30 de abril de 2009

Advogados, engenheiros e médicos

A esmagadora maioria dos políticos dos Estados Unidos são formados em Direito. Obama é de Harvard, Hillary Clinton de Yale, Joe Biden de uma outra meio desconhecida e, assim como eles, quase 60% de todos os outros. A Economist explica que o sucesso de advogados em países democráticos desenvolvidos pode ser justificado por questões práticas do Direito como a determinação e a implementação da justiça na sociedade, o balanço entre liberade e segurança, e a obcessão por termos como inocente e culpado (o eixo do mau).

Já do outro lado do mundo, na China, 40% dos políticos são formados em engenharia. Hu Jintao, Jiang Zemin, Wen Jiabao e afins. Durante o Maoísmo, enquanto educação de uma forma geral era repetidamente reprimida por medidas do sistema, engenharia parceria ser uma área segura para aspirantes a uma carreira de sucesso. Fortemente influenciada pela União Soviética, a China nutria a mesma paixão por grandiosidades. Enquanto a União Soviética investia em Sputniks e tentativas de reverter o fluxo dos rios, a China contruía pontes, prédios e monumentos. Quanto maior a obra, maior o status do engenheiro.

No Brasil, quase 20% de todos os políticos são médicos. Nosso sistema público de saúde é uma piada, o governo é altamente corrupto e todo mundo só se fode. É claro que o fato de a medicina ser uma profissão altamente reconhecida no país deve ter uma explicação mais coerente, mas eu prefiro acreditar no boca a boca que leva a elite a acreditar que profissão boa de verdade, é aquela de hospital. Como médico entende mesmo é de corpo humano, a política nacional continua jogada às traças, meio sem saber o que fazer ou pra onde correr. Até nosso próximo presidente, é médico.

29 de abril de 2009

Pela raíz

"Ah, o problema é porco?"

28 de abril de 2009

Tbilisi


Domingo foi o primeiro dia verdadeiramente bonito que pegamos em Londres este ano. O sol estava lá do início da manhã ao fim da tarde, e por isso aproveitamos pra caminhar de Holloway Road até Clapton. Fechamos as três horas de caminhada com bolhas nos pés e, bem felizes, decidimos experimentar um restaurante de comida da Geórgia, que vive sendo recomendado pela Time Out.

Finalmente um restaurante diferente que não parece indiano, e não tem noodles no menu. Tbilisi foi uma ótima decisão, e certamente receberá novamente uma visita em 2029. Não vou ficar falando de comida pelos mesmos motivos de não ter falado sobre muito sobre arquitetura no post anterior, mas comemos Chakhokhbili e Chakapuli, recomendados por uma simpática garçonete falante que não consegue se expressar em Inglês.

As trombetas

Em duas semanas tenho meus exames finais do mestrado. Um total aproximado de 16 perguntas sobre 4 matérias diferentes, fazendo um apanhado desnecessário de todos os assuntos abordados durante os últimos 10 meses de curso. Fica aqui oficializada a minha promessa pública de nunca mais fazer matrícula em um curso tão difícil, complexo, e cheio de provas. Hoje eu estou, então, morto e enterrado. Já ouço de longe as trombetas do apocalipse. Boa noite.
Gripe x crise

Com a nova moda da gripe do porco ninguém mais fala da crise econômica. É impressionante como ficou cada vez mais fácil controlar o que as pessoas ouvem, falam e pensam.

26 de abril de 2009

Dos Jerônimos


Sempre que aprendo sobre arquitetura, sinto imediatamente aquela culpa judaico-cristã já pesando atrás do pescoço, prevendo o esquecimento de uma semana depois. Embora Lisboa não tenha me conquistado, o Mosteiro dos Jerônimos é realmente excepcional. Tenho certeza que os estilos são completamente diferentes, mas olhando de fora, o Mosteiro parece um primo alongado da Catedral de Milão. Meio branca, meio grande, meio cheia de detalhes.

Dentro, de acordo com o meu guia, o Mosteiro é todo em estilo Manuelita - uma versão portuguesa e tardia do Gótico - com influências do Renascimento e vários motivos naturalistas (frutas nas janelas e pilares que lembram palmeiras). A parte de dentro lembra muito as igrejas de Salisbury, mas como não entendo o suficiente vou ficando por aqui com meus comentários de cunho artístico. No fim das contas, tudo deve vir do mesmo lugar (Roma, Grécia e afins). Nada se cria, tudo se copia.

