31 de maio de 2009

Isfahan

Quando voltamos da exibição de Shah Abbah no British Museum, trouxe pra casa um bolo de cupons para uma promoção que premiará um dos visitantes com duas passagens para Isfahan, na região central do Irã. Mandei uns 30. Sempre li sobre Tehran, tendo lido alguns livros da Shirin Ebadi, mas ignorava completamente a existência desta que parece ser a cidade mais bonita do Irã. Abaixo, duas fotos da beleza absurda da cidade. Nunca ganhei promoção nenhuma. Queria muito. O sorteio é dia 12 de Junho. Fingers crossed.


O verão e o mercado

O último verão de verdade que tivemos em Londres foi o de dois ou três anos atrás, quando temperaturas de mais de 35 graus foram registradas na região central da cidade. Aqui, quando o sol esquenta, o parque seca e as pessoas morrem. Ninguém está acostumado com o calor. O aquecedor do ônibus funciona sem parar. Embora só tenhamos tido dias esporádicos de calor depois do verão de 2005 ou 2006, 2009 promete ser do bom. Nossa primavera em si já foi melhor que os verões anteriores.

Com os mercados financeiros internacionais sofrendo as consequências da crise e o verão bombando na Inglaterra, perdem as empresas aéreas e ganham - estranhamente, para nós - a indústria da jardinagem. O sol, os parques cheios e o alto desemprego reduziram consideravelmente o número de pessoas planejando viagens internacionais, causando um impacto negativo nos números de empresas como EasyJet e Ryanair, afetando ainda mais as empresas aéreas mais caras como British Airways - empresa esta que está na pindaíba, tendo registrado um prejuízo duas vezes maior em 2008.

Um bom verão e desemprego, por outro lado, trazem boas notícias para empresas ligadas à jardinagem. A indústria, que registrou uma receita de £5 bilhões em 2003, caiu para £3 bilhões com o mal tempo de 2007 e agora apresenta sinais de recuperação. Pessoas desempregadas recorrem à jardinagem como terapia para ocupar o tempo gasto procurando novas vagas na internet. Os Britânicos são apaixonados por jardinagem. Vivem em função de seus jardins, mesmo sem um clima consistente para justificar o tempo perdido. É tipo curtir bonecos de neve na Paraíba. Vai entender.

Bom domingo e aproveite bem a informação inútil deste post para fazer algo que preste do seu fim de semana.

30 de maio de 2009

Do dia

Li uma frase ótima atraibuída ao Mahatma Ghandi hoje na academia. First they ignore you, then they laugh at you, then they fight you, then you win. Praticamente uma lei da vida. O riso é a arma predileta dos imbecis.

29 de maio de 2009

Hampstead Heath

Quem mora nos trópicos não se importa com essas coisas, mas hoje consegui dormir com as janelas abertas pela primeira vez em anos. Dormi e acordei, juntei todos os meus livros e revistas, e fui ao parque. O Heath fica a aproximadamente 15 minutos da minha casa. Na parte aonde eu fico - porque todo mundo acaba sempre voltando pra mesma parte - o público é, no geral, mais velho. Nada de criança pequena jogando bola ou brincando com cachorro. Quando estou lendo não gosto nem de criança, nem de bola, nem de cachorro.

Enquanto lia uma pilha de coisas que precisava deixar em dia, um grupo de mães chegou. Acho que eram umas 10, todas com seus recém-nascidos, carregando os carrinhos e se preparando para um exercício físico conjunto. Nada mais irritante do que exercício físico conjunto, afinal. Foi uma coisa militar. Todas pararam, deixaram suas crianças embaixo das árvores, e ficaram malhando umas coisas super esquisitas por alguns minutos. Depois, tão militarmente quanto antes, elas foram embora. Depois a expectativa de vida das mulheres é mais alta do que a dos homens e ninguém sabe o motivo.

Abaixo, então, algumas fotos do meu dia de hoje. As fotos foram tiradas do meu Blackberry Storm, que ainda está sendo testado, embora já tenha sido aprovado (super viciante, uma desgraça). Hoje, sexta-feira, perdi meu livro Human Cargo no ônibus, recebi as novas edições da National Geographic e Economist, comecei a ler sobre pequenas e média empresas para a dissertação do meu mestrado, fiz um mini recreio comigo mesmo no parque, e já comprei outro Human Cargo usado na Amazon porque o livro é ótimo e eu estou apenas na metade. Fiz tudo e nada ao mesmo tempo. Depende de quem vê.





