O que os olhos não vêem (por enquanto com acento)Moro no mesmo apartamento desde Julho de 2007. Adoro meu apartamento e quanto mais em casa fico, mais em casa tenho vontade de ficar. O previsível atrai o ser humano. Piscou, virou vício. Da mesma maneira que todo mundo tende a sentar no mesmo lugar quando volta a um ambiente cheio de cadeiras, a casa da gente é aquele lugar em que tudo tem uma explicação e um sentido. Em casa nada precisa ser decifrado ou entendido. Você bate o olho, e já sabe antes mesmo de olhar. Daí o conforto.
Embora eu tenha vivido aqui durante uma quantidade de tempo bastante respeitável para os meus padrões pessoais, sempre descubro um detalhe diferente nas redondezas. Minha relação com o meu bairro funciona como um bom namoro. Aos poucos eu fui conhecendo, sabendo, e modificando a forma com que vi East Finchley (o nome do bairro, no caso). Uma região ou cidade podem também mudar, como mudam as pessoas. Às vezes você quer emagrecer e fazer exercício físico, e outras vezes decide falar francês. O bairro, também.
Quando saio de casa, sempre saio com três possibilidades de caminho. O mais rápido para a estação de trem é o caminho do meio, bem budista e simplinho. Não tem grandes paisagens e é prático como tudo o que é do meio deve ser. O principal, super importante, é o da High Road, que liga Londres à várias estradas que terminam em qualquer lugar. Já o outro, saindo à direita, leva a lugares horríveis da cidade. Uma parte de Londres que parece uma versão ruim de Guarulhos. Ou ainda, uma versão ruim da Guarulhos do Paquistão. Um horror, enfim.
No entanto, um pouco antes de Guarulhos, alguns lugares têm chamado a minha atenção. Um greasy spoon chamado Mr. Hunger, uma loja de produtos orgânicos com pessoas orgânicas dentro, um açougue de verdade com dois tios vestidos de jaleco branco, a porta que recicla cartuchos de impressora e, hoje, a venda do Nalim. Logo depois de chegar em casa, fui ameaçado de morte pela faxineira e precisei correr à venda mais próxima para comprar um produto de limpeza que estava faltando. Encontrei o produto, e conheci Nalim. Agora eu preciso escrever mais uma linha para que todos os parágrafos do texto terminem simétricos.
O Nalim é da Tanzânia. Quando ele me disse, eu fiz uma cara esquisita e disfarcei mentindo que já havia conhecido o país (ele inclusive perguntou pra onde eu fui, mas como eu não sei nem o nome da capital menti que havia visitado as montanhas - ele deu o nome, e eu confirmei). Ficamos de papo cerca de 40 minutos. Ele chegou no Reino Unido muito jovem, em 1971, e pediu asilo político por algum motivo que eu desconheço por não saber sequer o nome da capital da Tanzânia. Logo depois dele, a família inteira se mudou, incluindo pai mãe e cachorro. Nalim trabalhou no Royal Mail por cinco anos, e há exatos 30 anos atrás (30 anos no sábado) abriu a loja aonde o conheci.
Nalim é bem fofoqueiro. E eu, sou também. Trocamos idéias a respeito de todos os personagens do bairro e ele me contou fofoca até de quem eu não conheço (uma ex-freira que ficou grávida e foi expulsa do convento há mais de vinte anos atrás - ótima a história). Nalim me contou quem usa drogas, quem tem filho preso, quem é perigoso, e quem é apenas maluco. Só as fofocas quentes. Mas não só. Nalim disse que sofre preconceito até hoje, e que ontem mesmo um Inglês entrou na loja dele reclamando que nós estrangeiros estamos tirando os empregos dos filhos de quem nasceu aqui (que pena, mas eu não tenho culpa nesse papo de recessão).
E Nalim é categórico: há trinta anos era pior. Há trinta anos, uma gangue de skinheads atacava a loja dele todos os meses por mais de um ano, até Nalim cansar de trocar os vidros e eles cansarem de quebrar os vidros novos. Ele diz que de tempos em tempos a janela da casa dele amanhece quebrada, mas que já se acostumou. E que gosta de morar aqui. Disse que gosta da Inglaterra porque na Tanzânia ele não conseguia dormir tranquilo à noite. Que tinha medo de morrer. E que reparar a janela é melhor do que viver sem ter a certeza de uma noite de sono. Achei que fez bastante sentido.
Nalim não tem vontade de voltar. Mora na Inglaterra há quase 40 anos, e aqui tem todos os amigos e familiares. Disse que a Tanzânia não lhe deu oportunidades, e o proibiu de exercer direitos básicos de qualquer cidadão. Que deixou a Tanzânia machucado, e que lá também deixou o seu amor por sua terra. Nalim disse que não quer voltar, e que não quer mais passar trabalho. Que já chega. Que já cansou de apanhar e se considera bem sucedido o suficiente. E bem sucedido de fato é. Nalim tem três lojas como aquela. E seu maior orgulho na vida, disse ele, foi nunca ter fumado, bebido álcool ou comido carne conforme prometeu para sua mãe antes de sair da África. Acho que ele é uma pessoa feliz. E eu sou definitivamente melhor depois de te-lo conhecido.