Tudo vira bostaNo Egito costuma-se dizer que o caminho simples é o melhor caminho. Muito natural, por tanto, que a gripe suína tenha sido resolvida de forma imediata e simples. Por lá, ao ouvir a respeito da epidemia, foi decidido que se o problema era porco, que porcos deixassem de existir. Assim sendo, como já é de praxe no Oriente Médio, o governo optou por abrir mão de maiores análises e partir direto para o extermínio total da espécie, cortando de uma vez o mal pela raíz. No Islã, o porco é considerado um animal sujo e sua carne proibida no livro sagrado. Matar os porcos no Egito foi, por tanto, uma união do útil com o agradável.
O que as autoridades Egípcias parecem não perceber - ou não aprender - é que o caminho mais simples é também um caminho frequentemente burro e tortuoso. Porcos, principalmente na cidade do Cairo, desempenham um papel importante no extermínio de ratos e, principalmente, no gerenciamento de lixo orgânico. Todos os meses estes mesmos 350.000 porcos agora exterminados desempenhavam a importante tarefa de comer 6.000 toneladas de lixo orgânico, melhorando as condições de trabalho dos catadores de lixo da capital. Pra terminar, o Egito esqueceu de analisar que a carne destes mesmos porcos servia como renda adicional para a família de muitos. Sem carne, sem dinheiro, sem educação.
Outras consequências negativas da medida foram o aumento de quadros de hepatite entre os catadores de lixo que agora precisam colocar - literalmente - a mão na massa, a diminuição em produtividade da já escassa reciclagem de lixo, o aumento da quantidade de ratos e casos de pessoas com mordidas de ratos e, como não poderia faltar, as revoltas organizadas por catadores de lixo cristãos. Como tudo no Oriente Médio tem que acabar em guerra religiosa, os catadores - de maioria Copta - acreditam que o extermínio foi uma afronta direta do governo muçulmano com a intenção de exterminar porcos e cristãos. Tudo vira bosta.