Em Estocolmo

Estocolmo por si só já é um problema. Meio parado, loiro e bege. Imagine você pagar para visitar Estocolmo e acabar em um hotel assim. Eu não consigo pensar em nada mais desagradável do que sair de um avião e entrar em outro - para dormir, tomar banho e café da manhã. Bem diferente, mas péssimo.

28 de maio de 2009

Tam-tam-tam-tam...

A TAM informou ontem à noite que vários vôos foram redirecionados de Congonhas para Guarulhos devido à interferência de uma rádio pirata na comunicação entre torres de controle e aeronaves. Depois de detectar uma série de buracos negros na cobertura aérea nacional após a queda de um avião da Gol, essa notícia. Como assim?

Eu tenho medo de avião, mas vivo no ar porque sei que a possibilidade de cair é pequena - ainda que existente, justificando meu medo. No entanto, com a quantidade absurda de pequenos incidentes que leio todos os meses nos jornais do Brasil, estou considerando banir viagens domésticas de avião até que algo seja feito quanto a isso. Aviões são constantemente arremetidos, turbulências fortes não são percebidas a tempo pelos pilotos e agora essa nova de rádio clandestina. Meus comentários dispensam links.

O mundo inteiro se dedica à segurança aérea, todos os grandes aeroportos pelos quais já passei parecem ser altamente organizados e bem cuidados, e até a China que tem uma quantidade de vôos infinitamente maior e aeronaves muito mais velhas registra uma média ridiculamente menor de acidentes aéreos do que o Brasil. Tendo isto em mente é fácil concluir que algo está bastante errado. Mudanças técnicas e de conduta precisam ser aplicadas com urgência para dar fim a essa roleta russa da incompetência.

Há tempos que não vôo TAM. É regra. Acho o serviço péssimo, os aviões internacionais são assustadoramente antigos, e sempre entro achando que não vou sair. As cadeiras reclinam muito pouco, o espaço é altamente reduzido, e o estofado cheira mal - tem aquele cheiro de quem usa sempre a mesma jaqueta, pega chuva, e continua sem lavar as roupas. Pra completar, TAM cai o tempo todo e os pilotos são brasileiros. Uma hora ou outra, aquele famoso jeitinho escroto acaba aparecendo. E jeitinho, em avião, acaba em merda. Eu, tô fora.

26 de maio de 2009

Coisa boa

Frank e Anita estão comemorando 81 anos de casamento. Frank tem 101 anos e Anita, com 100, disse que os dois ainda brigam, mas sempre trocam uns beijinhos antes de dormir. O casal tem dois filhos, 5 netos e 7 bisnetos. Acho que a BBC desistiu de falar sobre os que vieram depois. O filho mais novo do casal, Frank, tem 74 anos. Achei tudo muito legal.
Cadê?

Algo está bem errado. O site da BBC deu várias notas sobre as enchentes do Amazonas. Segundo informações oficiais, 49 pessoas morreram e 400 mil crianças estão fora da escola por conta da água. Tanto a Globo quanto a Folha de São Paulo sequer mencionam o que está acontecendo na página principal de seus sites de notícias. Fiquei sabendo que quando morreram 100 em Santa Catarina, o país parou. O que estão esperando para ajudar o Amazonas?

25 de maio de 2009

Comptoir Libanais


Hoje, segunda-feira, é feriado no Reino Unido. Estavamos assistindo Revolutionary Road na cama e resolvemos interromper tudo porque o sol saiu e a temperatura subiu. Londres está nos presenteando com um fim de Maio maravilhoso. Tomara que o bom tempo nos visite durante todo o verão. Enquanto espero o banho alheio, resolvi dar uma passada para contar do restaurante libanês que descobrimos no sábado.

O Comptoir Libanais é um café libanês com cara de mini-mercado. Tudo é bem feito, bem apresentado, e bem vendido. Antes do bar, com uma variedade incrível de guloseimas (pratos frios e quentes), você dá de cara com uma prateleira enorme cheia de delicacies em embalagens daquelas que dá vontade de comprar uma de cada só pra colocar de enfeite na geladeira. Não compramos nada, mas comemos feito dois reis. Além de bom, é bonito e barato.

Não deixe de ir se puder.