Como acabamos de ler uma coleção de história do Brasil escrita por Eduardo Bueno aqui em casa, Lisboa foi ótima como exercício de fixação. O Mosteiro dos Jerônimos foi construído por D. Manuel I na época das grandes navegações, em também homenagem a Vasco da Gama e seus descobrimentos. Depois disso, o Mosteiro foi amplamente utilizado como ponto de partida das naus que atravessavam o Atlântico para trazer mais dinheiro do Brasil, sobrevivendo ao terremoto de 1755 e tornando-se um dos principais pontos turísticos de Lisboa nos dias de hoje.

Tudo muito bonito e super recomendado. Lá estão enterrados Vasco da Gama, Camões, Fernando Pessoa, D. Manuel I e D. Maria (não a louca, a outra). Os últimos dois estão tão escondidos que sequer chegamos a ver. Uma pena, já que a história dos dois é ótima. O Rei, D. Manuel I, casou-se com a irmã de Maria, chamada Isabel, que morreu parindo. Em uma política de aproximação de Portugal à outra casa real peninsular, D. Manuel casou-se com a irmã Maria, que também morreu aos 35 anos depois de dar 10 filhos ao Rei. Mas essa já é outra história.

Domingo de meio sol meio não.

24 de abril de 2009

Álbum

Ainda existo, já voltei de Portugal e as fotos do fim de semana em Lisboa estão aqui. Nada demais. Lisboa também tem várias igrejas e um homem em um cavalo na praça principal, como todas as outras cidades da Europa. Tem também fado, mas caímos em um tourist trap caro e horroroso e, enfim, é melhor esquecer. Fomos para trabalhar. Assim que tiver um pouco mais de tempo, provavelmente amanhã, volto a postar. Um beijo e um queijo.

15 de abril de 2009

Lisboa

Portugal

Minhas costas doem muito. Passei o dia inteiro sentado em uma posição ruim, sem perceber. Eu e uma pilha de coisas pra resolver até amanhã ao meio-dia. Pra piorar, a casa está uma zona e as malas precisam ser feitas. O sistema de check-in online da TAP resolveu dar pau, implicar com o meu sobrenome, insistir em dizer que eu não existo. Sempre tem que dar uma merda. Fico até o dia 22 em Portugal, passando o fim de semana em Lisboa, que não conheço. Não conheço e continuarei não conhecendo porque vou a trabalho e tenho apenas um dia de folga no total. Um beijo pra minha mãe, pro meu pai, pra minha irmã e outro especialmente pra você. Fui.

13 de abril de 2009

Lei marcial e o Ocidente

Há tempos que fico irritado com as tentativas fracassadas dos Estados Unidos em tentar oprimir a constituição jurídica de países muçulmanos como o Afeganistão. Com cultura não se brinca, e religião também é cultura. Aqui na Inglaterra estou cansado de ouvir rompantes desnecessários de pessoas ignorantes condenando a formação social do Oriente Médio, e vomitando idiotices sobre o papel da mulher, os hábitos familiares e valores que não pertencem ao mundo ocidental.

Política - e por tanto, lei - tem importância religiosa no mundo árabe, muito mais do que no mundo cristão. Jesus disse (ou dizem que disse) que o seu reino não era deste mundo. O Corão pede que uma sociedade justa seja criada de acordo com seus preceitos. A situação geral da sociedade no mundo árabe, para eles, é uma reflexão direta das condições do próprio Islã. Democracia, como diz o artigo, significa o governo pelo povo e para o povo. Se o povo quer comer merda, que merda seja dada para o povo.

Sim, algumas pessoas no próprio Afeganistão se colocarão contra a implementação da lei marcial. É normal que opiniões sejam divididas, afinal a maioria não fala por todos. Um exemplo muito pior de ataque à democracia, se você parar pra pensar, foi o envio de tropas inglesas para o Iraque quando a maioria da população era contra a guerra.

