27 de fevereiro de 2009

Na Índia


E depois chamam o Brasil de exótico.

Até que enfim!

De Mochila

Uma amiga minha chamada Cecília, de Brasília, está dando a volta ao mundo e acabou de pular de paraquedas na Nova Zelândia. Taí uma coisa que eu realmente não preciso fazer. Só a idéia de fazer algo parecido já me deixa com vontade de vomitar. Ela escreve um blog ótemo para a revista Viaje Aqui da Abril. Vou incluir o link na barra ao lado.

26 de fevereiro de 2009

O que os olhos não vêem (por enquanto com acento)

Moro no mesmo apartamento desde Julho de 2007. Adoro meu apartamento e quanto mais em casa fico, mais em casa tenho vontade de ficar. O previsível atrai o ser humano. Piscou, virou vício. Da mesma maneira que todo mundo tende a sentar no mesmo lugar quando volta a um ambiente cheio de cadeiras, a casa da gente é aquele lugar em que tudo tem uma explicação e um sentido. Em casa nada precisa ser decifrado ou entendido. Você bate o olho, e já sabe antes mesmo de olhar. Daí o conforto.

Embora eu tenha vivido aqui durante uma quantidade de tempo bastante respeitável para os meus padrões pessoais, sempre descubro um detalhe diferente nas redondezas. Minha relação com o meu bairro funciona como um bom namoro. Aos poucos eu fui conhecendo, sabendo, e modificando a forma com que vi East Finchley (o nome do bairro, no caso). Uma região ou cidade podem também mudar, como mudam as pessoas. Às vezes você quer emagrecer e fazer exercício físico, e outras vezes decide falar francês. O bairro, também.

Quando saio de casa, sempre saio com três possibilidades de caminho. O mais rápido para a estação de trem é o caminho do meio, bem budista e simplinho. Não tem grandes paisagens e é prático como tudo o que é do meio deve ser. O principal, super importante, é o da High Road, que liga Londres à várias estradas que terminam em qualquer lugar. Já o outro, saindo à direita, leva a lugares horríveis da cidade. Uma parte de Londres que parece uma versão ruim de Guarulhos. Ou ainda, uma versão ruim da Guarulhos do Paquistão. Um horror, enfim.

No entanto, um pouco antes de Guarulhos, alguns lugares têm chamado a minha atenção. Um greasy spoon chamado Mr. Hunger, uma loja de produtos orgânicos com pessoas orgânicas dentro, um açougue de verdade com dois tios vestidos de jaleco branco, a porta que recicla cartuchos de impressora e, hoje, a venda do Nalim. Logo depois de chegar em casa, fui ameaçado de morte pela faxineira e precisei correr à venda mais próxima para comprar um produto de limpeza que estava faltando. Encontrei o produto, e conheci Nalim. Agora eu preciso escrever mais uma linha para que todos os parágrafos do texto terminem simétricos.

O Nalim é da Tanzânia. Quando ele me disse, eu fiz uma cara esquisita e disfarcei mentindo que já havia conhecido o país (ele inclusive perguntou pra onde eu fui, mas como eu não sei nem o nome da capital menti que havia visitado as montanhas - ele deu o nome, e eu confirmei). Ficamos de papo cerca de 40 minutos. Ele chegou no Reino Unido muito jovem, em 1971, e pediu asilo político por algum motivo que eu desconheço por não saber sequer o nome da capital da Tanzânia. Logo depois dele, a família inteira se mudou, incluindo pai mãe e cachorro. Nalim trabalhou no Royal Mail por cinco anos, e há exatos 30 anos atrás (30 anos no sábado) abriu a loja aonde o conheci.

Nalim é bem fofoqueiro. E eu, sou também. Trocamos idéias a respeito de todos os personagens do bairro e ele me contou fofoca até de quem eu não conheço (uma ex-freira que ficou grávida e foi expulsa do convento há mais de vinte anos atrás - ótima a história). Nalim me contou quem usa drogas, quem tem filho preso, quem é perigoso, e quem é apenas maluco. Só as fofocas quentes. Mas não só. Nalim disse que sofre preconceito até hoje, e que ontem mesmo um Inglês entrou na loja dele reclamando que nós estrangeiros estamos tirando os empregos dos filhos de quem nasceu aqui (que pena, mas eu não tenho culpa nesse papo de recessão).