British jobs for British workers

Eu não sei nem por começar pra expressar a minha angústia quanto ao slogan que é título deste post. Com as eleições para o conselho da União Européia se aproximando, são vários os candidatos e diversas as propostas que aparecem por todos os lados. Um dos partidos usa esta frase infeliz do Gordon Brown, primeiro-ministro de um sistema nacional falido como é o da Inglaterra.

É claro. Com a crise e a perspectiva de um futuro incerto, todo mundo quer saltar do barco antes de chegar na queda. Tem pai que mata a família inteira, e tem partido político que começa a vomitar merda. O inadmissível, no entanto, é ter um país como a Inglaterra - um dos maiores defensores do capitalismo como sistema econômico - trabalhando em cima da idéia de que os trabalhos do Reino Unido devem ser dados para trabalhadores Britânicos.

Todo mundo já sabe. Sistemas capitalistas buscam em maior eficiência, melhor performance e baixos custos formas de aumentar o lucro. Com o dinheiro movimentando o sistema, a competitividade aumenta, e como resultado empresas ou trabalhadores ineficientes são levados à falência por não conseguirem sobreviver em um sistema que favorece quem dá mais. O Reino Unido, como todos os outros países Anglo-Saxônicos, colheu os louros do capitalismo durante um período muito longo, e hoje começa a sentir os efeitos negativos de uma política irresponsável que é culpa única e exclusiva dos países até então considerados líderes políticos e econômicos.

Logo, recebo com incrível frustração e espanto a reação imbecil de quem está assustado e não sabe pra onde correr. Países em desenvolvimento como os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) têm cada vez mais voz no cenário político internacional, desfrutam de relativa estabilidade econômica e caminham rumo ao que parece um processo de ida sem volta. Considero um absurdo este slogan e pronunciarei minha verdadeira revolta abertamente para quem quiser ouvir. Eu poderia falar mais a respeito, mas não quero perder a minha segunda-feira de manhã alimentando o meu desgosto.

Espero que a Europa perceba rapidamente que não pode sem os países em desenvolvimento que fazem com que suas econômicas continuem girando. E espero, de coração, que esta bobagem termine logo depois das eleições. A crise é fruto da política irresponsável e exploratória dos países ricos, os resultados negativos são culpa exclusiva de governos Anglo-Saxônicos, e imigrantes do mundo não podem - e não vão - levar a culpa por um sistema falido, uma indústria pouco competitiva, e trabalhadores pouco qualificados e cada vez mais incapazes de andar com as próprias pernas.

24 de maio de 2009

Prontofalei



O vídeo que mais assisto no You Tube.

23 de maio de 2009

Blackberry Storm


Vendi a alma e recebi um upgrade da Vodafone. Mal vejo a hora de estar conectado o tempo todo. Vai ser um horror e o blog bombará mais do que nunca. Agora aguenta coração.

22 de maio de 2009

Say no to 0870

Acabei de ligar para a Vodafone reclamando uma lista das 30 coisas que me deixam puto quanto ao serviço de telefonia que eles oferecem. A telefonista, Ana, me deu uma dica ótima. Disse que existe um site chamado saynoto0870.com que oferece todos os equivalentes convencionais das empresas listadas no site. Hoje o dia terminará melhor porque o Barclays, meu banco, deixou de ser 0870 e passou a ser 02476842100. Quando na Inglaterra, diga não você também.
Fim de semana em Lisboa









Papéssimo

Esta semana li uma série de artigos a respeito da visita do Papa ao Oriente Médio, avaliando sua presença, criticando suas posições ao longo dos últimos anos de papado, e inevitavelmente comparando a sua administração à de João Paulo II. Em 2009, Papa Bento teve importantes compromissos diplomáticos que deixaram à desejar. Visitou a África, e fez um tour pelo Oriente Médio que incluiu uma desastroza passagem por Israel.

Alguns dos artigos que li argumentava que Papa Bento é mais autêntico, mais espontâneo. Dizem que todos os discursos dele são escritos por ele mesmo, e não passam por nenhuma aprovação antes de serem lidos em público. No mais, vale a pena lembrar, o Papa Bento tem um passado que é dificilmente bem aceito pela comunidade internacional. É alemão, já foi nazista, e dedicou-se uma vida inteira à escrever trabalhos acadêmicos ultra-conservadores, esbarrando em temas polêmicos como o uso do preservativo na relação sexual.