11 de abril de 2009

100.000 trilhões


Eu não sabia. Parece que se juntarmos todas as formigas e todos os seres humanos do mundo, o grupo das formigas ganha pesando 10% a mais. Elas constituem a maior população animal do mundo, divida em aproximadamente 18 milhões de espécies diferentes. O maior formigueiro, encontrado no Japão em 1970, estava espalhado por uma região de mais ou menos 2km quadrados. Eram 1 milhão de rainhas e 300 milhões de operárias, juntas. Dizem por aí que a população mundial de formigas chega a 100.000 trilhões. Go figure!
Sábado

Bom dia. O sábado amanheceu uma merda novamente, mas hoje a programação é intensa. Sol mesmo, parece que apenas terça-feira quando o feriado chega ao fim. A idéia hoje é almoçar no centro, escolhendo um dos cheap eats selecionados pela Time Out na semana passada, e correr para o British Museum já que temos tickets para Shah Abbas. Em um mundo ideal, depois eu teria tempo para o V&A, porque gostaria de conhecer a galeria fotográfica deles, mas nem sempre as coisas acontecem da forma que planejamos.

Depois, existe a possibilidade de visitarmos o novo empreendimento de meu amigo Dan, Dalston Superstore (ainda sem site), em Kingsland High Street. Do contrário, temos uma festa de aniversário de uma pessoa que não conhecemos, ou podemos voltar pra casa e cozinhar o frango na cerveja que minha mãe enviou por email. Ia fazer ontem, mas acabei com preguiça de sair de casa para comprar sobrecoxa e cerveja. Em um mundo ainda mais ideal eu consegueria fazer tudo isso e ir para a academia, mas o mundo ideal não existe.

E uma rápida para começar bem o dia.

Em 2000, a China formava 1 milhão de estudantes por ano em cursos de nível superior. Em 2008, formou 6.1 milhões, quase seis vezes a mais. Calcula-se (o governo) que o número subirá para mais de 7 milhões em 2009, e assim pra sempre até atingir 7.6 milhões de formandos em 2011. Ensino superior cria mão de obra qualificada e mão de obra qualificada gera desenvolvimento econômico, mas em épocas de crise, as coisas não são tão simples assim. A China é a fábrica do mundo, mas o mundo precisa voltar a consumir para que haja criação de emprego pra todos estes estudantes.

Quando li isso tudo, fiquei curioso e visitei a página do Inep. Parece que o Ministério da Educação quer esconder a quantidade exata de estudantes que se formam por ano no Brasil. Quando você clica em censo, um documento do Excel com milhares de tabelas diferentes é oferecido para download. Muito confuso. O governo no Brasil parece estar mais preocupado com o número de matrículas do que com o número de pessoas que efetivamente terminam os cursos. Segundo um site chamado Universia foram 3.9 milhões de estudantes em 2003. Já em 2007, o número subiu para 4.8 milhões de estudantes, segundo o site da CONTEE.

Entre os países que fazem parte do grupo OECD, a gente logo percebe a diferença. A Austrália, com uma população estimada em 22 milhões de pessoas, tem aproximadamente 60% de seus jovens no ensino superior. No ranking, seguem Islândia, Nova Zelândia e Finlândia com 50% ou mais. Até a União Européia, já incluindo os novos países do leste, tem um índice de 40%. É claro que não dá pra sair comparando maçã com jabuticada (!), mas a Índia tem um total de 48.7 milhões de graduados no país. Tire você suas próprias conclusões.

10 de abril de 2009

Doença de Chagas


Li que a doença de Chagas atinge cerca de 18 milhões de pessoas na América Latina. Destes, 6 milhões morerrão de problemas cardíacos causados pelo parasita. Quando li, lembrei vividamente de aprender sobre o barbeiro na escola. A idéia de haver no mundo um bicho pequeno e aparentemente inofensivo capaz de transmitir uma doença fatal e irreversível me assusta até hoje. Quando fiquei sabendo de um caso isolado em Santa Catarina no ano passado, agradeci imensamente por morar na Europa.

Na Argentina, a incidência da doença cresce a passos largos. Uma coisa que eu realmente não sabia, esclarecida pelo artigo de hoje, é que mosquistos e outros insetos que picam hospedeiros são imediatamente infectados e podem, por tanto, atuar como vetores. Achei que isso não era possível. Esse é, inclusive, um dos motivos pelo qual a doença na Argentina está se proliferando tão rapidamente. Com o aumento de imigrantes bolivianos nas regiões do norte da Argentina, aumenta também o número de potencial hospedeiros. Aonde há mato, há mosquito, e se há também alguém contaminado...foi bom não ter sabido disso antes.