E Nalim é categórico: há trinta anos era pior. Há trinta anos, uma gangue de skinheads atacava a loja dele todos os meses por mais de um ano, até Nalim cansar de trocar os vidros e eles cansarem de quebrar os vidros novos. Ele diz que de tempos em tempos a janela da casa dele amanhece quebrada, mas que já se acostumou. E que gosta de morar aqui. Disse que gosta da Inglaterra porque na Tanzânia ele não conseguia dormir tranquilo à noite. Que tinha medo de morrer. E que reparar a janela é melhor do que viver sem ter a certeza de uma noite de sono. Achei que fez bastante sentido.

Nalim não tem vontade de voltar. Mora na Inglaterra há quase 40 anos, e aqui tem todos os amigos e familiares. Disse que a Tanzânia não lhe deu oportunidades, e o proibiu de exercer direitos básicos de qualquer cidadão. Que deixou a Tanzânia machucado, e que lá também deixou o seu amor por sua terra. Nalim disse que não quer voltar, e que não quer mais passar trabalho. Que já chega. Que já cansou de apanhar e se considera bem sucedido o suficiente. E bem sucedido de fato é. Nalim tem três lojas como aquela. E seu maior orgulho na vida, disse ele, foi nunca ter fumado, bebido álcool ou comido carne conforme prometeu para sua mãe antes de sair da África. Acho que ele é uma pessoa feliz. E eu sou definitivamente melhor depois de te-lo conhecido.
Ditadura

Hoje resolvi tirar o sistema de comentários que nunca quis ter. Deixar que terceiros (ou segundos, no caso) expressem suas opiniões a respeito de assuntos abordados nesse espaço não faz parte daquilo que procuro quando sento para escrever. Opinião, eu já sei, todo mundo gosta de dar mesmo quando não deve ou pode. No jornal, uma remarca, na tevê, um papo, na Universidade, uma elaboração sem fim. Aqui, no entanto, quem fala sou eu, e quem não gosta do que é falado não tem chance de reclamação. O mundo é livre e a internet é tão democrática que até ditadura aguenta quem quer. Em assim sendo, assim já é.

E português não é a língua oficial desse blog porque esse blog não tem uma língua oficial. Organisação continuará com S até segunda ordem. Passar bem.

25 de fevereiro de 2009

Propaganda para os bons


Recomendíssimo o Viva My Hair, entre a Poland e a Carnaby Street, no Soho. Já corto com a Sean há mais de um ano, e não posso nem pensar em trocar. Ela é Australiana, mora em Londres há três anos, e logo se muda pra New York (isso ela já fala desde o primeiro dia). Espero estar bem rico quando ela for, porque ela é a única pessoa no mundo que sabe cortar o meu cabelo. Nasceu sabendo. Aqui vai o site com mapa e telefone. Não é barato, mas tudo que é ótimo custa caro. Voilà.
Cadê Dalila?

É bem engraçado assistir às entrevistas da Globo na concentração da Sapucaí. Clássicos do nível "mostra um pouquinho pra gente, Bismark", closes absurdos nos silicones diversos em rede nacional, e tanta gente levando a festa tão a sério me deixam super bem impressionado com o progresso do país. O Brasil deveria ser reconhecido como líder mundial na organisação de porra nenhuma. Deveriam ganhar prêmio na ONU, abrir clínicas de cirurgia plástica com o selo de nossas bundas no exterior, e receber o aval dos órgãos internacionais pra exportação de nossas mulheres para o mundo. Só de taxa, o Brasil faria mais dinheiro com puta do que faz com etanol.

Enquanto por aqui todo mundo fica louco pra ir ao Brasil dançar na rua, eu continuo alheio a tudo. Embora seja tão brasileiro quanto todos os outros, nunca aproveitei de verdade o Carnaval. Tenho vontade de sair na Mangueira, pular em um bloco de Salvador, e ver a festa de Olinda da sacada do fulano aquele do cabelo comprido. Mas nunca fui, e não será tão cedo que irei, já que no fim das contas tudo é uma questão de prioridades nessa vida. Enquanto isso não acontece e eu não tenho a minha primeira grande experiência do Carnaval brasileiro, eu vou coletando informações pela internet, vendo de longe até que ponto somos capaz de chegar enquanto nação.

Ao menos o nosso presidente, com seu chapéu Panamá, distribuindo camisinha para os foliões, está mais na moda do que nunca. E depois perguntam porque nosso gordinho tem quase 85% de aprovação. Paixão nacional.


