25 de março de 2009

Red Cross e tuberculose

O mundo é pequeno. Em Abril de 2007, Eduardo e eu conhecemos uma espanhola chamada Estela durante um vôo de Londres para Amsterdan. Ela estava indo pra Beijing com uma amiga, e nós a caminho do Egito para nossas férias de Páscoa do ano passado. Mesmo morrendo de medo, em um vôo super turbulento, puxamos um assunto e batemos um papo ótimo. Estela trabalha no Google. Mandy, que ainda não conhecíamos, vinha em um vôo diferente, um pouco mais tarde.

Quando chegamos no aeroporto, combinamos um horário no bar do saguão. Nada melhor do que matar tempo de espera em aeroporto. Lá conhecemos Mandy George, a amiga inglesa de Estela, e descobrimos que Mandy era amiga de Khalid, de Dubai, amigo de Eduardo, dono da Qasimi. Na hora ficamos três vezes mais amigos, já mandando mensagens para Khalid e organizando um encontro que nunca aconteceu. Essa é a história de nós quatro.

A Mandy, chamada Amanda, é uma mistura de Inglês com Argentino. Não sei quem é quem na família, mas é assim que é. Como ela fala espanhol fluente, conversamos o tempo todo em Espanhol, tornando o papo ainda mais gostoso. Mandy e Estela são excelentes e continuamos em contato através do Facebook, de vez em quando trocando mensagens rápidas com promessas de encontros que pelo visto jamais demorarão para acontecer. Mas Londres é assim mesmo e já estamos acostumados.

O ponto é que Mandy trabalha para a British Red Cross. Deixou a vida de escritora de viagens, fez um mestrado em Environment and Development Studies na minha universidade, e trocou de emprego. Agora viaja pelo mundo como Communications Officer da ONG e acaba de voltar de um giro pela Ásia Central atrás de histórias sobre Aids e Tuberculose nos programadas desenvolvidos pela organização na região. Tudo muito interessante, enfim.

A Mandy tem um blog na Reuters AlertNet, cobrindo seus trabalhos mais recentes no Kyrgyzstan (não sei o nome em português) e na Mongólia. Quem quiser mais informações sobre os projetos de combate à tuberculose da British Red Cross na Ásia Central, clica aqui. Ou aqui. E lê vários relatos no site da BBC. Até mais ver.

23 de março de 2009

Benazir Bhutto


Acabei de ler o primeiro livro de Benazir Bhutto - Daughter of the East. O livro começa contando a história da família Bhutto no Paquistão e dando uma noção geral a respeito das principais questões políticas e religiosas da região desde a separação da Índia em 1947. O pai de Benazir, Zulfikar Ali Bhutto, foi o primeiro líder do país à assumir o poder através de um processo eleitoral democrático. Exerceu dois mandatos, foi derrubado por um golpe militar na década de 70, enforcado em 78 por um ditador sem escrúpulos, e honrado pela filha mais tarde, já na década de 80.

A família Bhutto está para o Paquistão como os Kennedy estão para os Estados Unidos. Uma mistura concentrada de Sarney e Magalhães tupiniquim. Lá, como em qualquer outro lugar do mundo, poder também passa de pai pra filho. A história de Benazir, no entanto, difere das outras por seu contexto no Oriente Médio, sua formação Ocidental (Harvard e Oxford), seu sexo, sua idade e a evidente determinação pela instituição de valores democráticos em um país amplamente dominado e manipulado por líderes religiosos islâmicos.

Particularmente interessante são os relatos de Benazir a respeito dos cinco anos que passou presa, dos sacrifícios que escolheu bancar em nome da liberdade de seu povo e seu partido, e da persistência em limpar o nome da família Bhutto no Paquistão. No mundo moderno e sujo em que vivemos, perseverar é preciso. Poucos são aqueles que verdadeiramente lutam pela democracia, tentando incentivar o crescimento econômico em áreas do mundo em que a ignorância impera através de movimentos fundamentalistas de todas as formas. Ignorância é o alimento dos sem escrúpulos com sede de poder.

Após a morte de seu pai e dois dos seus irmãos - todos assassinados por ditadores do Paquistão - Benazir deu sequência a sua luta que a viu subir ao poder duas vezes. Em 1988, ela tornou-se a primeira mulher eleita em um país muçulmano e a mais jovem mulher eleita ao cargo máximo político de um país em todo o mundo. Uma vitória que, como todas, também teve seu preço. Benazir levou uma vida dedicada à conquista do poder, ao jogo de cintura e negociações com ditadores e líderes da oposição, à glória da família Bhutto e ao também imenso patrimônio deixado por seus antepassados - sua família é até hoje considerada como uma das mais ricas do Oriente Médio.