Calcula-se que um quarto das crianças que vivem na parte rural do norte da Argentina estejam infectadas, mas nada é tão ruim quanto na Bolivia (pra quem já achava que eu estava cuspindo preconceito no parágrafo anterior). Lá - na Bolivia rural - 70% das crianças carregam a doença de Chagas. Quando detectada no início, a doença tem cura. Os sintomas, no entanto, aparecem somente anos ou décadas depois do contágio e, é claro, governos federais aproveitam a conveniência da demora para tratar o assunto como algo não tão urgente quanto doenças mais rápidas e características.

No Brasil, sucos são os principais responsáveis pela propagação da doença de Chagas. Com a fruta, vetores e suas vezes são espremidos, contaminando pessoas saudáveis quando consumidos. A urgência do combate à doença cresce na medida em que cidades inteiras são tomadas por surtos - como Arequipa, segunda maior cidade do Perú. Mas, como tudo vira bosta, a indústria farmacêutica Latino Americana ainda é mais de dez vezes menor e menos experiente do que sua colega Norte Americana. Enquanto os barbeiros não chegam aos Estados Unidos, a América do Sul vai ficando assim, ao léu.
Metendo a colher

Bem metido nosso presidente preto. Veio pra Europa, desfilou na Alemanha e foi dizendo pra todo mundo que a Turquia deveria ser aceita como país-membro da União Européia. A Economist dessa semana diz que mesmo conhecendo a posição radicalmente contra da França e da Alemanha à respeito da inclusão da Turquia, Obama foi até Istambul dizer que os Estados Unidos são a favor de que o acordo seja assinado o mais rápido possível. Eu me pergunto se a reação de Obama seria parecida com o silêncio de Merckel e Sarcozy se a União Européia sugerisse que os Estados Unidos deveriam abrir as fronteiras com o México, e derrubar as barreiras protecionistas que mantém no comércio de produtos bem específicos com os países do NAFTA. Pimenta no rabo dos outros, é refresco.
Páscoa

Bom dia e feliz Páscoa. Não sabemos ao certo se a Páscoa é hoje ou domingo. Não comemoramos. Acordamos com a intenção de ficar em casa e, para contribuir, o dia amanheceu uma merda. E continua uma merda até agora. Tive um surto e assinei várias revistas que sempre compro, e estou com uma pilha de coisas pra ler, bem do jeito que gosto. A primeira notícia do dia é a de Sohan Dosova, uma senhora de 130 anos do Kazakhstan (faça um Google você para o nome do país em português). Ela ainda canta e anda, lembra da época do Tsar Nicolai, e diz que o segredo é manteiga no chá. Sohan é a esperança de ainda termos muitos anos pela frente. Até mais.

8 de abril de 2009

Coca-Cola e Innocent Drinks



Quem mora no Brasil, ou fora da Inglaterra, provavelmente não conhece a marca; mas Innocent Drinks é uma velha sensação de idos 2 anos atrás. A empresa começou em 1998, quando três formandos de Cambridge reuniram-se para desenvolver uma idéia que eu gostaria de ter tido bem antes deles - fazer suco na Europa. Gastando apenas £500 em frutas variadas, vários tipos diferentes de "smoothies" foram criados a partir da mistura de coisas antes consideradas pra lá de esquisitas - como côco, banana e abacaxi.

O lançamento da marca rolou em uma barraca montada em um festival de música de Londres, quando os fundadores disponibilizaram duas caixas para o depósito das garrafinhas já vazias. No fim do dia, YES estava bem mais cheia do que NO, e os então sócios resolveram dar sequência ao ousado plano que viu a marca Innocent se consolidar em cinco importantes mercados Europeus. Hoje, Innocent Drinks vende aproximadamente 2 milhões de sucos por semana, e acaba de diversificar lançando a versão legumes e vegetais (para comer).