22 de fevereiro de 2009

Le Corbusier @ Barbican



Fomos ontem a tarde e já está recomendado. Nada comparado à exibição sobre o desenvolvimento do design no período pós-Guerra Fria organizado pelo V&A em 2008, mas igualmente interessante para um fim de semana a tarde. Dá uma boa idéia do começo de coisas que ninguém sabe de onde começaram a acontecer. Pessoas como o Le Corbusier são os verdadeiros responsáveis pela criação do que vemos e temos hoje por todos os lados. Tudo só existe porque é inventado. De Brasília ao chaise long de metal.

A exposição deu uma ênfase bem diferente ao processo criativo do artista, dedicando metade do espaço ao processo de aprendizagem de Le Corbusier. Constam livros que leu, textos que escreveu, fotografias que bateu e viagens que fez ao redor do mundo inteiro. Um grau de complexidade que ajuda consideravelmente na compreensão do resultado final, e do estilo que Niemayer copiou. Outro divisor de águas. Dá vontade de sair inventando.

18 de fevereiro de 2009

Quando tudo dá certo

Não sei você, mas eu tenho medo. Quando tudo dá certo, e corre exatamente de acordo com o previsto, todas as leis da natureza são contrariadas. Considerando que um acontecimento sozinho pode ter uma média inventada de um bilhão de diferentes possibilidades finais, tudo fica ainda mais complexo. Assim sendo, sempre que tenho um plano pronto, uma pitada grande de pessimismo é automaticamente adicionada com a certeza de saber da impossibilidade de sua realização - seja ela qual for. Mesmo na certeza do concreto, a negação aparece.

Se eu que sou só eu já vivi o suficiente pra saber que nada é o que a gente quer ou acontece da forma com que a gente espera, eu imagino você vovó de 60 anos lendo isso do alto de sua falta do que fazer. Sim, água vira gelo, mas a geladeira pode a) queimar b) a cozinha pode pegar fogo c) o prédio inteiro pode desabar d) um avião da Qatar Airways pode cair com trezentas pessoas em cima da cozinha ou, quem sabe, a água pode realmente ficar lá parada até virar uma pedra de gelo. Aí, depois, as coisas ou continuam congeladas, ou viram refresco voltando a ser água e ao pó voltarás.

Fato é que nunca consigo relaxar. Quando não tenho, quero. Quando tenho, quero mais. E se tenho mais, tenho medo também. Quando tudo dá certo, tão certo e mais certo do que você jamais sonhou, a vitória do bilhão vem bem devagar. Como pode, com tantas possibilidades de coisas diferentes acontecerem, a minha coisa (aquela que eu queria que acontecesse) dar certo. Será que vou viver tão pouco, mas tão pouco, que tudo tem que acontecer em uma fração de segundos? Tudo tão assim ao-mesmo-tempo-agora?

17 de fevereiro de 2009

Desculpepormaisumvídeo.com

Por falar nisso...

550km, pára um pouquinho, descansa um pouquinho, 550km

Ontem foi meu primeiro dia de academia. Já fui algumas vezes, mas nunca passei da primeira semana. Correr sem sair do lugar é o maior impedimento que ainda tenho quanto ao exercício físico em si. Sei ser saudável, mas em Londres sempre optei por correr ou caminhar na rua (nas duas ocasiões em que optei por algo saudável). Aí sim, uma forma bem interessante de conhecer a área, fazer uma social, e trocar uma idéia com gente velha que está sempre disposta a uma especulada geral sobre a vida alheia.

No entanto, já estou inscrito e, em estando, penso ter emagrecido 10kg ao receber a carteirinha de membro do clube. Vem com o registro. Com a idéia de ajudar no processo da boa mentira para si próprio, assinalei Good Health no formulário de registro, quando na verdade o que quero mesmo é perder peso e ficar gostoso. Assim comecei bem ativo, correndo sem sair do lugar pelos motivos coerentes e corretos da boa saúde. Não pra sair lindo na foto da praia da Croácia em Agosto, mas pra ter a possibilidade de acreditar que posso chegar aos 90 quando ainda tiver 60 anos. Um bom investimento que espero reconhecer e valorizar quando chegar aos 90.