Obviamente, suas tentativas fracassaram ao enfrentar setores da sociedade que ainda favorecem a implementação da lei Sharia e a difusão de valores islâmicos na condução econômica da nação. Como no Irã na época de Shah Reiza Pahlavi, Benazir foi expulsa duas vezes ao peitar membros de facções terroristas apoiadas pelo exército. Penou, mas mostrou ao mundo que o progresso de nações muçulmanas como o Paquistão é possível. Foi premiada por diversas organisações internacionais pelos avanços sociais conquistados durante o seu mandato, implantou uma linha moderada de diálogo político baseado na liberdade de expressão e abriu as portas do país ao capital estrangeiro.

Daughter of the East foi uma das melhores compras literárias dos últimos tempos. Um sistema democrático beneficia o povo, e torna países antes fechados em nações capazes de competir em um mundo que jamais deixará de ser globalizado. O Oriente, e principalmente o Oriente Médio, poderá demorar a aprender, mas uma hora entenderá a necessidade de urgente adaptação política. Bush foi ao Iraque, destruiu o país e alegou uma busca tola pela democracia, enquanto no Paquistão seu maior aliado Musharraf comandava um governo totalitário sangrento. Benazir foi assassinada por militantes islâmicos em Dezembro de 2007, mas sua coragem e seu legado entraram para a história.

"Our lives begin to end the day we remain silent on things that matter". Martin Luther King.

14 de março de 2009

Three Colours: Blue

Verão


Londres é cinza por natureza. Dá a clara impressão de que todas as nuvens do mundo são produzidas sob as nossas cabeças. Londrinos em geral são tão carente de luz solar, que a simples aproximação de um período mais extenso de sol já faz com que todos cometam pequenas loucuras. A gente gasta por osmose. E começa a falar de sol desde Janeiro. Quando não chove, é porque já é Fevereiro. Quando alguém sorri mais largamente, é a primavera, e as flores, e a miséria de morar bem acima dos trópicos.

Mas todo mundo se entende. Enquanto no inverno todos na rua tem cara de assassinos, verão em Londres é a oportunidade de virar o mocinho. De pagar de noviça rebelde. Tempo bom em que todo mundo faz planos de fazer alguma coisa, por menor que a coisa seja. Aqui em casa vamos para a Croácia, com sorte daremos um pulo em Begur e Barcelona e, claro, queremos várias outras coisas que nem cabem em um post. É sempre bom começar querendo cem coisas. Cresce a possibilidade de realizar as cinco melhores.

Outro plus do verão é que a programação cultural também aumenta. Inverno, a época da engorda, é o tempo de conhecer os restaurantes novos da cidade. Já verão, a época da academia, exige uma sacola de frutas e um sanduíche, e vários bilhetes para atrações diferentes. Aos poucos, e com a permissão da minha tabela do Excel, vamos marcando nossos compromissos culturais. Até agora já foram Michael Jackson, Madame de Sade e Vanessa da Mata. E que venham os próximos. A luz do sol é o melhor desinfetante que existe.
This is it


Compramos quatro ingressos para assistir Michael Jackson em Agosto. Somos dois, e estamos vendendo os outros dois por £300 cada. Do alto da torre do castelo, bem alienado às coisas mundanas como tenho estado, achei que eram dez os shows marcados em Londres. Foram cinquenta. Mais de um milhão de bilhetes já foram vendidos nessa que tem tudo para ser a despedida do astro na Inglaterra. Aos brasileiros, que preferem New York por tradição, acredito que uma nova chance ainda está por vir.

Ainda não entendi muito bem como uma pessoa que não tem condições mentais de sequer falar em público conseguirá quebrar a marca de 50 espetáculos consecutivos. Nunca estive em tour, mas ouvi dizer que a exigência psicologica e física é tremenda. Tenho esperança que ele sobreviva ao fim de Agosto. Em homenagem a mim mesmo, uma foto de quando Michael Jackson ainda era feito de carne e osso. Aqui em casa o curso intensivo já começou. Até Agosto eu aprendo todas as letras.

12 de março de 2009

Aborto

A igreja no Brasil deve estar feliz.
Nespresso boutique


Uma homenagem do blog a todos os viciados em café e máquinas da Nespresso.