Sucesso absoluto, Innocent Drinks mais do que duplicou sua receita nos últimos quatro anos, aparecendo desde 2005 na lista das 100 empresas privadas que mais crescem no Reino Unido. O mais legal, e pra muitos importante, é que Innocent Drinks permanece comprometido com valores há muito tempo esquecidos pelas grandes organizações. Entre eles manter o compromisso na utilização de ingredientes estritamente naturais, desenvolver embalagens ecológicamente corretas e doar 10% dos lucros anuais da empresa para instituições de caridade. Até uma Innocent Foundation foi desenvolvida.

E o Marketing? Ah, o Marketing! Innocent Drinks é o sonho de todo recém-formado marketeiro. Através de uma forma única de interagir com o seu público alvo, o departamento de marketing acredita que se a empresa não tem condições de falar de forma transparente a respeito de alguma coisa, é porque a coisa não deve ser feita. O resultado são campanhas interativas internacionalmente premiadas, o uso de uma linguagem bastante próxima daquela falada por seus consumidores, e um produto de altíssima qualidade que justifica cada centavo investido em seus produtos - geralmente não-tão-baratos-assim.

Essa semana foi anunciada a venda de 10% a 20% da empresa para a Coca-Cola, que está para a indústria das bebidas como o Google está para a internet. O acordo de £30 milhões (mais ou menos R$ 100 milhões) foi duramente criticado devido à incompatibilidade de valores das duas empresas, mas a Innocent Drinks disse que dinheiro é dinheiro. Segundo um dos fundadores (agora muito mais rico), a ajuda do excelente sistema de distribuição da Coca-Cola fará com que outras pessoas ao redor do mundo tenham a oportunidade de experimentar os sucos da empresa. Acho válido, acho ótimo, e acho um importante passo da Coca-Cola em tentar fazer algo mais do que fingir ser verde, investindo em uma empresa verde de verdade.

Espero que logo a marca chegue no Brasil para que vocês também tenham acesso à morango com banana, manga com maracujá, cenoura com manga, morango com banana, e kiwi com maçã e limão. Parece um horror, mas é bom e tudo.
Cautela

7 de abril de 2009

Twitter

Somos cada vez mais imediatistas. Ligações telefônicas dão espaço à rápidas mensagens de texto, emails são substituídos por papos no MSN, e até agências de notícias sucumbem à nova ordem mundial encurtando cada vez mais o conteúdo daquilo que é publicado. Quanto menos tempo todo mundo tem, menos tempo todo mundo perde com aquilo que julga desnecessário - muito embora as massas tradicionalmente classifiquem como secundário tudo aquilo que de fato movimento o mundo (política, economia, educação, etc).

Sim. Tudo na vida é uma questão de prioriedades. Só acho complicado quando as pessoas passam a valorizar ferramentas como o Twitter, que restringe o conteúdo daquilo que é divulgado em 140 caracteres. Dá medo de ver o mundo virando prático a ponto de que nada mais mereça uma boa explicação em parágrafos. Acho uma pena porque continuo acreditando que um bom raciocínio, pra fazer sentido, precisa de bem mais de 140 caracteres, um scrap, um link ou meia dúzia de fotografias. Dá pra viver sem, mas até quando, eu não sei.

6 de abril de 2009

Whitechapel

Ontem, na volta de Greenwhich, fomos à Whitechapel - uma das regiões tradicionalmente mais pobres de Londres, completamente dominada pela comunidade muçulmana do Bangladesh. Foi ótimo. Conhecemos a fábrica de sinos, fundada em 1510. Visitamos a mesquita, vizinha da sinagoga, prima das portas de música e cinema locais. E até doces típicos acabamos comprando para experimentar. Uma caixa com 10 tipos diferentes nos custou cerca de 5 libras. E foi uma delícia. Levamos ao restaurante e comemos depois da janta.

Também passamos em frente a dois bancos islâmicos: o Islamic Bank of England e o Habibsons Bank (sensacional, dá até vontade de tatuar). Embora eles estejam baseados na Inglaterra e obviamente obedeçam às regras financeiras do Reino Unido, os bancos combinam as práticas Ocidentais com as regras da lei Sharia. Dessa forma, os bancos islâmicos são proibidos de pagar juros pra pessoas que decidem emprestar seu dinheiro à instituição, e também banidos de incentivar industrias que não condizem com os preceitos do Islã.