Fato é que: sou filho de meu pai e minha mãe e, em sendo, sei ser capaz de seguir a linha atleta com regularidade. Nem tanto por meu pai, que gosta mais das coisas que eu gosto - comida gorda e bebida alcóolica já com problemas de ordem gástrica no pacote - mas por minha mãe que faz duas horas de exercício físico diários aos 50 anos de idade. Praticamente a Madonna louca de Santa Catarina. Como dizem que você sempre acaba sendo aquilo que seus pais já são, podemos dizer que minhas chances de continuar a academia para o resto dos meus dias estão em 50/50. Por estar teorizando a respeito no segundo dia de exercício perco uns pontos, mas nada grave ou insuperável.

Outro dia cheio, enfim!

11 de fevereiro de 2009

Voodoo

Há coisas que dinheiro, uma boa roupa e a capa da Vogue não podem comprar.
Yes we can?

Já estou parecendo essa gente meio-burra-meio-sem-assunto, mas pra não dizer que eu não falei das flores essa semana, ontem o jornal da iTV mostrou um evento que reuniu milhares no Irã pra comemorar a revolução islâmica. Como todo bom jornal inglês, mostraram o presidente Mahmoud Ahmadinejad no papel de diabo muçulmano declarando que aceitaria o diálogo com os Estados Unidos desde que a mudança do império fosse genuína e respeitasse o Irã enquanto nação independente. Tudo muito justo e cada um no seu quadrado.

Como todo bom movimento popular, o povão compareceu em massa, levantando cartazes de causas que nem eles sabem muito bem explicar quais são. Já os entrevistados, sem exceção, falaram bem de Obama. Bandeiras americanas não foram queimadas, ninguém fez bonecos do presidente e, em um piscar de olhos, a opinião pública se voltou a favor da América. Se estivesse fazendo um curso mais interessante, minha tese seria a respeito da bela propaganda política do governo americano em torno desse filho do Quênia chamado Hussein.

O cidadão não existe, não é importante, não se destaca enquanto senador, não faz leis revolucionárias ou apresenta soluções políticas inteligentes. Um dia o senador Kerry vê que ele fala direitinho, investiga a fundo a história do fulano, checa o histórico de liderança acadêmica na lábia, e resolve oferecer um cargo de destaque preparando o monstro pra ser presidente da mais poderosa máquina capitalista do mundo. Obama é tão bom que nem precisa de muito mais. É preto, é simpático, mostra os dentes, se chama Hussein, vem do Quênia, nasceu na Indonésia, tem apelo popular internacional, e serve como prova de que a América mudou. Uma transformação tão rápida que ninguém sequer viu acontecer.

E aí, minha gente, o que acontece? Bom. Aí ele é jogado no centro da mídia, vira bom moço, concorre com o Bill Clinton no papel da mulher, faz um acordo fuleiro e ganha as eleições do partido. Ninguém sabe quem votou, mas ele ganha. Sua campanha é a que mais dinheiro arrecada na história das campanhas políticas ao redor do mundo. Ninguém sabe quem fez doações, mas todo mundo aceita quando dizem que foram os jovens do planeta. Eu não conheço ninguém que deu dinheiro, mas já que saiu na BBC e todo mundo repete o que ouve, já é. Obama usa a internet, posta vídeos no YouTube, tem um Blackberry e vira a Regina Duarte do mundo. A Helena do Manoel Carlos. Vira tudo. Pra todos.

Quando estive no Tibet, não se falava em outra coisa. Lá longe, em um lugar tão imensamente remoto, acredita-se que um só homem possa transformar o planeta a ponto de que o sopro da mudança seja sentido do alto das montanhas da fronteira com o Nepal. Igualmente, a mesma esperança e carência se traduz nos comentários otimistas de intelectuais de todo o mundo. A união do desespero da elite à ignorância de uma gente com fome. Obama já é o maior exemplo de que o marketing transforma a perspectiva de mundo de qualquer povo. Sendo bom e competente, consegue-se o quiser através de uma boa propaganda manipulatória. A massa vai, a massa faz, e a massa acredita que Obama, hoje, é presidente da América.

Há menos de um mês atrás Gaza fritava na mira de Israel. Hoje, dias após o combate, a cidade está destruída e esquecida. Não se fala em guerra, não se fala em mortes e não se fala em injustiça. Quem estava nas ruas protestando, está agora protestando sobre algo diferente, fritando um ovo ou gastando em cerveja. As vidas se foram com qualquer possibilidade de dignidade para um povo que sempre esteve na merda. E Israel? Bem. Israel está lá votando em um novo chefe de estado, colocando uma mulher no poder (a porra da moda e o marketing político) e falando da porra do Holocausto. Da porra do Holocausto. Bill manda em Hillary que manda em Obama que não manda em ninguém.