No Vaticano, o papo é o mesmo. Bento substituiu todos os padres e bispos responsáveis pela diplomacia da cidade-estado, passando o cargo para vários que sequer estudaram na escola que forma religiosos diplomatas. Ignorar a importância de bons diplomatas por trás de um chefe de Estado, ainda mais no contexto atual da igreja católica, é realmente não entender a necessidade de manter boas relações, falar o que deve ser falado, e ocultar o que não precisa voltar a vir à tona. Um bom trabalho diplomático faria tudo isso levando em consideração os objetivos do Vaticano ao redor do mundo - ter sempre, e cada vez mais, bons fiéis.

O resultado desse descompromisso são as gafes políticas que Bento não para de cometer. No ano passado, durante uma palestra na Europa, ele mencionou que o Islã é uma religião violenta, uma vez que conquistou fiéis ao redor do mundo através do uso da espada. Sua declaração causou revoltas e mortes ao redor do mundo, reinforçando o seu argumento, segundo disse através de um comunicado oficial logo depois. Mais tarde, a caminho da África, largou mais uma vez que usar camisinha está errado, e que religiosamente correto é se abster sexualmente para combater a Aids. E agora, usando uma sequência de palavras erradas em Israel, deixou de mencionar o Holocausto em horas importantes, enlouquecendo os locais presentes.

A verdade é que embora o Papa ainda faça barulho, tem muito pouco poder fora de países ainda largamente católicos como a Itália, a Polônia e outros países da América Latina. Aqui na Inglaterra notícias relacionadas são raramente publicadas. Tudo o que ouvimos são críticas de pensadores dizendo que a igreja católica parou no tempo, acadêmicos ofendidos com declarações que contrariam interesses sociais (como no caso do preservativo e do combate à Aids), e escândalos envolvendo padres pedófilos e estupradores. Sim, a igreja católica tem todo o direito de excomungar uma menina de 9 anos grávida do padrastro. No entanto, a realidade é que o mundo dá cada vez menos atenção e importância para o que a igreja faz, ou quem ela excomunga.

Se o outro Papa era pop, esse Papa é péssimo.

21 de maio de 2009

Kuniyoshi


Este fim de semana vamos ver qual é a do Kuniyoshi no Royal Academy of Arts e, quem sabe, finalmente, dar um pulo na galeria de fotos do V&A. Segunda-feira é feriado. O meu já começou faz dias. Bom descanso pra você também.
Viva



Em Londres, 19 graus já é motivo de comemoração.
Só na América

Quando eu era pequeno, minha tia costumava dar surras em seus filhos com a mangueira do botijão de gás. A técnica não deu um resultado muito eficiente, mas deveria ser reintroduzida no mercado. Nos Estados Unidos, uma retardada fugiu com o filho que tem câncer, por acreditar que uma religião indígena alternativa vá curar a criança. Os médicos dizem que as chances de cura do menino, caso siga tratamento convencional, são altas. Agora, obviamente, a justiça está atrás desta insana para tentar salvar a pobre criatura inocente. Parece que em Guantanamo ela volta ao normal.
Mea culpa

Ontem eu descobri que os bilhetes comprados para assistir Madame de Sade no teatro eram para o dia 17 de Maio - domingo passado. Não, eu não poderia ter ido por conta de minha última prova de finanças. Com as provas já marcadas, a pergunta que não quer calar é porque diabos eu resolvi marcar a peça para esta data horrível e impossível. Todas as possibilidades levantadas em um conselho de ética domiciliar organizado de última hora não fazem nenhum sentido. Se aos nem 25 anos essas coisas já acontecem, imagine você o nível de atrocidades que cometerei aos 50.

20 de maio de 2009

Darfur para dummies

Quem sabe um pouco mais do que eu a respeito do conflito vai achar este post irritante, mas resolvi escrever porque hoje tive uma mini-aula interessante a respeito da região. O Sudão foi dominado pelos Britânicos até a metade dos anos 50. Depois disso, por um motivo ainda desconhecido a mim, o país foi deixado nas mãos da minoria Árabe, que até hoje controla o país.

Com a propagação do domínio político e militar dos Árabes, a maioria preta se revoltou ainda nos anos 70, ganhando um micro território no sul, chamado de Sudão do Sul. Lá os pretos têm autonomia e poder, embora ainda respondendo e cumprindo ordens deixadas por al-Bashir, o presidente Árabe do Sudão.