Acabamos nosso passeio em Brick Lane, que me agonia muito aos domingos. Muita gente, muito álcool e muita fumaça. Acho que estou ficando velho. Terminamos a noite na parte de fora de um restaurante vegetariano maravilhoso chamado Rootmaster, que tem a forma de ônibus como você pode ver pela foto. A comida é excelente e super bem feita, mas também cara. Paguei 9 libras por três pedaços de alface recheados com mais alface, um courgette quente com molho verde em cima, e seis tomates pequenos quentes jogados no meio do prato. O ponto alto foi a manta vermelha que o garçom nos trouxe quando com a noite veio o frio. Um bom começo de semana, então.

5 de abril de 2009

Lusomania

Dos cinco países que mais cresceram no mundo em 2008, dois são países de língua portuguesa.

Azerbaijan 31%
East Timor 24%
Macau 17%
Angola 16%
Armenia 14%
André Vieira

Enquanto procurava fotos do mercado de Roque Santeiro (ver post anterior) encontrei o site de um fotógrafo carioca chamado André Vieira. As fotos são maravilhosas. Ele trabalha como freelancer de publicações como Newsweek, The New York Times e Vanity Fair. Merecidamente.


Angola, guerra e Roque Santeiro


Angola é hoje número quatro no ranking mundial de crescimento econômico, atingindo a excelente marca de 16.70% em 2008 - uma alta de 1.70% com relação ao ano anterior. Como todos sabem, o país foi colonizado pelos Portugueses por mais de 500 anos, conquistando a idependência em 1974 após cerca de 10 anos de batalhas internas lideradas por três violentos grupos separatistas: MPLA, FNLA e a UNITA.

Na sequência da retirada de Portugal do controle político e econômico da região, Angola caiu nas mãos de líderes acostumados a utilizar a violência como meio de detenção de poder. Em 1975, os três principais grupos guerrilheiros do país reuniram-se para firmar um acordo que garantia a formação de um governo pacífico de transição política, organizado por grupos diretamente envolvidos na independência do país. O acordo durou menos de dois meses.

Desde 1975, então, as principais organizações criminosas de Angola lutaram pelo domínio do território, colecionando vidas através de uma guerra selvagem caracterizada pela instalação de mina terrestres. De acordo com a UNICEF, um em 415 Angolanos são afetados por acidentes com minas terrestres, resultando na média de uma vítima a cada dois dias. Engana-se, no entanto, quem pensa que a culpa é exclusiva dos Angolanos.

O fim da colonização Portuguesa aconteceu em uma época politicamente importante para o mundo. Durante a Guerra Fria, as superpotências mundiais tornaram-se rapidamente envolvidas na questão Angolana. Enquanto os Estados Unidos apoiavam a FNLA e a UNITA, a União Soviética dava total suporte à MPLA. O apoio, obviamente, envolvia o fornecimento de armas e treinamento, e o interesse final da conquista de todo o território a fim de dar início a um processo mascarado de exploração mineral. Algo que, como estamos cansados de saber, a América faz melhor do que qualquer outra nação no mundo.

Em 1979 a MPLA subiu ao poder, elegendo o atual líder José Eduardo dos Santos como Presidente da República. Como era de se esperar, os conflitos internos permanecem bastante ativos até hoje no interior do país, uma vez que a democracia ainda não foi completamente estabelecida. Angola não tem eleições e Santos já desfruta de total poder político há 30 anos completos. Em Fevereiro de 2002, o governo finalmente conseguiu eliminar seu maior rival político, Jonas Savimbi - líder da UNITA - coroando a glória de seu poder absoluto.

Angola hoje apresenta índices altíssimos de crescimento e figura entre os 10 países mais corruptos do mundo. Recentemente, o FMI divulgou que aproximadamente $4 bilhões gerados pela indústria petrolífera Angolana desapareceram completamente do mapa desde 2000. Mesmo assim, Angola continua muito bem obrigado. Admitida à OPEC em 2006, figura hoje como principal fornecedora de óleo para a China. Em 2004, recebeu um empréstimo de $2 bilhões da superpotência asiática, limitando o poder do FMI no país e estreitando os laços comerciais que fazem com que Luanda apresente uma das maiores comunidades de Chineses na África - 20 mil pessoas. Praticamente o suprassumo da máfia.