10 de fevereiro de 2009

All time favourite


Pra você que está em Londres, quer sair pra comer e não pode gastar muito, recomendo o Mem & Laz. Todos que já me visitaram por mais de três dias (incluindo mãe, sogra e toda a irmandade) sabem que se trata de um dos melhores mediterrâneos da cidade. Acabei de inventar, mas a Time Out inventa também. Recomendíssimo, vou todos os meses (em tempos de vacas gordas várias vezes) e não ganho comissão (ainda).

8 Theberton Street
London N1 0QX
020 7704 9089

O restaurante fica em Angel, off Upper Street. Sexta, sábado e domingo, almoço e janta, têm que reservar. O staff é turco e muito animado. Ideal pra comemorar o aniversário da prima chata que está mochilando com você há dois meses e meio. Encha a cara sozinha, vá de ladinho, e conte tudo pro garçom. Ele traz o bolo na mesa, pára o restaurante e faz a prima dançar em cima da cadeira aos aplausos da galera. Tudo pra não ter que voltar ao texto da China. Boa noite.
Patrick Swayze e a Revolução Cultural

Boa tarde. Atualmente minha vida consiste em um mar de artigos e relatórios sobre o sistema de negócios da Alemanha, a implementação de estratégias em multinacionais americanas, o sistema financeiro latino-americano (como assim), recursos humanos na Índia e outros que além de eu não entender muito bem, não me deixam nem motivado, nem animado, nem mais inteligente ou feliz. Quanto mais eu escrevo, e leio, e aprendo, mais vontade eu tenho de jogar minha mochila em uma fogueira, tirar a roupa e dançar a dança da chuva, pelado, no meio da rua. Que bobagem. Criancinhas desnutridas são comidas por urubus todos os dias na África, mulheres são estupradas em busca de água em Darfur e o moço de Ghost está morrendo de câncer pancreático.

Para sua informação, a ACFTU é o único sindicato de trabalhadores existente na China. Faz parte do governo, foi criada em 1925 e tem o maior número de membros do mundo (134 milhões de pessoas que sequer sabem o que a palavra sindicato significa). Trabalhadores chineses são proibidos de entrar em greve ou criar uniões independentes de trabalhadores. Obviamente, todos os que tentaram fazer um ou outro já não mais existem para contar o que aconteceu depois. As instituições sociais e políticas que modelaram o sistema de recursos humanos em prática na China foram influenciadas por comunistas soviéticos e chineses, valores do Confucionismo e órgãos Japoneses que detinham o controle da Manchúria no começo do século passado. Claro, como não poderia faltar, 2% do salário mensal de todos os 134 milhões de membros vai para a ACFTU. Essa é a parte boa do curso.

Por hoje é só pessoal.

9 de fevereiro de 2009

Gordos S.A.
Fluvia, a carioca gorda, deixou de ser faxineira e virou modelo plus size. Uma excelente idéia. Dois quilos a mais e eu já posso começar a procurar um agente. Hoje fui até a academia (a pé), fiz um tour guiado, saí, e voltei pra casa. Não tive coragem de pagar £60 pra andar sem sair do lugar. Marquei uma reunião amanhã as sete horas, mas já estou pensando em cancelar. Quero, mas não posso. Não posso, mas preciso tomar uma atitude drástica. Veja você mesmo, Fluvia é rica, feliz e não se pesa:

Você está rica? Posso dizer que, financeiramente, minha vida melhorou muito. Antes de ser modelo, ganhava o suficiente para sobreviver. Hoje, tenho um apartamento dúplex em frente ao Rio Hudson e uma casa de férias no México.

Quantos quilos você pesa? Não sei. Eu nunca me peso.

7 de fevereiro de 2009

Shit happens

Cometemos uma loucura no Tibet. Compramos dois quadros caríssimos em nosso último dia de Lhasa. Não sei se foi a falta de oxigênio ou a emoção de estar deixando a China depois de um mês na estrada. Sem dinheiro ou coerência, saímos de uma loja com duas peças lindas e caras. Uma delas, a menor, veio conosco e chegou inteira. Já a outra, a alaranjada com um elefante branco no meio, foi enviada por eles. Pagamos UPS e uma caixa que nos custou cerca de 30% do valor total da pintura. Recebemos o quadro quebrado ao meio em um embrulho de papelão da China Post.

