album 1
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