11 de março de 2009

Eu vou vou vou

10 de março de 2009

600 meses de merda

O mundo é movido à dinheiro. Sendo assim o mundo, todas as invenções que fizeram o impossível caber no bolso são hoje de fácil acesso àqueles que muito tem. Todos tem sempre tanta coisa que a barreira entre o real e o que não existe há muito deixou de existir. No mundo desenvolvido, o que importa é que todo mundo é. Ninguém sabe muito o que, mas encontramos no ato sozinho de ser a razão de estar sendo alguma coisa. Por outro lado, quem nada é e pouco tem, se fode.

Hoje mesmo, nesse momento, nós todos comemoramos os 50 anos de sofrimento de um povo que não interessa. Estamos em festa, sem saber como ou porque. Festejamos juntos a desgraça humana de muitos e tantos que já nem sabemos quantos. O começo do fim de uma cultura tão distante, que foge aos olhos nus, e perde o sentido para o resto daqueles que estão do outro lado. Celebramos assim mais uma fase desgraçada de um povo ignorante que aconteceu de nascer em uma das regiões mais ricas em recursos naturais do planeta.

Quem já foi - e quem não foi também - sabe que a questão do Tibet não é uma historinha simples de se resolver. Explorados por todos os que um dia já dominaram suas terras, os tibetanos continuam na esperança de sobreviver ao dia em que verão seu líder espiritual e político retornar ao lugar em que pertence. Sonham com a possibilidade de exercitar livremente o direito de serem quem são, e de acreditar abertamente naquilo que já foi. No entanto, para que isso aconteça, tantas são as águas a rolar que esperança já não há.

Hoje meus pensamentos estão com aqueles que não sabem se seus filhos estão vivos ou mortos por terem lutado pela liberdade de um povo que não interessa à ninguém. Fico triste por saber que a inocência não é mais valorizada. Que a tolerância às atitudes assassinas de um governo totalitário é priorizada por questões financeiras. E que embora o mundo, e mesmo o povo do Tibet, tenha depositado tanta fé em um desconhecido-ninguém-preto que subiu ao poder dos Estados Unidos em 2009, a política externa pegajosa e grotesca de Hillary Clinton destruirá o resto de tudo aquilo que um dia já foi construído.

7 de março de 2009

No cu do padre

Não li em lugar nenhum, mas ouvi falar que um padre-bispo-safado baniu meia dúzia de pessoas envolvidas no aborto induzido de uma criança de 9 anos que ficou grávida de gêmeos após ser estuprada pelo padrasto. Praticamente pior que o Holocausto. Parece também que ele disse que aborto é um pecado maior do que estupro. Ou que aborto é pior do que estupro. Praticamente bem pior que o Holocausto. Quanto mais eu repito a mesma frase, menos sentido ela faz.

Sim. Eu sei. Padre educado não existe. Religião e cultura não caminham juntos. Não existe vestibular para padre. A igreja tem um poder excessivo no Brasil. Qualquer declaração dessa massa de padres pedófilos cai na mídia, e a maior parte dos fiéis cai em massa na rede da ignorância. Sei também que existem pessoas genuinamente dignas na igreja. E que uma minoria honesta ainda entra para a igreja em serviço da comunidade (só não sei onde). Mas daí pra ter que ouvir que aborto é pior do que estupro, e tolerar a atitude de banir uma criança estuprada de 9 (nove) anos, não dá.

Deveriam mandar dois jumentos de 30 centímetros cada para uma visitinha oficial na sacristia deste padre filho da puta pra que ele sinta na pele a emoção de ser vítima de estupro. O pecado aquele, que é bem melhor do que aborto.

4 de março de 2009

CHUPA BRASIL!

3 de março de 2009

This Water

Todos os dias duas jarras de suco natural eram preparadas em Barbacena: limão e maracujá. Fora a limonada de minha mãe, a única receita compatível que encontrei em minhas andanças foi a de um shopping center de Miami. Um acontecimento tão marcante, que na limonada tenho minha única lembrança da cidade inteira. Pedi duas bem geladas, estupidamente deliciosas e imensamente superiores a qualquer outra coisa que eu já havia bebido antes. Praticamente um atalho para o nirvana.

Aqui, apesar de ouvir críticas frequentes à comida da Inglaterra, gosto de tudo o que experimento. Gosto de provar o novo e esperar sempre pela abundância do inesperado. Pago pela comida, pela variedade, e pela possibilidade de estar em cozinhas de países diferentes a vinte minutos de casa. Um grande problema, no entanto, é a ausência de sucos que possam servir de apoio para os pratos. Os de caixa são um horror e natural, aqui, é outro papo. Ou você bebe maçã com laranja e cenoura (bebi no sábado) ou expreme a laranja em casa.