São mais de 50 anos de revoltas internas. Dois dos três líderes do Sudão desde a saída dos Britânicos implementaram as leis da Sharia, submetendo não-muçulmanos à lei islâmica. Embora a maioria do país seja de fato muçulmana, muitos dos pretos possuem suas próprias tradições tribais e religiosas, não concordando com as restrições impostas pelo governo central.

O conflito. Este que vemos hoje na tevê tem a ver com vários fatores e envolve diretamente a Líbia, a Inglaterra, a China, e o meio-ambiente. Ingredientes perfeitos para uma grande merda. Pra começar, então, podemos voltar às origens do problema, analisando o clima interno de extrema tensão entre Árabes e o povo nativo do Sudão - os Pretos.

A história começa na boa. Pretos e Árabes sempre viveram juntos na região de Darfur. Os pequenos conflitos que surgiam desse convívio eram resolvidos entre eles mesmos, através de conselhos de pessoas mais velhas e influentes - os sheikhs - ou, em última instância, batalhas travadas fora das aldeias, para proteger mulheres e crianças de ambas as tribos.

Com a mudança climática e a diminuição das chuvas depois dos anos 80, Darfur passou a dispor de menos recursos naturais para o pastoreio. Com a redução das regiões propícias para o cultivo da terra e a criação de animais, Pretos e Árabes passaram a ter que dividir o mesmo solo, dificultando cada vez mais o convívio entre estes dois povos. Como dividir nunca foi das atividades favoritas dos seres humanos, o circo estava armado.

O governo Árabe do Sudão, defendendo os seus próprios interesses, passou a fornecer armamento para os fazendeiros Árabes de Darfur, dando início a opressão racial que deu origem ao que foi mais tarde classificado pelas Nações Unidas como genocídio. Durante o mesmo período, a Líbia de Gaddari tentava expandir seu território mais ao sul, invadindo o Chad. Mais de 50 mil armas se perderam no mercado negro de Darfur (o suprassumo da redundância).

Com isso, desta vez armados, os nativos de Darfur passaram a revidar os ataques executados pela milícia Árabe apoiada pelo governo do Sudão - os chamados Janjaweed. O presidente do Sudão, al-Bashir, resolveu que era hora de expulsar os nativos de Darfur, matando meio milhão de pessoas para dar espaço aos fazendeiros Árabes e, é claro, aqueles dispostos a fazer mais dinheiro explorando as reservas naturais da região.

Como esclareci no post anterior, o presidente do Sudão foi condenado pelo tribunal internacional de Hague por genocídio e crimes contra a humanidade, mas continua exercendo seu poder como se nada tivesse acontecido. O governo do Chad, país vizinho, mantém a hospitalidade de receber os refugiados de Darfur, mesmo sob ataque do governo do Sudão que agora resolveu atacar os campos localizados na fronteira. Resumindo, o Sudão - e especialmente Darfur - continua largamente ignorado pela comunidade internacional.

Fica difícil entender o motivo real dos países ricos em aceitar o convívio com um conflito que continua a matar os nativos de Darfur, um governo opressor que age contra os interesses de seu povo, e mais um genocídio que serve para provar que a eliminação de povos é efetiva e difícil de punir. E a China, que agora ficou importante, é o país que mais compra óleo do Sudão. Uma medida drástica vinda do Oriente certamente traria resultados positivos ao conflito, mas coerência não pode ser esperada de um país que não dá importância aos direitos humanos dentro de seu próprio território.

E assim o conflito continua, lá no Sudão, longe de tudo, terra de ninguém. Ninguém quer entrar, ninguém quer resolver, e ninguém quer mais saber.

19 de maio de 2009

The Translator


Comecei a ler The Translator ontem a tarde, logo após o término de minhas provas. O problema de fazer esses cursos complicados é que não sobra tempo pra ler sobre os assuntos que você quer ler. E ter que ler, entender e reproduzir artigos que não são considerados o seu cup of tea, é tortura. The Translator é um relato emocionante e emocionado de um dos milhares de sobreviventes do genocídio de Darfur.

Daoud Hari é Zaghawa, uma tribo do norte de Darfur. Filho de uma família influente da sua vila de aproximadamente 300 pessoas no meio do nada, Daoud foi enviado pra capital do Sudão quando pequeno, pelo irmão mais velho, Ahmed. Lá ele estudou, trabalhou por alguns anos, e aprendeu inglês - uma arma que usaria mais tarde para lutar pela causa de seu povo, e proteger os seus interesses pessoais. Em terra de cego, quem tem olho é rei.

