Darfur para dummiesQuem sabe um pouco mais do que eu a respeito do conflito vai achar este post irritante, mas resolvi escrever porque hoje tive uma mini-aula interessante a respeito da região. O Sudão foi dominado pelos Britânicos até a metade dos anos 50. Depois disso, por um motivo ainda desconhecido a mim, o país foi deixado nas mãos da minoria Árabe, que até hoje controla o país.
Com a propagação do domínio político e militar dos Árabes, a maioria preta se revoltou ainda nos anos 70, ganhando um micro território no sul, chamado de Sudão do Sul. Lá os pretos têm autonomia e poder, embora ainda respondendo e cumprindo ordens deixadas por al-Bashir, o presidente Árabe do Sudão.
São mais de 50 anos de revoltas internas. Dois dos três líderes do Sudão desde a saída dos Britânicos implementaram as leis da Sharia, submetendo não-muçulmanos à lei islâmica. Embora a maioria do país seja de fato muçulmana, muitos dos pretos possuem suas próprias tradições tribais e religiosas, não concordando com as restrições impostas pelo governo central.
O conflito. Este que vemos hoje na tevê tem a ver com vários fatores e envolve diretamente a Líbia, a Inglaterra, a China, e o meio-ambiente. Ingredientes perfeitos para uma grande merda. Pra começar, então, podemos voltar às origens do problema, analisando o clima interno de extrema tensão entre Árabes e o povo nativo do Sudão - os Pretos.
A história começa na boa. Pretos e Árabes sempre viveram juntos na região de Darfur. Os pequenos conflitos que surgiam desse convívio eram resolvidos entre eles mesmos, através de conselhos de pessoas mais velhas e influentes - os sheikhs - ou, em última instância, batalhas travadas fora das aldeias, para proteger mulheres e crianças de ambas as tribos.
Com a mudança climática e a diminuição das chuvas depois dos anos 80, Darfur passou a dispor de menos recursos naturais para o pastoreio. Com a redução das regiões propícias para o cultivo da terra e a criação de animais, Pretos e Árabes passaram a ter que dividir o mesmo solo, dificultando cada vez mais o convívio entre estes dois povos. Como dividir nunca foi das atividades favoritas dos seres humanos, o circo estava armado.
O governo Árabe do Sudão, defendendo os seus próprios interesses, passou a fornecer armamento para os fazendeiros Árabes de Darfur, dando início a opressão racial que deu origem ao que foi mais tarde classificado pelas Nações Unidas como genocídio. Durante o mesmo período, a Líbia de Gaddari tentava expandir seu território mais ao sul, invadindo o Chad. Mais de 50 mil armas se perderam no mercado negro de Darfur (o suprassumo da redundância).
Com isso, desta vez armados, os nativos de Darfur passaram a revidar os ataques executados pela milícia Árabe apoiada pelo governo do Sudão - os chamados Janjaweed. O presidente do Sudão, al-Bashir, resolveu que era hora de expulsar os nativos de Darfur, matando meio milhão de pessoas para dar espaço aos fazendeiros Árabes e, é claro, aqueles dispostos a fazer mais dinheiro explorando as reservas naturais da região.
Como esclareci no post anterior, o presidente do Sudão foi condenado pelo tribunal internacional de Hague por genocídio e crimes contra a humanidade, mas continua exercendo seu poder como se nada tivesse acontecido. O governo do Chad, país vizinho, mantém a hospitalidade de receber os refugiados de Darfur, mesmo sob ataque do governo do Sudão que agora resolveu atacar os campos localizados na fronteira. Resumindo, o Sudão - e especialmente Darfur - continua largamente ignorado pela comunidade internacional.
Fica difícil entender o motivo real dos países ricos em aceitar o convívio com um conflito que continua a matar os nativos de Darfur, um governo opressor que age contra os interesses de seu povo, e mais um genocídio que serve para provar que a eliminação de povos é efetiva e difícil de punir. E a China, que agora ficou importante, é o país que mais compra óleo do Sudão. Uma medida drástica vinda do Oriente certamente traria resultados positivos ao conflito, mas coerência não pode ser esperada de um país que não dá importância aos direitos humanos dentro de seu próprio território.
E assim o conflito continua, lá no Sudão, longe de tudo, terra de ninguém. Ninguém quer entrar, ninguém quer resolver, e ninguém quer mais saber.