No entanto, tudo sempre pode ficar melhor. A solução para quase todos os meus problemas chegou há duas semanas nas mãos de meu salvador - 450ml de puro prazer. Finalmente, depois de anos de pequenos pedidos internos, um suco criado para satisfazer os meus mais profundos desejos, lindamente embalado e à preço de banana (£1.85). A partir de então eu quero sempre, compro sempre e corro sempre (pra gastar o consumo extra de calorias).



Estou nas nuvens, e encontro o nirvana uma vez ao dia. Obrigado a todos expremedores de limão da This Water por existirem para que eu seja feliz.

1 de março de 2009

Highlights


Li ontem no The Times que a igreja católica recusou o pedido de desculpas do bispo Richard Williamson por ter colocado em dúvida a possibilidade de a Alemanha nazista ter matado judeus por asfixia em câmaras de gás durante o Holocausto. Uma péssima atitude de um papa gay e nazista. Achei que o Vaticano pregasse o perdão. Deve ser a globalização mudando a linha de pensamento da igreja católica.

Encontrei uma entrevista excelente do Charles Saatchi, o papa da arte moderna. Esse, por sua vez, um papa mais coerente. Veio para a Inglaterra, do Iraque, aos 4 anos. Nunca dá entrevistas. E tem muito dinheiro, fruto de uma vida de investimentos em artistas desconhecidos que através de suas mãos - e suas galerias - se tornam astros de renome internacional. A entrevista é de duas mulheres beges chamadas Alice Thomson e Rachel Sylvester. O resultado final é colorido graças a ele.

Mudança na rota do pó. Se antes a droga viajava da América do Sul até a Europa de forma direta e objetiva, agora os cartéis colombianos descobriram que o processo se torna mil vezes mais eficiente com uma paradinha nos países da África ocidental. O principal destino é a Guiné, que fala português (e crioulo) e dá conta de 50 toneladas de cocaína por ano, no valor estimado de £1.4 bilhões (quase R$5 bilhões). Só na semana passada, a Espanha confiscou 5 toneladas de pó em um navio chamado Dona Fortuna, com cinco tripulantes venezuelanos. Calcula-se que um terço da droga consumida regularmente por 4 milhões de Europeus faça o caminho acima mencionado.

O governo da França, liderado por um presidente que não bebe, está avaliando uma proposta de lei que proibirá a degustação como forma de promoção comercial. Acredita-se (eles acreditam) que essa estratégia de marketing incentiva adultos alcoolatras e menores de idade ao consumo de bebidas alcóolicas. Essa foi eleita (por mim) a maior merda que li durante o fim de semana. O produtores estão, com razão, revoltados com a iniciativa uma vez que o consumo de vinhos franceses diminui de 100 litros por pessoa nos anos 60 para 55 litros em 2009. Uma queda brusca que deveria ser amparada pelo governo. Adorei a declaração de um deles:

"Em nossa família, nós começamos a degustar vinho desde os 5 anos de idade (!!!) e meus bisavós morreram entre 93 e 100 anos. Como vinho pode ser ruim para as pessoas? Nenhuma das campanhas de saúde em prática no momento faz efeito em pessoas viciadas em álcool. Elas apenas desencorajam pessoas que bebem moderadamente sem correr risco nenhum. É como se banissem açúcar na Europa por causa dos níveis de obesidade nos Estados Unidos." É isso aí, tio. Pau nos cornos.

Sobre pessoas com a boca pra dentro. Nunca confie em alguém que tem a boca virada pra dentro. Isso é amargura acumulada. A forma física da angústia. Gente assim é capaz de fazer qualquer coisa pra vencer, seja lá o que vencer signifique pra eles. Por isso, eu sempre desconfiei da Ingrid Betancourt e essa questão de ela ter sido presa por seis anos, sendo liberada do nada em uma operação super mal explicada que todo mundo, como sempre, engoliu. Agora os amiguinhos de cativeiro dela vieram à tona dizendo que ela ajudava seus sequestradores a policiar os outros reféns. Já têm uns seis jogando merda no ventilador. Isso não vai acabar em nada porque ninguém se interessa pela América Latina, mas meu amor esse amor estava escrito nas estrelas.


Domingo de almoço com os amigos no Elk in the Woods, compras em Carnaby Street e uma academia rápida antes de voltar pra casa e cozinhar algo bem saudável. Um daqueles dias em que se você pudesse escolher, continuava sendo você mesmo.