Quando sua vila foi atacada pela milícia dos Janjaweed, Daoud ajudou a deslocar sua vila do norte de Darfur até o Chad, para onde milhares de outras famílias se mudaram após os ataques no Sudão. Com a ajuda de um passaporte falso do Chad, Daoud conseguiu o emprego de tradutor de uma comissão enviada pelas Nações Unidas para avaliar se os ataques propagados em Darfur poderiam ser considerados genocídio - lembrando que genocídio restringe-se a ataques feitos com a exclusiva intenção de disseminar uma raça específica.

O livro é recheado de histórias horríveis, frutos de meses de entrevistas traduzidas por Daoud à comunidade internacional. Um relato que reflete com precisão a realidade de um povo completamente abandonado, causando um imenso desconforto em quem senta para ler o seu livro. Em um dos relatos, Daoud conta a história de uma mulher de 30 anos que é estuprada e jogada no meio do deserto com seus três filhos. Sem fonte de comida ou água, ela é obrigada a assistir a morte de seus três pequenos e, sem a possibilidade de fazer nada para salva-los, enforca-se em uma árvore ao lado das crianças. Daoud a encontrou horas depois do ocorrido. Três crianças desnutridas chorando o suicídio de uma mãe desesperada.

E, como em tudo, o lado positivo de saber um pouco mais a respeito das tradições de um povo até então desconhecido. Daoud, como todo bom filho da terra, narra com paixão os hábitos e costumes de sua infância. Seu relato do cheiro de suas vilas é tão vivo, que dá pra sentir daqui o cheiro do chá do fim da tarde. Uma passagem interessante foi a de saber que, devido à alta taxa de mortalidade infantil em Darfur, a tradição local não permite que uma mãe dê nome ao filho antes de ter certeza que o mesmo vai sobreviver. De acordo com a cultura local, recém-nascidos que não sobrevivem são considerados pássaros de passagem que não quiseram ficar. Tradição que alivia a dor.

Desde Fevereiro de 2003, 450 mil pessoas foram mortas e 2.7 milhões deslocadas. Embora o presidente do Sudão já tenha sido condenado pelo Tribunal Penal International em Hague, na Holanda, a palhaçada continua. Veja aqui uma entrevista dada por ele em Maio para a jornalista Zeinab Badawi da BBC.

Mini Darfur

13 de maio de 2009

Bliss

Hoje tive a maior prova de que ignorância é mesmo força, como disse no post anterior. Amanhã tenho uma prova de Research Methods. Passei seis meses preocupado com a parte quantitativa da matéria, mas hoje, ao rever todos os ítens e regras da prova de amanhã, atingi o nirvana. As questões são tão complexas e cheias de equações, que uma calma súbita muito grande tomou conta de mim na biblioteca.

Colocando tudo na ponta do lápis e calculando, o benefício de não saber do que se tratam as questões é muito maior do que o custo de ficar mais velho sofrendo sobre o leite derramado. Preocupação dá dor nas costas, pesadelo e câncer. Dá próxima vez terei o cuidado de me certificar que nada como estatística está na grade do curso em que me inscrevo. Vivendo, aprendendo e apanhando bastante sempre.

Update

O post acima foi escrito ontem. A prova já foi feita e todos viveram felizes para sempre.

12 de maio de 2009

Paraguai

Ignorância é força. Ouvi dizer por aí que o presidente do Paraguai era padre e fui checar a informação. Fernando Lugo era não só padre, como bispo da diocese de São Pedro. Em Abril deste ano, três mulheres apareceram dizendo que Lugo é pai de três crianças diferentes. Coisa da época em que ele ainda dava a comunhão para as velhinhas de Assunção. Lugo já reconheceu uma criança. As outras duas, ele deixará para depois. O Paraguai tem aproximadamente 7 milhões de habitantes e 91% da população é Católica. Para você que não sabia nada sobre o Paraguai como eu, ficou sabendo agora.