Dos 4 milhões de habitantes da capital Luanda, 10 mil encontram-se diariamente no mercado de Roque Santeiro - um dos maiores da África. Lá a muamba come solta em 1km quadrado de coisinhas. Se não tem no Roque, dizem, é porque ainda não foi inventado. Abaixo selecionei algumas fotos do mercado, começando com a visão especial do topo e terminando com fotos do cinema por fora e por dentro. Sensacional.


4 de abril de 2009

OTAN, Afeganistão, etiqueta e política

Chegamos ao quase fim da primeira visita presidencial do novo líder Americano à Europa. Terça-feira, após uma curta visita de dois dias à Turquia, Obama volta à Washington D.C. um pouco mais escolado do que chegou. Embora seus esforços em interagir e se expressar mais amigável e popularmente tenham gerado uma recepção mais positiva por parte de diversos segmentos da sociedade européia, a rejeição de alguns importantes países membros da OTAN em enviar tropas adicionais ao Afeganistão demonstra que as coisas não são tão simples assim.

Durante coletiva de imprensa junto à líder Alemã Angela Merckel, Obama ousou em dizer que tem certeza que a Alemanha entenderá a necessidade de cooperar com a fracassada investida dos Estados Unidos no Afeganistão. Merckel desconversou. Durante toda sua visita, ele fez questão de passar a mensagem de que o risco de uma nova ofensiva terrorista na Europa é maior do que a possibilidade de algo novo acontecer nos Estados Unidos devido à proximidade geográfica das regiões de conflito. Bobagem. A única bandeira que ainda queima no Oriente Médio é a dos Estados Unidos e Israel.

Acho muito feio, e bastante decepcionante para quem acreditava que tudo ia mudar, que Obama tenha voltado atrás em sua estratégia de retirada do Afeganistão. Agora, ao invés de bater em retirada, optou por enviar mais tropas. Globalizou suas idéias inovadoras. Precisou de uma eleição para entender que após devastar um país inteiro, destruir famílias inocentes e quebrar a economia de um país como o Iraque, é preciso mais cautela e cuidado. Demorou para entender, enfim, que política de guerra é cara do começo ao fim. E que quando o assunto é batalha e poder, o buraco é sempre - potencialmente - bem mais embaixo.

Obama está claramente utilizando sua popularidade para convencer a opinião pública européia de que terrorismo é um problema tão nosso quanto deles. Chegou esquecido de que a Europa não é os Estados Unidos. Aqui a opinião pública é contra a guerra, os níveis de educação de qualidade são bem mais elevados, e ninguém confunde a posição geográfica do Irã com a Austrália. Ao que tudo indica, Obama voltará para os Estados Unidos bem menos feliz do que poderia. A França já rejeitou a proposta, batendo em retirada. E a Bélgica e Espanha concordaram em mandar 35 e 12 comandates especializados em estratégia de guerra. Praticamente nada, enfim.

Quem começou a Guerra, deverá agora terminar, e arcar sim com os custos e despesas finais. O plano de invasão ao Iraque foi elaborado dentro dos Estados Unidos da América sob o comando de George W. Bush, o investimento em armas e soldados foi aprovado pelo Congresso dos Estados Unidos e dividir a conta na etapa final é trabalho sujo e desleal. Falta agora ensinar à América o básico da etiqueta. Aquele que dá a janta, lava a louça e seca a pia. Voilà.

2 de abril de 2009

Só no sapatinho



Aqui no G20, Lulinha está sempre no meio da galera do mal. Quando chegou, arrancou um sorriso e um bom-te-ver surpreso da Rainha - a piranha. Depois, aonde quer que a piranha ia, ele ia também. Em foto oficial, estava ele sentado ao lado da velha. Na entrada da convenção, grudado no Gordon Brown. E hoje, no dia do barraco, está lá, sentado ao lado de Obama.

Hoje de manhã, logo depois do café da manhã, arrancou um sorriso do presidente da América que parou tudo o que estava fazendo para dizer que adora Lulinha. Nas palavras de Obama, o político mais popular do mundo. Lula não falou nada. Sorriu e deu uma piscadinha. Esse não veio ao mundo à passeio. Assista aqui.