Antes e depois:

E o sobrevivente (já não gostamos mais):

No ritmo

Limpa

Todas as semanas um mínimo de cinco sacolas grandes de lixo são retiradas do meu apartamento. Como eu ainda não pago pra me dar ao luxo de não reciclar, vivo colocando leite com papel, cotonete com restos de salmão e frutas podres com revistas. Sou mais feliz assim. E o mundo? Bem, o mundo vai acabar de qualquer maneira e não vai ser o meu lixo que vai fazer a diferença. A Austrália está queimando e tem gente que ainda perde tempo tentando salvar o planeta.

O ponto. O ponto é que quanto mais eu moro, menor fica a minha casa. Mesmo jogando tudo no lixo, reavaliando a necessidade de ter coisas desnecessárias, desfazendo-me de roupas que já não são usadas desde quando eu nem guarda-roupas tinha...mesmo assim as pilhas de livros, e de cds, e de bobagens em geral não param de crescer. Eu não sei por onde elas entram, de onde elas vêm e porque elas aumentam com tanta fome de armário. Nem dinheiro eu tenho, e a cada semana a minha casa vai sumindo no meio dos papéis.

Sempre tive vontade de morar em um lugar pequeno. Lembro de visitar a casa da minha babá e achar tudo maravilhoso. As paredes no tijolo e eu adorando a cama grudada no armário. Sempre voltava pra casa tentando convencer minha mãe a se mudar pra um lugar menor. Agora eu moro em uma casa pequena, como queria, mas já passou e pode ser mudar pra um apartamento maior. Hoje, abafado, joguei uma prateleira inteira de livros no lixo. Quem quiser ler, que compre como eu fiz. Os livros do lixo já estão misturados com a sobra do jantar.
Chupa que é doce

3 de fevereiro de 2009

As Domésticas

O pó e a poeira. “No oiar parece tudo a merma coisa, mas na formação é diferente. O pó é assim formado pelas coisas invisíveis que voa no ar, e aí fica visíve embaixo da cama, em cima dos móveis, entende? Agora já a poeira não. A poeira vem assim num acontecimento, de uma coisa que acontece na casa. Assim, um tal de geladeira, uma festa, uma bagunça, entende?”

“Nasce e morre, nasce e morre. Cada vez que a gente nasce é um tipo de gente. Uma vez nasce rico, outra nasce japonês, outra nasce comerciante, outra pintor de parede. Nasce hôme, nasce muié, nasce viado, nasce travesti. Nasce gorda, pobre, preta. Nasce valente, idiota, nasce de tudo, cada vez é de uma coisa. Deus é que vai escrevendo as missão que cada um tem que cumprir. Eu aprendi isso no espiritismo. É a reencarnação. Por que é que eu tinha de nascer assim desse jeito...pobre, preta, ignorante? Minha fia, tu tá amargando agora uma outra vida muito cheia de luxo, sabia? Não, eu não sabia de nada. A minha bisavó era escrava, a minha avó foi doméstica, a minha mãe quando eu nasci, ela disse que preferia me ver morta do que empregada doméstica. Eu sou doméstica”.

“Oia, no começo do casamento era muito bão, Nossa Senhora. Era o mesmo que tá num mar de rosa. Dizem que casamento só presta nos primeiros dias. Pra mim, ficar sozinha, ficava mais difícil, né? Eu digo, vou ficar com ele mermo que ele é bonzinho, não enche meu saco. A relação é mais ou menos, né? Porque ele em compensação, sobre o que eu acabei de falar. Dentro de casa ele é bonzinho, só que não é carinhoso comigo. Ele não liga de chegar e dizer tchau, tô indo. Na hora que ele tá saindo. ‘Tchau, tô saindo’. Ele é muito parado nessas coisas. Oi, de cama é pior, de cama é que é ruim mermo. Ele é parado de tudo. (...) Se a mulher tem um relacionamento legal de noite com o marido, ela fica com aquele pique, aquela alegria que passou um momento bão, né? Eu não, eu trabalho o dia todo, chego em casa, encontro ele parado, no outro dia, parado a merma coisa. Ôia, no começo eu até que insistia pra fazer sexo, mas depois que eu vi que ele era meio parado, deixo queto. Ele fica até oito dias sem sexo. Eu não sou parada, eu sou quente nessas coisas”.