Islândia

Hoje é dia de homenagear os países mais desimportantes do mundo: o Paraguai e a Islândia. As notícias da Islândia nunca chegam por aqui, mas o país acaba de eleger Johanna (com sobrenome impossível de escrever ou pronunciar) para presidente. Além de aeromoça (com cara de aeromoça e tudo), ela é a primeira chefe de Estado gay a se eleger em todo o mundo. Como a Islândia deve enviar sua aplicação para se juntar à União Européia em Junho, acredito que ouviremos falar mais de Johanna em um futuro não muito distante. Até lá, a Islândia continuará meio pequena e isolada, lá em cima, flutuando com 300 mil pessoas em cima.
Da família

Vi ontem umas fotos da Diana Ross na época dos Supremes. É ou não é a cara da Michelle Obama? Com direito à olho desproporcional e tudo.



10 de maio de 2009

Alzheimer

Eu tenho ficado cada vez pior com datas. Tenho medo que minha auto-percepção de ser ruim nisso me leve a uma situação de permanente esquecimento de tudo. É que nem matemática. Por me considerar péssimo, já acho que não tenho solução. No segundo grau, colei todas as provas. No vestibular, chutei quase tudo. E agora, no mestrado, não faço questão de aprender, primeiro porque não quero, e depois porque já acho que não consigo entender. É mais uma questão de não perder tempo com o inatingível. O custo benefício não compensa.

Mãe, eu te amo!

Há um mês avisei que não lembraria da data e pedi para ser lembrado. Mãe sempre lembra dessas coisas. Minha mãe, no entanto, não avisou. Hoje é domingo, dia das mães, e a minha ficou se fazendo de salame - como dizemos no Sul, aonde a sociedade se organiza em torno da produção do salame. São seis horas da manhã no Brasil, e eu tenho vontade de ligar só pra encomodar, mas vou me conter. Então, no dia das mães, nada mais apropriado do que postar uma foto da minha. Mãe, eu te amo!

Maughan day

Sempre que entro no Orkut pra especular através da conta secreta da família, saio reflexivo. Todos os perfis têm fotos do Carnaval, todo mundo se veste de mulher, e o ano daqueles que um dia estudaram comigo é dividido entre a parte em que se economiza pra comprar um som melhor pro carro e a parte em que se economiza pra alugar uma casa de praia em 452 pessoas.

Pau a pau com o álbum do Carnaval está o da formatura, no daqueles que se formaram. Um orgulho para os pais, embora ninguém goste de ler, estudar, ou trabalhar. Como quase todo mundo tem dinheiro, o desinteresse sempre acaba revertido em intercâmbio cultural aos 25 anos. Muito mato, leite de vaca e roupa chadrez no interior da Virgínia. Pra aprender inglês de novo, explicam as avós.

E tudo bem, porque afinal eu sou uma pessoa evoluída e tolerante que não perde tempo falando mal dos outros no domingo de manhã. Hoje o sol está lindo - é o domingo com mais cara de domingo de todos os domingos de 2009. E o que eu vou fazer? Eu vou botar a minha capa de Harry Potter pra estudar o dia inteiro em Hogwarts, imaginando do alto da torre do castelo como teria sido bom nunca ter feito a inscrição na Kings College. Amanhã, quarta e sexta-feira eu tenho provas finais de Comparative Management, Research Methods e International Business Strategy. Semana que vem, a cereja do bolo: International Finance and Accounting.

E pra fechar, já que não dou as caras há dias, um pouco de cultura. A Maughan Library é a biblioteca da Kings College em Chancery Lane. Tem mais de 750 mil livros, jornais, cds e dvds, foi construída em 1851 e de tão bonita dá até vontade de estudar - salvo domingos mais domingos de todos os domingos do ano. Tem até página no Wikipedia só pra ela. Então vá lá você aproveitar o seu domingo, que eu vejo o que eu faço do meu por aqui.

4 de maio de 2009

George Sampson, 14 anos

The wind of change

Aqui na Europa, protestos contra os efeitos causados pela integração da Europa através da União Européia não param de crescer. A França passou o fim de semana inteiro protestando - embora às vezes eu tenha a impressão que a França passe todos os finais de semana inteiros protestando de qualquer maneira. Trabalhadores da Europa ocidental e rica pedem medidas imediatas que protejam nações como Inglaterra, Itália e França da mão de obra reduzida que multinacionais encontram em países do leste, como Polônia e os Bálticos. Agora, com a água batendo na bunda, pedem igualdade dentro do bloco econômico.

Não é de hoje que as transformações vêm acontecendo, e todos sabemos que o processo é irreversível. A liberação econômica veio claramente para ficar. O problema, no entanto, é que cada vez mais - e principalmente com a crise - os países ricos da Europa (e do mundo) percebem que os efeitos da globalização privilegiam principalmente as empresas multinacionais e os países em desenvolvimento. Na medida em que o tempo passa, as coisas parecem piorar para aqueles que antes dominavam o cenário político internacional. Veja porque.

Durante as últimas décadas, a Europa e os Estados Unidos resolveram dar continuidade à política econômica de exploração de sempre, achando que mais uma vez tudo acabaria em pizza. Iriam explorar a China, passar a perna na Polônia, tirar um sarro do México e, no bom estilo colonizador, trazer toda a riqueza como fizeram quando descobriram os minérios na América do Sul. A China se tornaria a fábrica de quintal dos Estados Unidos, e todo mundo seria feliz para sempre, ganhando uns centavos e trabalhando feito animais. No entanto, o feitiço virou contra o feiticeiro.

O que percebe-se hoje em dia é que os países em desenvolvimento - e em uma escala menor, também o Brasil - passaram a desenvolver produtos de alta tecnologia que competem diretamente com aqueles criados no mundo desenvolvido. Deixaram de se especializar em bonecos de plástico, e passaram a priorizar pesquisa e desenvolvimento de novos produtos. No último ano, para espanto de todos, a China registrou a patente de 1,225 novos produtos, ganhando casos de alta tecnologia contra grandes empresas como a coreana Samsung. Dessa forma, com tecnologia de ponta e mão de obra barata, Obama tem motivos de sobra para se preocupar.

Estamos vivendo uma época importante de transição. O mundo já viu o mesmo acontecer inúmeras vezes. A mesma trajetória seguida pelos Estados Unidos quando em desenvolvimento, no século 18, é agora perpetrada por países em desenvolvimento que não param de crescer, trabalhando duro em alcançar capacidade técnica que os permita igualdade de competição. Quem antes só servia para fazer noodles e burritos, terá chances de conseguir condições melhores de vida. Já o mundo dos loiros de olhos azuis ganhará o direito de pedir igualdade. Afinal, a igualdade de uns, é o problema de outros.

2 de maio de 2009

O melhor emprego do mundo


Estou há tempos pra entender a campanha do melhor emprego do mundo. No início do ano, a ilha de Hamilton, na Austrália, lançou uma campanha global com o objetivo de encontrar a pessoa ideal pra preencher a vaga de caretaker da ilha. O governo local precisa de alguém com relevante experiência profissional, espírito jovem e aventureiro, alta capacidade de comunicação e disposição pra viver em uma mansão com piscina por seis meses, escrevendo a respeito da experiência de viver por lá. Quanto mais turistas, melhor.

O salário é de £70 mil por ano, com todas as despesas pagas. Tourism Queensland, a instituição organizadora do evento, já recebeu mais de 10 mil aplicações de todo o mundo, e acaba de selecionar 16 candidatos finais que farão parte de um reality show para definir quem sairá vitorioso. O felizardo terá que trabalhar 12 horas mensais, escrever em um blog, alimentar as várias espécies de peixes e recolher as cartas da ilha de vez em quando. Fora isso, segundo o diretor da campanha, o ganhador "estará bastante ocupado se divertindo pela ilha".

Eu particularmente não consigo pensar em nada pior do que ficar sozinho em uma ilha por seis meses, mas se você é desses que acha ótimo fazer nada, boa sorte. E não, o melhor emprego do mundo ainda não foi inventado. Boa noite e bom domingo.
EuroMillions

Sempre que a Mega-Sena acumula, meu pai recebe um email com seis números que infelizmente nunca nos levaram a lugar nenhum. Mas eu jogo. Adoro jogar. Sou daqueles que quer mais, vende a casa, faz dívidas e depois mata a família pra não ver ninguém sofrendo. Todo cuidado é pouco. Hoje vi que a EuroMillions acumulou em £101 milhões - ou aproximadamente R$ 330 milhões. Quando eu era pequeno, passava uma semana pensando em o que fazer com o dinheiro. Hoje apostei e estou concorrendo a £101 milhões. A possibilidade existe, a sorte está lançada e já estou fazendo meus planos contando com o dinheiro na conta. Essa semana me sentirei potencialmente mais rico que todo mundo.
Cidade do México / Ensaio sobre a cegueira